Achado

No comboio, de partida de Lisboa, um casal senta-se a meio de uma carruagem, defronte de um outro casal que se instalara há momentos. Uns e outros andam na casa dos cinquenta. Velhos instintos de primata levam-nos a estudar os vizinhos e extrair conclusões: amistosos, gente séria e inofensiva, acessíveis à palavra e à comunicação. Metem conversa, ainda com o comboio na estação, e o diálogo urde-se naturalmente como se deslizasse por carris de aço em direcção a um destino preciso e cronometrado. Vamos para Coimbra, diz um. A "terra dos doutores", não, não! O nosso doutor está em Lisboa, ou antes, futuro doutor, que só está no terceiro ano. Que coincidência! A nossa filha também, estuda literatura, ou artes, uma coisa assim, viemos passar o fim-de-semana com ela. Vivem em Coimbra há muito? Desde sempre, e vocês? Também vivemos em Coimbra, mas só há uns meses, num apartamento alugado, decidimos passar lá uns tempos quando o meu marido se reformou. Gostamos de Coimbra e sempre acalentamos o sonho de a conhecer melhor. Quatro, cinco coincidências, uma sequência, uma boa mão de poker, os homens falam de futebol, estão nos dois lados da barricada da Segunda Circular, mas ambos simpatizam com a Briosa, pelo equipamento negro dos estudantes, elas desfiam histórias, partilham momentos como se fossem família, gente do mesmo sangue reunida numa noite de Inverno em volta de um velho álbum de fotografias.
Chegam finalmente a Coimbra. Porque não partilhar um táxi? Excelente ideia! Temos de continuar a encontrar-mo-nos, talvez com os filhos, almoçar e dar uns passeios pela cidade. Quando dão instruções ao taxista apercebem-se: vivem na mesma rua. Incrível! Parece uma daquelas coisas do Jung. Na rua almejada, dividem as despesas do táxi. Onde moram? Alugamos um apartamento naquele prédio amarelo...Não pode ser?? É o nosso prédio!! Moramos ali há quinze anos, vocês devem ter alugado o apartamento que era do contabilista! É maravilhoso! - crocitam os quatro seres, quase em uníssono - assim podemos ver-nos todos os dias, sem termos de telefonar a combinar. Despedem-se os dois casais no átrio do prédio, abraços, beijocas, e beijocas endereçadas aos filhos ausentes.
Nunca mais se falaram desde então!

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