INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Dever cívico

Alienaram-lhe os bens. Entraram na sua casa e fizeram as partilhas diante do seu nariz. Um dos deputados eleitos pelo Distrito trazia consigo a sua amásia-secretária para fazer um arrolamento dos pertences, o autarca anafado veio para partir o bolo, com licenças de construção a cheirar a dinheiro saindo dos seus bolsos como asas a borboletear, das altas instâncias vinha o assessor para as vertigens do Ministério do Equipamento e tinha a incumbência de avaliar os despojos das águas-furtadas da casa, e porque também havia águas envolvidas fazia-se acompanhar pelo responsável da quinquagésima comissão criada para o racional aproveitamento da água e dos recursos naturais, e claro está, do presidente de uma empresa de comercialização de algálias que era, por coincidência, sobrinho de um dos membros do executivo. No meio de toda aquela agitação, o dono da casa, ou que julgava sê-lo, arranjou forças para gritar: "Parem! Lá porque não voto, não quer dizer que esteja morto!".

Guerra de Tróia

Tive problemas com o modem. Um pingue-pongue de rede e luzinhas. O modem empancava, eu espancava-o, tudo isto tendo como música de fundo o ruído da ventoinha, como um coro trágico. Finalmente, este conflito chegou ao fim, eu saí dele com a minha autoridade ligeiramente beliscada, o modem, por sua vez, ficou bastante maltratado, e sujo, com fiapos de teia onde luzem patinhas de escaravelho e asas translúcidas de mosca.

Pele

Apenas duas semanas depois da erupção, os que haviam sido expulsos pelo vulcão voltaram ao lugar das suas casas sepultadas. Já não choravam, as únicas lágrimas que se permitiam agora eram as gotículas de suor dos seus corpos, porque tinham muito trabalho pela frente. Amontoaram escombros sem préstimo, ergueram paredes e telharam as casas improvisadas, criando em volta as primeiras hortas sobre a cinza fecunda do vulcão, e trabalhavam aí sentindo na planta dos pés o calor da terra. No meio deles, os cães e os porcos foçavam nos escombros desprezados, devorando deliciados, restos de cadáveres. "Como são capazes?" - perguntava uma repórter televisiva da cidade, menos preocupada com as respostas, do que com o vento que desmanchava o seu penteado. Encolhiam os ombros. O mesmo que dizer: "O vulcão não tem culpa, nós é que somos estupidamente frágeis".

Achado

No comboio, de partida de Lisboa, um casal senta-se a meio de uma carruagem, defronte de um outro casal que se instalara há momentos. Uns e outros andam na casa dos cinquenta. Velhos instintos de primata levam-nos a estudar os vizinhos e extrair conclusões: amistosos, gente séria e inofensiva, acessíveis à palavra e à comunicação. Metem conversa, ainda com o comboio na estação, e o diálogo urde-se naturalmente como se deslizasse por carris de aço em direcção a um destino preciso e cronometrado. Vamos para Coimbra, diz um. A "terra dos doutores", não, não! O nosso doutor está em Lisboa, ou antes, futuro doutor, que só está no terceiro ano. Que coincidência! A nossa filha também, estuda literatura, ou artes, uma coisa assim, viemos passar o fim-de-semana com ela. Vivem em Coimbra há muito? Desde sempre, e vocês? Também vivemos em Coimbra, mas só há uns meses, num apartamento alugado, decidimos passar lá uns tempos quando o meu marido se reformou. Gostamos de Coimbra e sempre acalentamos o sonho de a conhecer melhor. Quatro, cinco coincidências, uma sequência, uma boa mão de poker, os homens falam de futebol, estão nos dois lados da barricada da Segunda Circular, mas ambos simpatizam com a Briosa, pelo equipamento negro dos estudantes, elas desfiam histórias, partilham momentos como se fossem família, gente do mesmo sangue reunida numa noite de Inverno em volta de um velho álbum de fotografias.
Chegam finalmente a Coimbra. Porque não partilhar um táxi? Excelente ideia! Temos de continuar a encontrar-mo-nos, talvez com os filhos, almoçar e dar uns passeios pela cidade. Quando dão instruções ao taxista apercebem-se: vivem na mesma rua. Incrível! Parece uma daquelas coisas do Jung. Na rua almejada, dividem as despesas do táxi. Onde moram? Alugamos um apartamento naquele prédio amarelo...Não pode ser?? É o nosso prédio!! Moramos ali há quinze anos, vocês devem ter alugado o apartamento que era do contabilista! É maravilhoso! - crocitam os quatro seres, quase em uníssono - assim podemos ver-nos todos os dias, sem termos de telefonar a combinar. Despedem-se os dois casais no átrio do prédio, abraços, beijocas, e beijocas endereçadas aos filhos ausentes.
Nunca mais se falaram desde então!

Ab-Ove

A marca italiana de carros Fiat, conheceu, desde os seus primeiros passos, um número impressionante de modelos diferentes. Os historiadores que se debruçaram sobre o passado desta marca, sobretudo os papistas e tradicionalistas, acreditam que o primeiro modelo a existir foi o Fiat Lux.

O Pico humanista


Ostra

“A vida é um doce” pensou para consigo enquanto se mudava da cama para o sofá grande. Mudou a posição dos almofadões, colocou por perto a mesinha com o cinzeiro e os aparelhinhos electrónicos, e aguardou enquanto a empregada doméstica lhe servia o pequeno-almoço num carrinho. Comeu-o rapidamente, com a sofreguidão de iniciar o dia.
O salão principal da sua casa fora construído no primeiro piso da mansão, uma escadaria recurva em espiral ligava-o ao piso inferior e ao terraço. Toda a ala oeste da sala era preenchida por um vidro grosso, através do qual podia esquadrinhar o bulício das casas vizinhas. O tecto possuía ao centro uma cúpula em ogiva através do qual, durante o dia os raios de sol eram filtrados com uma intensidade regulada por computador, e à noite, em dias de céu claro, podia admirar as constelações de estrelas (o que, em qualquer dos casos, era para ele sinónimo de absoluto e mortal aborrecimento). Aquela sala era todo o seu mundo, e fora concebida até ao mais ínfimo detalhe. O aquário de peixes tropicais, o sistema de som; e aquela televisão de ecrã panorâmico, que lhe fazia chegar imagens produzidas em todo o mundo, televisão que era apenas a fracção emersa de um complexo sistema electrónico.
Este seu habitáculo estava apetrechado para tudo o que sempre sentira necessidade. Mal a criada retirou o carrinho das refeições, procurou a melhor posição no sofá e apropriou-se de um dos telecomandos que estavam dispostos sobre o tampo da mesa. Premiu uma tecla e a televisão acendeu-se, apresentando em toda a extensão uma grelha de ícones variados. Uma nova tecla e os ícones começaram a rodar em espiral até um deles ficar sobreposto aos demais numa escolha aleatória. O ícone foi ampliado mostrando a figura de uma velho chinês da época imperial, cortando paus de bambu diante dos portões de um templo. Com o programa accionado, bastou-lhe dar ordens verbais para o computador reagir, e este seleccionou entre todos os programas disponíveis, um que correspondesse ao seu perfil bio-psicológico. Enquanto se iniciava um documentário televisivo sobre as porcelanas chinesas da Dinastia de Ming, o sistema de som ia libertando musica tradicional chinesa. A música não parecia provir de lado algum, antes parecia formar-se à sua volta como se fosse segregada pelas moléculas do ar. O ambiente inteligente estava em progressão, com a temperatura e humidade vinculadas aos estímulos audiovisuais, e imagens holográficas a serem formadas nos recantos da sala. A criada veio-lhe servir uma aguardente de arroz que fora requisitada na cozinha, e, com um suspiro de satisfação, bebericou-a, afagando a barriga volumosa. O computador seleccionara imagens da colheita do arroz, que eram exibidas em segundo plano na parede por detrás dele. Se prestasse atenção, ele podia sentir como a atmosfera se tornara densa e húmida como na China das monções, e a música que se ouvia trazia suavemente incorporada sons dissipados da chuva a cair.
Ficou a ver televisão toda a manhã, e a sua completa inacção só era cortada de cada vez que falava ou usava os comandos para impor directrizes ou adequar o ambiente aos seus caprichos. A meio do dia, a empregada trouxe-lhe um almoço chinês fornecido por uma firma de cattering. Comeu e bebeu vorazmente, enquanto nas paredes e tectos se sucediam imagens das figuras do exército do imperador Qin.
Depois do almoço, retomou os seus passatempos, introduzindo novas alterações. Tentava quebrar a monotonia, porque o problema do seu pequeno paraíso tecnológico é que, ao fim de umas horas, tudo lhe parecia igual. O enfado foi crescendo e, perante ele, tudo parecia fútil, quer se tratasse da cadência rítmica da música chinesa moderna ou o saké que fazia correr na sua garganta. Desistiu por fim, com o espírito alterado pelo álcool, e ficou quieto durante um bom bocado, suspirando de cansaço a espaços regulares, com os olhos fixos no céu envidraçado. A voz de Mao ascendia do regurgitar de multidões, como um vento agreste e cortante esfiapando tecidos de seda.
Quando se sentiu com forças suficientes para tomar uma decisão, interrompeu o ambiente, e deu instruções à empregada para dar uma arrumadela na sala. Quando ela saiu, a solidão fê-lo suspirar novamente. Que chatice pegada. Estava inclinado a requisitar uma mulher de traços orientais ao seu Serviço de Acompanhantes e já empunhara o telefone quando o seu olhar se deteve na data inscrita no mostrador do relógio, fazendo-o mudar de ideias. Apetecia-lhe brincar, e já haviam passado tantos dias desde que tinha brincado pela última vez.
Doido de alegria, apoderou-se de um outro comando que estava pousado sobre a mesinha. Premiu um pequeno botão que se salientava como um umbigo sob o braço do sofá e este moveu-se transversalmente ao longo da sala até ficar encostado à parede de vidro, cuja metade superior correu para um dos lados permitindo-lhe debruçar-se sobre o exterior. Como um falcão atento, sondou com o olhar aguçado a rua lá embaixo e as casas em volta. Depois de algumas hesitações, seleccionou um alvo preferencial numa casa baixa, um homenzinho calvo e moreno que se afadigava à volta do seu jardim. Talvez tivesse acabado de regressar de um emprego tão estúpido e monótono como as suas imagens da China, e agora entretinha-se ali, até à hora do seu jantar proletário com cerveja e macarrão, e futebol na televisão. Era muito activo, o homem pequenino, já aparara as sebes, arrancara as ervas daninhas dos canteiros e agora andava de um lado para o outro a cortar a relva com um aparador manual de cilindro. Parecia contente, a assobiar baixinho com pequenas oscilações da cabeça e dos ombros.
Premiu uma tecla do comando e o homenzinho deu um pequeno pulo e começou a andar mais depressa com gestos frenéticos e cómicos. Riu-se finalmente, parecia uma cena de um filme mudo. Carregou noutra tecla e fê-lo alçar a perna a cada passada. Começou a soltar sonoras gargalhadas, com as mãos agarradas à barriga. Toda a monotonia havia desaparecido como que por milagre e, agora, comprazia-se em utilizar todos os recursos da sua imaginação para torturar aquele homem. O desgraçado mudava de desempenho a cada tecla premida: andava aos pulos como no jogo do saco, esticava os braços para o céu lançando gritos estridentes; ou dava cambalhotas sucessivas, caindo aparatosamente sobre os buxos do jardim.
Continuou a rir-se até sentir os olhos marejados de lágrimas, e um certo desconforto no estômago cheio. Enquanto a sua vítima rolava de lado no jardim, com a pele da cara e das mãos retalhados pelos espinhos das roseiras e dos arbustos, ele começou a tentar conceber uma apoteose para aquela brincadeira. Pensou que seria curioso o efeito das lâminas do cilindro sobre as mãos daquele homem, mas depois reconsiderou ao pensar que aquilo poderia originar muito sangue e que seria inestética aquela mancha no verde do relvado. Já a sua vítima gritava de desespero, rolando cheio de dores pelo jardim, quando o seu mentor descobriu o sublime destino a dar-lhe. Fê-lo levantar-se e sair em disparada do jardim, correu pelo passeio a arrastar atrás de si o cortador de relva, galgou uns quantos metros até aparecer um camião enorme e prateado, e arrastado por uma vontade estranha a si, saltou para o meio da rua e atirou-se contra ele. O motorista do camião ainda tentou evitar o embate, mas já era tarde. Ouviu-se um guinchar medonho de travões e o grito lancinante de terror da vítima, logo seguido pelo som abafado do corpo de papel a ser colhido por aquele monstro de metal.
Uns poucos metros acima da rua, e sem tirar os olhos do corpo caído, o pequeno deus enrolou-se no sofá juntando as pernas ao ventre, saboreando uma espécie de formigueiro de prazer que se alastrava do peito para os braços e coxas. Não se mexeu até a sensação se desvanecer, depois, com um sorriso nos lábios, reconduziu o sofá para o centro da sala e chamou a empregada para lhe servir o jantar. Reatou o ambiente inteligente e tentou fixar mentalmente cada um dos instantes daquela brincadeira enquanto, no ecrã, um apresentador de voz reconvertida comentava uma bucólica cena campestre da colheita do arroz.

Curta-letragem

Na sua pequena biblioteca doméstica, escondia a sua reserva de anfetaminas e ecstasy numa caixa secreta alojada dentro de um calhamaço com obras de Aristóteles. Era o seu modo peculiar de perseguir a Pedra Filosofal.
*
De todas as pessoas do mundo, só teve um inimigo, odioso e odiado, em quem concentrou toda a raiva que um homem é capaz de sentir. Quando ele se finou, fez questão de ir ao funeral para vê-lo descer à terra. Numa das coroas de flores, um cartão anónimo dizia tudo: "Meu inimigo, sejas bem desaparecido!".
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Círculo vicioso
Batia-lhe e lambia as feridas, para novamente lhe bater. Ela até podia aceitar que ele lhe batesse, desde que não lhe lambesse as feridas.
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Personificação
O furacão Dean parece ter uma sinistra vocação: viver depressa, morrer depressa, e deixar um bonito rasto de cadáveres.
*
O novo Centro Médico abriu na Baixa, como uma colmeia de pequenos consultórios onde os discípulos de Hipócrates atendiam nas suas diversas especialidades. Bem no centro, numa divisão mais ampla, a cafetina Miriam abriu um Bar de Alterne. Para benefício dos que seguem as medicinas alternativas.

Contra a corrente

Saiu com o carro da garagem e, a uns três metros apenas, uma batida no carro. "Alguém me quer falar" - murmurou para si, enquanto preenchia os papéis. No escritório foi o mesmo, deixava cair coisas, entalava os dedos nas gavetas, dava coquinadas nas esquinas das mesas. "Alguém me quer falar", cismava. No regresso ao lar, mais dois toques com o carro, o primeiro superficial, contra um carro que travou a fundo à sua frente, mas o outro, mais danoso, pulverizou-lhe o chassis dianteiro do carro até ao motor, ferro-velhando o seu carro novo. Horas mais tarde, chegou finalmente a casa, graças à boleia de um policial. Do outro lado da sebe baixa do seu jardim, viu com espanto uma mesa espírita de tripé a rodopiar pelo jardim e, a correr atrás dela, a sua excêntrica vizinha, com a ranhoca de ectoplasma a reluzir na cabeleira - "Vizinha! Vizinha! - gritava - falei agora mesmo com o seu defunto marido e ele disse-me para lhe lembrar que já não está a passar férias em Chelsea, e que tem de conduzir na estrada pela direita!".
-Eu sabia que alguém me queria falar!!

Suspeita

(Quando ouço os técnicos e governantes afirmar que, para o novo Aeroporto de Lisboa, andam à procura de uma solução intermédia entre Alcochete e Ota, não posso deixar de imaginar, que deve existir uma promissora localização equidistante com o nome de Alcochota).

Verão

Saiu pela rua, nu, exibindo a sua magreza, o ventre liso, as pernas sem pregas de gordura. Dava-se aos olhares e à inveja sob um Sol de Agosto cáustico e imperdoável. À tardinha, sempre nu e elegante, juntava-se aos outros esfaimados na praça da aldeia, esperando os víveres da ajuda humanitária que seriam lançados de pára-quedas.

Com fundo

Num barco a naufragar, redigiu mentalmente um epitáfio para si mesmo: “Leu muitos livros a pensar que o fariam viver melhor, mas só nos seus últimos momentos é que percebeu que na sua biblioteca, o que faltava, eram livros de cheques, gordos e chorudos, para se gozar”.
Num barco a naufragar, concebeu um segundo epitáfio: “Tenhas o que tiveres nos bolsos e na alma, vais para o fundo à mesma”.

ociosidade

(Duas palavras parecidas, quase homófonas: Maremoto e Mar-Morto. Não podia haver duas palavras mais distintas, vicejando nas antípodas uma da outra. E, no entanto, há uma escala intermédia: o maremoto é um mar de morte).

Os comedores de lótus

Pateira de Fermentelos. Pateira conseguia perceber, lugar de arribação de patos, agora, Fermentelos, Fermentelos era um nome estranho, de sonoridade germânica. Talvez o nome dalgum ganso da Baviera que arribasse a estas águas em busca de cerveja doutras paragens, lembrou-se com uma réstia de bom-humor, olhando as águas escuras e moliçosas do lago, acocorado no cais do restaurante. Águas escuras como a memória, onde não se pode fazer vaguear a mão sem a sentir enredada em seres e coisas desconhecidas. A mulher acercou-se dele, afagando-lhe o ombro.
- Vais andar de gaivota?
- Nop, estas gaivotas também não têm ar de ser muito usadas, ainda ia ao fundo. E cheira mal por aqui, devem usar a lagoa como fossa.
- Vá, vamos para dentro, o Almoço Anual de Retornados está a começar. Ao menos é num lugar giro, não é daqueles almoços que se ouve falar, no meio do pinhal com cerveja morta e galinha à cafrial coberta de moscas.
- Temos mesmo?
- Claro. Eu sei que não gostas destas coisas, que andaste muitos anos a medicação e que África, para ti, só nos documentários sobre vida selvagem. Mas o meu irmão pediu-nos e tu concordaste. Ele vem à procura de um amigo de Quelimane que não sabe se está vivo ou morto, e nós vimos à trela, e até podes encontrar velhos camaradas de Moçambique e matar saudades.
- Saudades de quê? Dos Unimogs e Berliets na picada? Do paludismo e de matar gente?
- Vá, é só um almoço, caramba! Comemos alguma coisa, dançamos uma morna ou uma marrabenta e voltamos ao ninho.
Assentiu, vencido, e seguiu-a, seguro por uma mão. À porta do restaurante, espreitava-se as listas de pessoas, procurando nomes, regiões. Um ou outro reencontro, assinalado por abraços e exclamações. Rumaram à mesa onde o cunhado, que já se tinha instalado, guiava-os com os dois braços a agitar-se no ar, cruzando uma sala que parecia o parlatório barulhento de uma penitenciária. Sentaram-se. Uma mesa grande, redonda, com uns três grupos familiares, um dos quais era de Quelimane - motivo da escolha. Ainda havia dois lugares vagos na mesa, e não tardou que um casal se candidatasse a eles.
- Podemos sentar-nos?
- Claro - rugiu o seu cunhado, como se fosse tudo dele - somos todos como irmãos, marinheiros do mesmo barco.
Reconheceu o sujeito, com profundo desagrado.
- Freitas?! -interpelou o outro - o cabo Freitas, da Base Aérea? Não te lembras de mim? Sou o Pacheco...
- Pacheco! - exclamou com uma falsa vivacidade - Estás na mesma! Como é que tem corrido a vida? Já tens netos?
- Dois, e estão na Universidade. Tu estás diferente, Freitas, mais encorpado e com bigode e barba. Pareces o Che. Não o Che Guevara, o Ché-ga-te para lá!
Riram-se todos da piada, e, a partir daquele instante, o ego forte do seu cunhado eclipsou-se e começou o reinado do Pacheco, do charme do Pacheco, das suas histórias que mereciam ser ouvidas e das piadas de riso irresistível. À medida que a sua própria mulher se mostrava rendida ao encanto do antigo camarada, Freitas amuou, desempenhando o serviço mínimo indispensável, acenando com a cabeça a algumas inflexões de oratória e ostentando o seu riso amarelo profissionalizado. Sopa, Pacheco, primeiro prato, Pacheco, segundo prato, Pacheco. Nem a comida o calava, devia enfiá-la por um funil ligado ao estômago.
- Não tenho pejo em dizê-lo: tenho dinheiro! Sou de uma família rica e com nome, e vivo para perpetuar o meu nome e tirar proveito do meu dinheiro. Viajamos muito, temos uma casa na Catalunha e outra em Ibiza. Neste momento, era para estarmos na Catalunha, porque estou a escrever um ensaio sobre Dali que a editora me encomendou, mas a minha mulher, em vez de ir de avião, quer ir até lá de carro. Esteve a ler o Monsenhor Quixote de Graham Greene, e agora quer ir de carro por estradas secundárias, à procura de aventuras. Uma viagem destas leva tempo a preparar, tenho de conseguir um Seat 600 que ainda ande em condições, e mandar fazer-lhe uns melhoramentos: ar condicionado, GPS, frigo-bar...
- Talvez umas asas e propulsão a jacto... - sugeriu o Freitas, contestatário, arrancando um sorriso pálido aos circunstantes.
- Com umas asas ia parar à Praça de S. Pedro e era logo beatificado pelo Papa ou, no mínimo, designado Monsenhor, Monsenhor Pacheco, e eu nomeava logo a minha mulher de "Ma-senhora".
Nova gargalhada, o Freitas não percebia de quê. A conversa já tinha tomado novo rumo, justificando o propósito do almoço com louvores à vida no Ultramar, à unidade e fraternidade das pessoas (brancas e portuguesas), os camarões grelhados servidos com cerveja Laurentina, as praias do Índico, as caçadas, os laranjais de Vila Pery...
Freitas enfastiou-se, talvez por estar atulhado, de comida e conversa. Chegara a hora da pausa, das sobremesas e gulodices, do ir e vir de doces e brandys. Sem dar por isso, viu-se sozinho à mesa com o camarada de armas.
- Devia haver uma garrafa de Pombe para nós - considerou Pacheco, bebericando uma aguardente - e um par de pretas para cada um. Ah! Já me esquecia! Tu não gostas disso... - fez uma pausa, saboreando a atrapalhação do Freitas - A tua mulher sabe que gostas de piça, e que eras a menina bonita do furriel André Mota?
- Não! E também não interessa, isso são águas passadas...
Pacheco soltou uma sonora gargalhada.
- Sim, águas passadas. Isso lembra-me que gostavas de ir à socapa até ao aldeamento do Rovugué para ver os pretos a tomar banho nus no rio. Metes-me nojo!
- Águas passadas - repetiu monocordicamente - como aquele tipo que torturamos na margem do Zambeze, e a tua sala de troféus. A tua mulher sabe da tua sala de troféus?
Pacheco não respondeu, o homem do mundo era apenas um predador ferido, olhando o seu rival com um feroz brilho metálico nas pupilas. Quando os restantes convivas regressaram à mesa, conseguia-se perceber a tensão no ar. Aos poucos, Pacheco voltou à forma, alternando ditos e piadas que o colocaram de novo no centro da constelação. A mulher do Freitas arrancou-o à mesa com o pretexto de irem à mesa das sobremesas. Ele deixou-se levar, esperando as perguntas.
- Estiveram os dois a discutir...mas porquê? O Pacheco é uma pessoa encantadora, não percebo como é que andas à procura de pretextos para te chateares com ele. Tens ciúmes? Ciúmes de mim e da atenção que todos lhe dão?
- Não, nada disso. O Pacheco é um animal, era capaz de desmembrar e afogar um homem num rio e, a seguir, contar umas piadas sobre o assunto. Na boa. Não tem nada que se pareça com uma consciência, e os psiquiatras e farmacêuticos não ganham nada com ele.
- Deixa-te de imagens, sabes que não gosto de floreados quando estou a falar contigo.
- Então aqui vai. O Pacheco, o culto e viajado Pacheco que tu tanto estimas, fazia colecção de cabeças humanas. De pretos, dos pretos que matava quando não estávamos muito longe da Base. Cortava-lhes a cabeça e conservava os despojos num frasco de vidro com formol. Tinha quase uma vintena de cabeças conservadas. Era a sua sala de troféus. Quando chegavam novos soldados à Base, diziam-nos para lhes mostrarmos as vistas, e isso significava levá-los à Torre de Controle para ver a pista e os campos de algodão em volta da Base e, como escala obrigatória do passeio, a sala de troféus do Pacheco, para se lembrarem porque é que estávamos ali.
- Não acredito, estás a inventar, és doentio...
- É a pura verdade, posso jurá-lo...
- Pára! - ordenou ela - não te admito que jures pela saúde de ninguém, muito menos dos nossos filhos e da nossa neta. Nem sequer, que penses nisso. Aliás, não quero saber de mais nada, tinhas razão numa coisa: não devíamos ter vindo. Vamos embora agora, cordialmente e sem carantonhas!
- De acordo!
No regresso à mesa, já envergavam a roupagem de gestos e palavras de despedida, ao familiar que por lá ficava de lágrima no canto do olho a recordar as peripécias divertidas doutros tempos e aos passageiros ocasionais daquela mesa. O Pacheco beijou as faces da mulher do Freitas de uma forma calorosa e ostensiva, e deu ao seu camarada um grande abraço, com uma palmada vigorosa nas omoplatas que ressoou em volta.
- A gente vê-se por aí - afiançou - se por acaso chegares a encontrar aquela minha prima de Moçambique, a Andreia, dá-lhe um beijinho por mim!
- Es-t-t-tá Okei, fi-ca entregue! - gaguejou o Freitas com um aperto na garganta.
Despedidas desfeitas, fizeram-se ao caminho para casa, deixando para trás aquele mundo perdido como se o afundassem de novo no olvido.


Conselho de canicultura

Há muito para aprender sobre cães, as raças e suas características, as variantes e a história de cada uma delas. Mas não é nada de assustador, pode-se começar pelo mais simples e ir progredindo. O básico mesmo - e isso você consegue - é saber como distinguir uma ninhada de Pastor Alemão de uma ninhada de Dálmata. Não é muito difícil porque, aí, você tira pela pinta.

Calhada 2

Os dois seres extraordinários encontraram-se como pessoas comuns numa pastelaria de Centro Comercial, de onde se avistava o Tejo por entre a cortina de prédios e prediozinhos. Beberam um café a meias para partilhar segredos, fumaram um cigarro e ela, certificando-se de que ninguém os escutava, perguntou em voz sumida:
- Você é o Super-Homem, não é? Não vale a pena negar, eu tirei-o pela pinta.
- Sim, sou o Super-Homem, filho de Kal-El e Bab-El, Clark Kent é o meu nick público na vida anónima de um repórter do jornal Sol. Quando me vêem a cruzar os céus, as pessoas exclamam: "É um avião? É um cometa? É o Sócrates a caminho do reino da Utopia? Não! É o Super-Homem, o Homem Voador sem chumbo nem aditivos!". Que hei-de fazer? Sou uma estrela por estes lados. E você?
- Betty Loop, a Aeromoça, a super-heroína do Kama-Sutra - não de todo o Kama-Sutra, só daquelas posições em que eu estou por cima e posso voar, como A Rainha, O Laço do Amor, O Caranguejo...Há anos que eu ansiava por conhecê-lo, Super-Homem, por acaso não está interessado em voar comigo?
- Não! Melhor dizendo, não sei! Desde que a Super-Mulher me ofereceu uns boxers com listas em fio de Kriptonite, não consigo sequer pensar nisso.

criado(r)

O Grande Ceramista moldou Adão, o homem de barro, com a lama que trazia agarrada aos pés e, completada a obra, insuflou-lhe vida. Criou-o para ser um servo, um títere que o divertisse, um objecto decorativo de carne-e-osso para o seu Jardim. Adão tomou o freio nos dentes e provou dos frutos da árvore da sabedoria, fez terra-chã da ordem imposta e tomou consciência do muito em si que só devia a si próprio, à alvura dos seus passos novos e ao reinventar das coisas e dos fenómenos que advinha de lhes atribuir um nome.
Adão saiu-lhe melhor que a encomenda.

Chama solar

Em Ravena, diante do túmulo de Dante, arde uma lamparina alimentada com azeite das oliveiras de Florença, a terra natal de Dante, como tributo remissivo por o ter exilado. Dou comigo a pensar nos milhões de exilados por todo o mundo, expulsos, proscritos, forçados a migrar pela míngua de pão e de trabalho, pela guerra e pelo extermínio étnico.
Se, num gesto incomportável e irreal, cada país contribuísse com azeite para os túmulos dos seus filhos mortos em terra estranha, a luz de todas essas chamas tornaria mais branda a noite.
*
O nosso segredo, é vivermos em degredo, afastados, expulsos de nos conseguirmos realizar. O nosso segredo é este viver-entre, tolhido, paraplégico, cego-surdo-mudo, abraçando a angústia nascida dos obstáculos erigidos pelos outros e por nós mesmos.

Espelho lunar


Já saiu a sétima edição da revista MINGUANTE dedicada ao tema "espelho", com muitos textos, notícias e links (e três cacos meus).

(Gravura de Escher)

Espelho 2

Quebrar um espelho dá sete anos de azar, ou, no caso do Ruben, um pouco menos que isso, quando se quebra um espelho depois de cair de um sétimo andar.

Quando duas pessoas se fitam no espelho ao mesmo tempo, diz-se também que morre a mais velha, sobretudo quando isso acontece antes dum parricídio.

Uma outra crença geral é que uma pessoa não se deve mirar ao espelho à luz das velas, porque é estúpido, e deve ir primeiro ver se a luz faltou por se ter queimado um fusível.

Shoptime

Entrou na loja com alguma reserva mesclada com desdém. Uma loja escura, com estantes metálicas cheias de volumes de papel e caixas stock cinza-escuro. No balcão largo de madeira estavam expostos os artigos para venda: uma parafrenália de taças em prateado e dourado sobre bases em mármore ou metal. Algumas tinham na base uma pequena figura em bronze escuro ou dourado, de acordo com o propósito da taça. Um jogador de futebol, um tenista, um caçador de arma apontada. Um cartaz largo à sua frente, informava: "Fazemos gravações nas Tassas". Típico. Enquanto se interrogava se podia ou não fumar um cigarro, acercou-se a funcionária, talvez dona. Cinquentona, gorda e de cabelo seboso. Se tivesse um avental, podia imaginá-la a cozinhar uma panelona de comida para uma alcateia de crianças sujas e barulhentas.
- Queria comprar umas três taças e dez medalhas para uma prova de atletismo organizada pela Associação a que presido. Se puder mostrar-me o que tem.
- Com certeza, senhor...- respondeu numa voz aguda
E toca a colocar taças à sua frente, em poucos minutos ergueu uma pequena muralha à sua frente. Interrompeu a sua mostra e escolheu logo três. Em seguida, acompanhou-a ao expositor das medalhas e apontou as que pretendia, para abreviar a coisa. Pediu-lhe que fizesse as contas e entregou-lhe o cartão da Associação.
- Já agora, por acaso tem por aqui uma casa-de-banho?
- Sim senhor, é naquela porta ao fundo. É simplezinha, mas asseada. Tenha a bondade!
Resmungou um obrigado, e entrou na divisão. Urinou na sanita velha, passeando os olhos em volta. Um lavatório, umas caixas vazias a um canto e, ao pé de si, uma janela no alto com alguns vasos de flores. Enquanto sacudia os últimos pingos do instrumento, reparou melhor num dos vasos. Sentiu o sangue a acelerar-lhe. Fechou a tampa da sanita e subiu para cima dela. Incrédulo, pegou num vaso com o feitio aproximado de uma garrafa, em azul e preto. «Meu Deus!» - exclamou. Tinha nas mãos uma preciosidade, um vaso da melhor porcelana chinesa, do forno Ruyao da dinastia Song, feita para uso próprio do imperador da China. Não tinha dúvidas, o vidrado, a porcelana fina de cor branca do interior, e as cores, as cores pareciam-lhe inéditas, nunca as tinha visto nestas porcelanas, nem em fotos de catálogo - o que só aumentava o valor da peça. Bloqueou por uns instantes, mas depois lembrou-se do que podia fazer. Saiu da dependência com o vaso na mão. A senhora abriu muito os olhos e observou:
- Desculpe dizer isto, mas o senhor tem a braguilha aberta..
Fechou-a de imediato, e seguiu o planeado.
- Eu é que peço desculpas. Vi lá dentro este vaso engraçado, a senhora tem-no consigo há muito tempo?
- Há uns anos, o meu marido trouxe-o de Macau. Esteve lá a cumprir serviço quando aquilo era nosso. Se o senhor gosta dele, posso vendê-lo...
- Não, não de todo, ou seja, não tenho grande interesse no vaso, não é nada de especial, mas esta planta é difícil de encontrar. É uma bergundia phisalis, é mesmo muito rara.
- Ofereço-a com o vaso, se o senhor quiser..
- Ah! Agradeço imenso, é muita bondade sua. A senhora será recompensada pela sua generosidade, vou indicar esta loja a todos os meus conhecidos e o seu negócio vai prosperar imenso. Vou só lá fora fazer um telefonema, e depois indico-lhe o que pretendo que se grave nas taças.
Saiu apressadamente da loja e seleccionou no telemóvel um nome dos contactos.
- Estou, é o Sequeira. Acabo de encontrar um tesouro, um pote de áureos, um galeão espanhol cheio de ouro no meu jardim.
«Não percebo...»
- Sem metáforas. Estou numa loja em Parvónia City, e a mulher tem no W.C. uma jarra Song do forno Ruyao, e não faz qualquer ideia do que aquilo seja. É o achado de uma vida, fazes ideia do que aquilo vale?
«E não é uma réplica? Há por aí tantas lojas com artigos chineses...»
- Não, não é uma imitação. Eu sou das poucas pessoas neste país que já teve na mão uma peça Song, distingo-as até pelo tacto. Isto é daquelas coisas que só em sonhos.
«E estás à espera de quê? Compra a jarra, ou leva-a daí embrulhada num casaco...»
- Não, nada de baixezas. A mulher da loja é ignorante e provinciana, o seu mundo resume-se a um círculo de dez quilómetros de diâmetro, para ela a selva do Amazonas é o pinhal de Leiria aqui em volta, e os pagodes das Índias são as barracas da Praia da Vieira. Vou levar a jarra, mas ela vai oferecer-ma numa bandeja. Não te esqueças de que sou um poço de estratagemas...
«O.K., tu é que sabes. Já que vais ficar rico, pagas-me um almoço no regresso»
- Está combinado. Me voy...
Reentrou na loja. Escreveu numa folha de papel os dizeres das taças e pagou a conta. Recolheu o recibo, o saco com as medalhas, e ficou a faltar o principal.
- Onde está a planta?
- Ah! Já me esquecia...
Abaixou-se e colocou a planta em cima do balcão, enfiada num vasinho de plástico preto.
- A jarra? - chiou em desespero.
- Esfaniquei-a para tirar a planta lá de dentro. Já estava mirrada, com as raízes tão presas. Agora é só chegar a casa e dar um pouco de adubo e de Sol à Bergúndia, para ela arrebitar.
Mas o outro já não a ouvia, tendo saído pela porta, possesso de raiva.

roteiro

A Casa da Cultura de Caldas da Rainha
apresenta a
EXPOSIÇÃO PERMANENTE:
"A Desconstrução Vegetal do Concreto"



quotidiano

Sempre estive de pé-atrás com a funcionária da bomba de gasolina onde costumo atestar o carro. Muito cabeleira de canudinhos, unhas prateadas e dente de ouro à frente. Deve trazer um leitor de mp3 implantado na traqueia. Chego lá para pagar e menciono o número da bomba. Pronuncia uma única frase inédita, a da quantia a pagar. Depois deve premir o botão de play e desfia, com a pausa para a resposta: «Tem cartão Mach3? / Deseja aderir? / Vai desejar mais alguma coisa / Posso fechar então a sua conta? / É favor confirmar a quantia e inserir o código secreto! / Obrigada e votos de boa viagem!». Nunca lhe conheci nenhuma variação, nem nas palavras nem no tom de voz. Um dia parei de propósito na bomba com a minha bicicleta e apareci diante dela para comprar um pacote de pastilhas. Atirou-me com as suas perguntas gravadas, e eu não respondi a nenhuma, estendendo-lhe o pacote de pastilhas com um nota apensa. Abriu muito os olhos e desfaleceu no banco alto, desactivada por algum curto-circuito.

Calhada

A jovem muito branca e muito esterlicadita, estava atrasada e tentava chegar o mais depressa possível à entrevista de emprego, ziguezagueando por entre as pessoas que caminhavam desencontradas no salão grande do aeroporto. Foi preciso apenas um carrinho de criança de puxar por uma corda, para iniciar a reacção em cadeia: tropeçou no carro, cambaleou, tentou apoiar-se num rasta, tropeçou na sua guitarra, chocou com uma mala com rodas e, aí, levantou voo, literalmente, sobre o ror de gente que descia na escada rolante, e ela rolando sobre elas, conhecendo carnalmente, com a cabeça, os braços, as coxas, muitas pessoas diferentes sem distinção de sexo, raça ou credo. Quando o seu corpo, depois de muitas piruetas e revoluções, aterrou no piso inferior em cima de uma floreira de jasmins (em cima dos jasmins, não da floreira), a moça compôs o cabelo e a saia, olhou o relógio e saiu correndo para os escritórios da Companhia. Causou muita boa impressão na entrevista, favorecida pela fragrância dos jasmins, e o entrevistador lhe afiançou que ela parecia ter uma aptidão natural para o trabalho de aeromoça.

politonia

Pegou num jornal na mesinha de mogno e instalou-se num sofá do átrio do hotel. Ao seu lado, um expositor envidraçado exibia miniaturas dentro de garrafas: uma caravela, a Torre de Londres, o Coliseu de Roma, o Padrão dos Descobrimentos. Enfastiou-se daqueles monumentos engarrafados e folheou o jornal à procura dalguma notícia de interesse. Acabou por derivar para a última página, com fait-divers e cartoons. Sorria com o Dilbert, quando ouviu sussurrar ao pé de si: "Quem admira a Torre de Londres, não sabe o que ela guardou...". Mirou-o. Um homem de bigode, gabardina e chapéu, parecia o Peter Sellers da "Pantera Cor-de-Rosa". Sorriu novamente, desta feita daquele cartoon de carne-e-osso. "Guardou prisioneiros" - respondeu por fim. O outro puxou de um banco e sentou-se diante de si, visivelmente agradado. "Pensava que já não aparecia. A contra-senha confere. Dobre o jornal e leve-o consigo. No seu quarto, procure na página catorze, ca-tor-ze, e encontrará um classificado vincado com as instruções para a sua próxima missão. Está codificada, mas a chave para ler o texto está no classificado de emprego no verso, aquele com um círculo em volta. Adeus e até nunca. Não saia daí nos próximos dez minutos e siga as instruções". Seguiu-as a partir daquele instante. Era algum equívoco, mas podia ser interessante. Contou dez minutos, e como custavam a passar. Dobrou o jornal, passou pela recepção (com o íntimo receio de que lhe pedissem a porcaria do jornal), e entrou no elevador. Teve a tentação de ir à página ca-tor-ze, mas controlou-se. Tinha de saber esperar, ou não seria digno de desempenhar uma missão perigosa. Com passos acelerados, alcançou a segurança do quarto e trancou a porta atrás de si. Catorze...classificados...a página catorze não tinha classificados, mas uma reportagem de página inteira sobre o Darfur. Sentiu-se desconcertado. Começou a caminhar sem nexo pelo quarto, pensativo. Será que tinha percebido bem as instruções? Ouviu baterem à porta e deu um salto. Deviam ter dado pelo engano e, agora, vinham atrás de si para o matar. Ou era isso ou era o inspector Clouseau para lhe perguntar qual era o almoço dos leões no Coliseu de Roma. Hesitou durante alguns longos segundos mas, por fim, abriu com as mãos trémulas uma nesga da porta. Era apenas um empregado do hotel, transportando um envelope numa bandeja prateada. "É para o senhor. Deixaram na recepção". Pegou no envelope, despachando o empregado com uma gorjeta. Abriu-o com algum receio. Trazia um porta-chaves com um boneco da Pantera Cor-de-Rosa, e um bilhete: "Levei-lhe a carteira, e a chave também, mas só por alguns segundos. Perdoe-me o transtorno, e o mau-gosto de usar uma gabardina neste quente Agosto, mas justifica-se. Quando não estou a fazer espionagem, ando a exibir a minha pantera!".

Seiva 1

editar Html, redigir, pré-visualização, pré-cognição, ver antes o que ainda não existe, nem na sua forma larvar, que é como dizer que estamos inanes e submissos por este monitor em branco, estátuas de sal crestadas por se olhar em frente, para o vazio, urge viver, mais do que arengar ou escrevinhar inorganicamente, viver e verdescer, lançar raízes túrgidas sobre a matéria pútrida dos nossos artifícios e pretextos. Descobrirmo-nos criaturas, bichos, sementes, germes, larvas, cobras, girinos, e assim emprestar seiva e sangue às palavras em gestação

Acabado de ler

De "Fúria" de Salman Rushdie (da Dom Quixote):
«Há algo em nós, via-se forçado a admitir, que é caprichoso e para o qual a linguagem da explicação é inadequada. Somos feitos de sombra, assim como de luz, de calor como de pó. O naturalismo, a filosofia do visível, não consegue capturar-nos, porque somos um excesso. Tememos isto em nós, o nosso ser-sombra infractor de fronteiras, refutador de regras, metamorfoseador, transgressor, trespassador, o verdadeiro fantasma na nossa máquina. Qual vida depois da morte, qual improvável esfera imortal, é aqui na Terra que o espírito escapa aos grilhões de que sabemos ser. Pode amotinar-se em ira, inflamado pelo cativeiro, e fazer terra queimada do mundo da razão».

Seiva 2

(Perdem-se coisas pelo caminho, idílios, amigos, lugares, sonhos - perdas que nos distanciam de nós, criando lacunas, incompletitudes que moem e remoem devagar. Amadurecemos! Não podemos conservar tudo connosco, tem de haver algumas cedências, pequeninos sacrifícios. Amadurecemos no nosso casulo nostálgico e esgotamos o porvir. A podridão é o nosso destino)

Repetindo...

...o que ouvi num Parque de Campismo:
«(...) Lembram-se do João Matias, da família da Petrolina? Rica peça, matou o pai com doze facadas. Diz que o gajo, depois de dar a primeira facada, gritou para o pai: "Ainda mexes!! Com esta que é eu te arrumo!"».

Ménade

A casa era pequena, quase não se via, afundada entre muros cobertos de hera. Chegava-se lá por um caminho de terra batida que despontava logo a seguir ao fontanário. As pessoas não gostavam da mulher que vivia na casa e não se cansavam de zurzir nela. Era uma porca e desleixada, nem figura de gente tinha, parecia uma louca, não falava com quase ninguém e contava-se à boca pequena que em algumas luas se transformava em bizarras criaturas - bem ouviam aqueles cascos pétreos de cabra a martelar no lancil do fontanário, e as sombras irrequietas no caminho de terra, para lá e para cá. Os moços da terra também a conheciam, fora ela quem os desmamara a quase todos, recebendo-os no segredo da casa da hera e desvelando as artes do amor. Não que algum o o admitisse, ela era uma velha, uma velha para os quinze e vinte anos das primeiras experiências, e cheirava mal e metia nojo, além de ser bruxa e louca. As palavras e as juras negavam qualquer ligação àquela mulher repugnante, ainda que todos eles ostentassem nas pernas, a marca cicatrizada dos seus cascos aguçados.

Tradução





(Bob, o Constritor)

Dito

Na sabedoria própria dos velórios, acercou-se dos familiares e falou de cor: "Não somos mesmo nada, um primeiro segundo estamos vivos e de boa saúde e no segundo seguinte já não estam...".
Parou de falar no segundo segundo.


Agosto-Algarve

Contagiados pelo desnorte geral, migram ao contrário das andorinhas, em busca de uma insulação.

Não culpem o mensageiro

Criar um filho sozinha era uma tarefa superior às suas forças. Não podia ou não conseguia estar com os amigos, divertir-se, dançar, fazer todas as coisas que gostava de fazer, e das quais fora afastada durante a longa travessia no deserto que fora o seu casamento. Dissimuladamente, deu-o para adopção: entregou-o à irmão e ao cunhado que viviam no Canadá. Mas não o abandonou. Continuou presente na sua vida, comunicando com ele através do Messenger.

Pronomes possessivos

Desde que o filho nascera, teve a preocupação de separar as águas, se o filho fazia uma graça, ficava bem numa foto ou atraía a simpatia das visitas, logo ele enchia a boca com o meu filho. E se, ao invés, o filho não comia, fazia birra ou custava a aturar, apressava-se a mudar o discurso: "Sabes o que o teu filho fez hoje?...". A mulher rapidamente se habituou àquela parcialidade, que o marido não se cansou de enfatizar à medida que o rapaz crescia: "Viste como o meu filho trata a bola por tu, é aquela familiaridade com a bola que dita os verdadeiros artistas, vê-se bem a que costado da família ele foi buscar os genes", ou "o teu filho é um cábula e um preguiçoso, carrega resíduos das pessoas obscuras que te deram o sobrenome, escumalha de varredores de rua e pintores de parede". No dia do seu décimo segundo aniversário, a mulher chegou a casa com o filho e este pareceu-lhe um pouco perturbado. Exigiu saber o que se passava e a mulher deu-lhe conhecimento: "Fui apresentar o meu filho ao verdadeiro pai dele, e os dois portaram-se lindamente. Vê-se bem que ele nada deve aos teus genes".

Buratino

1 - O O-Kee-Pa

Estágio final das provas de iniciação dos jovens guerreiros Mandans, das planícies do Missouri, o O-Kee-Pa era um suplício no qual eram cravados espetos de madeira através da pele e dos músculos dos neófitos e, em seguida, atavam-se cordas a esses espetos, deixando-os suspensos no ar. As gravuras que se fizeram deste ritual atroz da extinta tribo dos Mandans, sempre me fizeram lembrar marionetas humanas, suspensas do alto, talvez manipuladas por um Jeová-Manitou exótico, de penacho de penas e pinturas de guerra, que os preenchia de sonhos alucinatórios de grandes caçadas e batalhas vitoriosas, enquanto extraía prazer do seu patético sofrimento.

2 - história infantil

No meio de uma floresta de carvalhos, o títere fugido do teatro de fantoches encontrou um duende embriagado arrastando o seu garrafão de bom uísque. "Ajuda-me" - pediu-lhe - "Fugi dos fios que me articulavam e das mãos violentas na extremidade desses fios. Transforma-me numa pessoa, peço-te, tu consegues, quero ser uma pessoa de carne e osso". "Seja - resmungou o duende - estou tão bêbedo que nem me consigo esconder, e um pequeno feitiço não vai fazer mal a ninguém". E com uma poção, realizou o feito e transformou o títere apinocado num ser humano. Muitos anos depois, os dois voltaram a encontrar-se. O duende saiu-lhe ao caminho quando ele atravessava a mesma floresta, materializou-se no ar a partir de um novelo de névoa. "Não és aquele títere entristecido que queria muito ser uma pessoa? Ao que vens, para voltares aqui?". O jovem começou a chorar de desespero. "Pensava que bastava ser uma pessoa para que ninguém me manipulasse, mas enganei-me. Tenho dezenas, centenas de fios, que me repuxam os gestos e os passos para além da minha vontade. Quero ser de novo um títere de madeira e pano, peço-te, tu és capaz, ao menos, no teatro, eu recebia aplausos".

3 - O titeriteiro ao contrário

Juntaram-se uns milhares de pessoas, e decidiram criar no céu um títere gigantesco que pairaria sobre todos como um papagaio de papel. Chamaram-no logo de deus. Criaram-no grande para se sentirem pequenos, pintaram-na com as cores vivas dos seus sonhos e as sombras negras da sua maldade, moviam com longos fios as suas garras e as suas asas, e por ventriloquia colocavam na sua boca as palavras que eles próprios engendravam nas suas entranhas de fezes. Vieram os outros, os inocentes e puros de espírito, e sentiram-se subjugados por aquele títere atemorizador e pela santidade dos seus manipuladores, e obedeceram-lhes, vivendo e matando por eles. E o títere, o deus, cada vez maior e mais complexo, tornou-se tão imenso que não podia resistir à força do vento, que, no fragor de uma tempestade e sem sacrilégio, ergueu um e outros nos ares e os atirou contra as arestas de uma montanha. Céus e terra ficaram mais limpos.

Não gostava de letras

Era-lhe indiferente a leitura, os autores e os tramas. A BD ainda lia, tinha figuras, agora, obras só com texto, nem vê-las, era como ter de beber um frasco de xarope amargo em vez da useira colher cheia. Mas como a ocasião faz o ladrão, por assim dizer, viu-se ocioso e aborrecido diante de um livro a cheirar a novo: em pleno Agosto, num parque de merendas a duzentos metros do mar e com o pé engessado. Na hora em que todos saíram para ir beber o café à roulotte de serviço, ele preferiu ficar para trás, sentado à mesa de madeira com a perna estendida ao longo do banco. Pegou no livro que estava à sua beira, Batalha Incerta, de Steinbeck. Era da sua sobrinha, oferecido pelo namorado imberbe e clearasílico. Começou a ler, a medo, como se caminhasse num campo minado - uma frase, um parágrafo, depois outro, depois perdeu-se na contabilidade do que já lera, o ledor era já o que lia. Quando os outros voltaram, a sobrinha insistiu para que ele levasse o livro e ele aceitou. Em casa leu-o de enfiada, depois procurou outros livros do mesmo autor, e outros autores e sagas. Desde então tem tentado recuperar o tempo perdido, enriquecendo a sua vida com palavras e com os universos franqueados por elas. Se uns minutos antes de começar a ler aquele livro de Steinbeck, alguém lhe perguntasse o que significava para ele o prazer de ler, pensaria de imediato nas revistas pornográficas que na sua tenra idade contrabandeava para o segredo do W.C., ocultas sob a perna das calças e cingidas pelas meias puxadas até cima.

Amor proibido

É o que une Julieta Capuleto, adolescente de famílias desfavorecidas, a um Alfa Romeo topo de gama que costuma admirar num Stand no caminho para a escola.

Azedia

A traição tem por vezes um gosto horrível, traz especiarias a mais ou foi confeccionada com coisas estragadas. Ele fartava-se de a avisar: "não pecarás por pensamentos e palavras, actos e felações", e ela assentia, fazendo figas por debaixo do livro sacro. O gosto azedo da traição tomou-o de uma só vez, quando soube de tudo, da infidelidade e do escárnio. Não só andava com outros, como gozava com ele, chamava nomes ao coitadinho, nomes repercutidos de má-língua em má-língua até lhe emporcalharem o ouvido. Bramia de fúria na sua ausência, prometia banhos de sangue e vendettas torpes, mas diante dela esmorecia, amolecendo a raiva em lume brando. Talvez a culpa fosse dele, animava-se, a culpa de uma relação nunca era só de um deles, talvez ele não tivesse entendido os sinais que ela lhe dirigia, como soi dizer-se nos artigos das revistas femininas. Se deixava a cama por fazer de manhã, era como que a dizer "saio insatisfeita, alguma coisa não ficou completa", e quando voltava a casa e trazia odores insólitos a suor e perfume de homem, era para lhe dar a entender que só roçara por outros para procurar o perfume que aquela paixão havia perdido. Enquanto assim divagava entre psicologias e inquéritos de revista, a sua mulher entrou na sacristia. Mais uma vez, teve a certeza de que ela tinha acabado de o trair, talvez com o esposo, aquele bexigoso. Prometeu a si mesmo que não deixaria que a fúria se intrometesse entre os dois, e despiu a sotaina para honrar o seu corpo.
Era um fumador de longo curso, de três maços de tabaco por dia e acessos crónicos de tosse. Quando os tinha, ficava de muito mau humor enquanto acendia nervosamente um novo cigarro. E se algum amigo se metia com ele nos seus momentos sombrios, vociferava: “Não! Não estou com a neura, estou com a pleura !”.

Domínio filipino

Em pequena, numa infância de miséria, vivia num bairro pobre e enlameado, com andrajos por roupa e sem calçado para os pés. De noite, quando tinha sonhos maus, estes tinham sempre o mesmo enredo: sonhava que era uma centopeia de mil pés, todos frágeis e quebradiços, que se partiam de encontro às coisas.
Quando cresceu, Imelda Marcos jurou a si mesmo que nunca a haveriam de apanhar descalça.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...