Buratino

1 - O O-Kee-Pa

Estágio final das provas de iniciação dos jovens guerreiros Mandans, das planícies do Missouri, o O-Kee-Pa era um suplício no qual eram cravados espetos de madeira através da pele e dos músculos dos neófitos e, em seguida, atavam-se cordas a esses espetos, deixando-os suspensos no ar. As gravuras que se fizeram deste ritual atroz da extinta tribo dos Mandans, sempre me fizeram lembrar marionetas humanas, suspensas do alto, talvez manipuladas por um Jeová-Manitou exótico, de penacho de penas e pinturas de guerra, que os preenchia de sonhos alucinatórios de grandes caçadas e batalhas vitoriosas, enquanto extraía prazer do seu patético sofrimento.

2 - história infantil

No meio de uma floresta de carvalhos, o títere fugido do teatro de fantoches encontrou um duende embriagado arrastando o seu garrafão de bom uísque. "Ajuda-me" - pediu-lhe - "Fugi dos fios que me articulavam e das mãos violentas na extremidade desses fios. Transforma-me numa pessoa, peço-te, tu consegues, quero ser uma pessoa de carne e osso". "Seja - resmungou o duende - estou tão bêbedo que nem me consigo esconder, e um pequeno feitiço não vai fazer mal a ninguém". E com uma poção, realizou o feito e transformou o títere apinocado num ser humano. Muitos anos depois, os dois voltaram a encontrar-se. O duende saiu-lhe ao caminho quando ele atravessava a mesma floresta, materializou-se no ar a partir de um novelo de névoa. "Não és aquele títere entristecido que queria muito ser uma pessoa? Ao que vens, para voltares aqui?". O jovem começou a chorar de desespero. "Pensava que bastava ser uma pessoa para que ninguém me manipulasse, mas enganei-me. Tenho dezenas, centenas de fios, que me repuxam os gestos e os passos para além da minha vontade. Quero ser de novo um títere de madeira e pano, peço-te, tu és capaz, ao menos, no teatro, eu recebia aplausos".

3 - O titeriteiro ao contrário

Juntaram-se uns milhares de pessoas, e decidiram criar no céu um títere gigantesco que pairaria sobre todos como um papagaio de papel. Chamaram-no logo de deus. Criaram-no grande para se sentirem pequenos, pintaram-na com as cores vivas dos seus sonhos e as sombras negras da sua maldade, moviam com longos fios as suas garras e as suas asas, e por ventriloquia colocavam na sua boca as palavras que eles próprios engendravam nas suas entranhas de fezes. Vieram os outros, os inocentes e puros de espírito, e sentiram-se subjugados por aquele títere atemorizador e pela santidade dos seus manipuladores, e obedeceram-lhes, vivendo e matando por eles. E o títere, o deus, cada vez maior e mais complexo, tornou-se tão imenso que não podia resistir à força do vento, que, no fragor de uma tempestade e sem sacrilégio, ergueu um e outros nos ares e os atirou contra as arestas de uma montanha. Céus e terra ficaram mais limpos.

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