Calhada

A jovem muito branca e muito esterlicadita, estava atrasada e tentava chegar o mais depressa possível à entrevista de emprego, ziguezagueando por entre as pessoas que caminhavam desencontradas no salão grande do aeroporto. Foi preciso apenas um carrinho de criança de puxar por uma corda, para iniciar a reacção em cadeia: tropeçou no carro, cambaleou, tentou apoiar-se num rasta, tropeçou na sua guitarra, chocou com uma mala com rodas e, aí, levantou voo, literalmente, sobre o ror de gente que descia na escada rolante, e ela rolando sobre elas, conhecendo carnalmente, com a cabeça, os braços, as coxas, muitas pessoas diferentes sem distinção de sexo, raça ou credo. Quando o seu corpo, depois de muitas piruetas e revoluções, aterrou no piso inferior em cima de uma floreira de jasmins (em cima dos jasmins, não da floreira), a moça compôs o cabelo e a saia, olhou o relógio e saiu correndo para os escritórios da Companhia. Causou muita boa impressão na entrevista, favorecida pela fragrância dos jasmins, e o entrevistador lhe afiançou que ela parecia ter uma aptidão natural para o trabalho de aeromoça.

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