Azedia

A traição tem por vezes um gosto horrível, traz especiarias a mais ou foi confeccionada com coisas estragadas. Ele fartava-se de a avisar: "não pecarás por pensamentos e palavras, actos e felações", e ela assentia, fazendo figas por debaixo do livro sacro. O gosto azedo da traição tomou-o de uma só vez, quando soube de tudo, da infidelidade e do escárnio. Não só andava com outros, como gozava com ele, chamava nomes ao coitadinho, nomes repercutidos de má-língua em má-língua até lhe emporcalharem o ouvido. Bramia de fúria na sua ausência, prometia banhos de sangue e vendettas torpes, mas diante dela esmorecia, amolecendo a raiva em lume brando. Talvez a culpa fosse dele, animava-se, a culpa de uma relação nunca era só de um deles, talvez ele não tivesse entendido os sinais que ela lhe dirigia, como soi dizer-se nos artigos das revistas femininas. Se deixava a cama por fazer de manhã, era como que a dizer "saio insatisfeita, alguma coisa não ficou completa", e quando voltava a casa e trazia odores insólitos a suor e perfume de homem, era para lhe dar a entender que só roçara por outros para procurar o perfume que aquela paixão havia perdido. Enquanto assim divagava entre psicologias e inquéritos de revista, a sua mulher entrou na sacristia. Mais uma vez, teve a certeza de que ela tinha acabado de o trair, talvez com o esposo, aquele bexigoso. Prometeu a si mesmo que não deixaria que a fúria se intrometesse entre os dois, e despiu a sotaina para honrar o seu corpo.

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