Contra a corrente

Saiu com o carro da garagem e, a uns três metros apenas, uma batida no carro. "Alguém me quer falar" - murmurou para si, enquanto preenchia os papéis. No escritório foi o mesmo, deixava cair coisas, entalava os dedos nas gavetas, dava coquinadas nas esquinas das mesas. "Alguém me quer falar", cismava. No regresso ao lar, mais dois toques com o carro, o primeiro superficial, contra um carro que travou a fundo à sua frente, mas o outro, mais danoso, pulverizou-lhe o chassis dianteiro do carro até ao motor, ferro-velhando o seu carro novo. Horas mais tarde, chegou finalmente a casa, graças à boleia de um policial. Do outro lado da sebe baixa do seu jardim, viu com espanto uma mesa espírita de tripé a rodopiar pelo jardim e, a correr atrás dela, a sua excêntrica vizinha, com a ranhoca de ectoplasma a reluzir na cabeleira - "Vizinha! Vizinha! - gritava - falei agora mesmo com o seu defunto marido e ele disse-me para lhe lembrar que já não está a passar férias em Chelsea, e que tem de conduzir na estrada pela direita!".
-Eu sabia que alguém me queria falar!!

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