Ménade

A casa era pequena, quase não se via, afundada entre muros cobertos de hera. Chegava-se lá por um caminho de terra batida que despontava logo a seguir ao fontanário. As pessoas não gostavam da mulher que vivia na casa e não se cansavam de zurzir nela. Era uma porca e desleixada, nem figura de gente tinha, parecia uma louca, não falava com quase ninguém e contava-se à boca pequena que em algumas luas se transformava em bizarras criaturas - bem ouviam aqueles cascos pétreos de cabra a martelar no lancil do fontanário, e as sombras irrequietas no caminho de terra, para lá e para cá. Os moços da terra também a conheciam, fora ela quem os desmamara a quase todos, recebendo-os no segredo da casa da hera e desvelando as artes do amor. Não que algum o o admitisse, ela era uma velha, uma velha para os quinze e vinte anos das primeiras experiências, e cheirava mal e metia nojo, além de ser bruxa e louca. As palavras e as juras negavam qualquer ligação àquela mulher repugnante, ainda que todos eles ostentassem nas pernas, a marca cicatrizada dos seus cascos aguçados.

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