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Os comedores de lótus

Pateira de Fermentelos. Pateira conseguia perceber, lugar de arribação de patos, agora, Fermentelos, Fermentelos era um nome estranho, de sonoridade germânica. Talvez o nome dalgum ganso da Baviera que arribasse a estas águas em busca de cerveja doutras paragens, lembrou-se com uma réstia de bom-humor, olhando as águas escuras e moliçosas do lago, acocorado no cais do restaurante. Águas escuras como a memória, onde não se pode fazer vaguear a mão sem a sentir enredada em seres e coisas desconhecidas. A mulher acercou-se dele, afagando-lhe o ombro.
- Vais andar de gaivota?
- Nop, estas gaivotas também não têm ar de ser muito usadas, ainda ia ao fundo. E cheira mal por aqui, devem usar a lagoa como fossa.
- Vá, vamos para dentro, o Almoço Anual de Retornados está a começar. Ao menos é num lugar giro, não é daqueles almoços que se ouve falar, no meio do pinhal com cerveja morta e galinha à cafrial coberta de moscas.
- Temos mesmo?
- Claro. Eu sei que não gostas destas coisas, que andaste muitos anos a medicação e que África, para ti, só nos documentários sobre vida selvagem. Mas o meu irmão pediu-nos e tu concordaste. Ele vem à procura de um amigo de Quelimane que não sabe se está vivo ou morto, e nós vimos à trela, e até podes encontrar velhos camaradas de Moçambique e matar saudades.
- Saudades de quê? Dos Unimogs e Berliets na picada? Do paludismo e de matar gente?
- Vá, é só um almoço, caramba! Comemos alguma coisa, dançamos uma morna ou uma marrabenta e voltamos ao ninho.
Assentiu, vencido, e seguiu-a, seguro por uma mão. À porta do restaurante, espreitava-se as listas de pessoas, procurando nomes, regiões. Um ou outro reencontro, assinalado por abraços e exclamações. Rumaram à mesa onde o cunhado, que já se tinha instalado, guiava-os com os dois braços a agitar-se no ar, cruzando uma sala que parecia o parlatório barulhento de uma penitenciária. Sentaram-se. Uma mesa grande, redonda, com uns três grupos familiares, um dos quais era de Quelimane - motivo da escolha. Ainda havia dois lugares vagos na mesa, e não tardou que um casal se candidatasse a eles.
- Podemos sentar-nos?
- Claro - rugiu o seu cunhado, como se fosse tudo dele - somos todos como irmãos, marinheiros do mesmo barco.
Reconheceu o sujeito, com profundo desagrado.
- Freitas?! -interpelou o outro - o cabo Freitas, da Base Aérea? Não te lembras de mim? Sou o Pacheco...
- Pacheco! - exclamou com uma falsa vivacidade - Estás na mesma! Como é que tem corrido a vida? Já tens netos?
- Dois, e estão na Universidade. Tu estás diferente, Freitas, mais encorpado e com bigode e barba. Pareces o Che. Não o Che Guevara, o Ché-ga-te para lá!
Riram-se todos da piada, e, a partir daquele instante, o ego forte do seu cunhado eclipsou-se e começou o reinado do Pacheco, do charme do Pacheco, das suas histórias que mereciam ser ouvidas e das piadas de riso irresistível. À medida que a sua própria mulher se mostrava rendida ao encanto do antigo camarada, Freitas amuou, desempenhando o serviço mínimo indispensável, acenando com a cabeça a algumas inflexões de oratória e ostentando o seu riso amarelo profissionalizado. Sopa, Pacheco, primeiro prato, Pacheco, segundo prato, Pacheco. Nem a comida o calava, devia enfiá-la por um funil ligado ao estômago.
- Não tenho pejo em dizê-lo: tenho dinheiro! Sou de uma família rica e com nome, e vivo para perpetuar o meu nome e tirar proveito do meu dinheiro. Viajamos muito, temos uma casa na Catalunha e outra em Ibiza. Neste momento, era para estarmos na Catalunha, porque estou a escrever um ensaio sobre Dali que a editora me encomendou, mas a minha mulher, em vez de ir de avião, quer ir até lá de carro. Esteve a ler o Monsenhor Quixote de Graham Greene, e agora quer ir de carro por estradas secundárias, à procura de aventuras. Uma viagem destas leva tempo a preparar, tenho de conseguir um Seat 600 que ainda ande em condições, e mandar fazer-lhe uns melhoramentos: ar condicionado, GPS, frigo-bar...
- Talvez umas asas e propulsão a jacto... - sugeriu o Freitas, contestatário, arrancando um sorriso pálido aos circunstantes.
- Com umas asas ia parar à Praça de S. Pedro e era logo beatificado pelo Papa ou, no mínimo, designado Monsenhor, Monsenhor Pacheco, e eu nomeava logo a minha mulher de "Ma-senhora".
Nova gargalhada, o Freitas não percebia de quê. A conversa já tinha tomado novo rumo, justificando o propósito do almoço com louvores à vida no Ultramar, à unidade e fraternidade das pessoas (brancas e portuguesas), os camarões grelhados servidos com cerveja Laurentina, as praias do Índico, as caçadas, os laranjais de Vila Pery...
Freitas enfastiou-se, talvez por estar atulhado, de comida e conversa. Chegara a hora da pausa, das sobremesas e gulodices, do ir e vir de doces e brandys. Sem dar por isso, viu-se sozinho à mesa com o camarada de armas.
- Devia haver uma garrafa de Pombe para nós - considerou Pacheco, bebericando uma aguardente - e um par de pretas para cada um. Ah! Já me esquecia! Tu não gostas disso... - fez uma pausa, saboreando a atrapalhação do Freitas - A tua mulher sabe que gostas de piça, e que eras a menina bonita do furriel André Mota?
- Não! E também não interessa, isso são águas passadas...
Pacheco soltou uma sonora gargalhada.
- Sim, águas passadas. Isso lembra-me que gostavas de ir à socapa até ao aldeamento do Rovugué para ver os pretos a tomar banho nus no rio. Metes-me nojo!
- Águas passadas - repetiu monocordicamente - como aquele tipo que torturamos na margem do Zambeze, e a tua sala de troféus. A tua mulher sabe da tua sala de troféus?
Pacheco não respondeu, o homem do mundo era apenas um predador ferido, olhando o seu rival com um feroz brilho metálico nas pupilas. Quando os restantes convivas regressaram à mesa, conseguia-se perceber a tensão no ar. Aos poucos, Pacheco voltou à forma, alternando ditos e piadas que o colocaram de novo no centro da constelação. A mulher do Freitas arrancou-o à mesa com o pretexto de irem à mesa das sobremesas. Ele deixou-se levar, esperando as perguntas.
- Estiveram os dois a discutir...mas porquê? O Pacheco é uma pessoa encantadora, não percebo como é que andas à procura de pretextos para te chateares com ele. Tens ciúmes? Ciúmes de mim e da atenção que todos lhe dão?
- Não, nada disso. O Pacheco é um animal, era capaz de desmembrar e afogar um homem num rio e, a seguir, contar umas piadas sobre o assunto. Na boa. Não tem nada que se pareça com uma consciência, e os psiquiatras e farmacêuticos não ganham nada com ele.
- Deixa-te de imagens, sabes que não gosto de floreados quando estou a falar contigo.
- Então aqui vai. O Pacheco, o culto e viajado Pacheco que tu tanto estimas, fazia colecção de cabeças humanas. De pretos, dos pretos que matava quando não estávamos muito longe da Base. Cortava-lhes a cabeça e conservava os despojos num frasco de vidro com formol. Tinha quase uma vintena de cabeças conservadas. Era a sua sala de troféus. Quando chegavam novos soldados à Base, diziam-nos para lhes mostrarmos as vistas, e isso significava levá-los à Torre de Controle para ver a pista e os campos de algodão em volta da Base e, como escala obrigatória do passeio, a sala de troféus do Pacheco, para se lembrarem porque é que estávamos ali.
- Não acredito, estás a inventar, és doentio...
- É a pura verdade, posso jurá-lo...
- Pára! - ordenou ela - não te admito que jures pela saúde de ninguém, muito menos dos nossos filhos e da nossa neta. Nem sequer, que penses nisso. Aliás, não quero saber de mais nada, tinhas razão numa coisa: não devíamos ter vindo. Vamos embora agora, cordialmente e sem carantonhas!
- De acordo!
No regresso à mesa, já envergavam a roupagem de gestos e palavras de despedida, ao familiar que por lá ficava de lágrima no canto do olho a recordar as peripécias divertidas doutros tempos e aos passageiros ocasionais daquela mesa. O Pacheco beijou as faces da mulher do Freitas de uma forma calorosa e ostensiva, e deu ao seu camarada um grande abraço, com uma palmada vigorosa nas omoplatas que ressoou em volta.
- A gente vê-se por aí - afiançou - se por acaso chegares a encontrar aquela minha prima de Moçambique, a Andreia, dá-lhe um beijinho por mim!
- Es-t-t-tá Okei, fi-ca entregue! - gaguejou o Freitas com um aperto na garganta.
Despedidas desfeitas, fizeram-se ao caminho para casa, deixando para trás aquele mundo perdido como se o afundassem de novo no olvido.


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