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A mostrar mensagens de Agosto, 2007

Dever cívico

Alienaram-lhe os bens. Entraram na sua casa e fizeram as partilhas diante do seu nariz. Um dos deputados eleitos pelo Distrito trazia consigo a sua amásia-secretária para fazer um arrolamento dos pertences, o autarca anafado veio para partir o bolo, com licenças de construção a cheirar a dinheiro saindo dos seus bolsos como asas a borboletear, das altas instâncias vinha o assessor para as vertigens do Ministério do Equipamento e tinha a incumbência de avaliar os despojos das águas-furtadas da casa, e porque também havia águas envolvidas fazia-se acompanhar pelo responsável da quinquagésima comissão criada para o racional aproveitamento da água e dos recursos naturais, e claro está, do presidente de uma empresa de comercialização de algálias que era, por coincidência, sobrinho de um dos membros do executivo. No meio de toda aquela agitação, o dono da casa, ou que julgava sê-lo, arranjou forças para gritar: "Parem! Lá porque não voto, não quer dizer que esteja morto!".

Guerra de Tróia

Tive problemas com o modem. Um pingue-pongue de rede e luzinhas. O modem empancava, eu espancava-o, tudo isto tendo como música de fundo o ruído da ventoinha, como um coro trágico. Finalmente, este conflito chegou ao fim, eu saí dele com a minha autoridade ligeiramente beliscada, o modem, por sua vez, ficou bastante maltratado, e sujo, com fiapos de teia onde luzem patinhas de escaravelho e asas translúcidas de mosca.

Pele

Apenas duas semanas depois da erupção, os que haviam sido expulsos pelo vulcão voltaram ao lugar das suas casas sepultadas. Já não choravam, as únicas lágrimas que se permitiam agora eram as gotículas de suor dos seus corpos, porque tinham muito trabalho pela frente. Amontoaram escombros sem préstimo, ergueram paredes e telharam as casas improvisadas, criando em volta as primeiras hortas sobre a cinza fecunda do vulcão, e trabalhavam aí sentindo na planta dos pés o calor da terra. No meio deles, os cães e os porcos foçavam nos escombros desprezados, devorando deliciados, restos de cadáveres. "Como são capazes?" - perguntava uma repórter televisiva da cidade, menos preocupada com as respostas, do que com o vento que desmanchava o seu penteado. Encolhiam os ombros. O mesmo que dizer: "O vulcão não tem culpa, nós é que somos estupidamente frágeis".

Achado

No comboio, de partida de Lisboa, um casal senta-se a meio de uma carruagem, defronte de um outro casal que se instalara há momentos. Uns e outros andam na casa dos cinquenta. Velhos instintos de primata levam-nos a estudar os vizinhos e extrair conclusões: amistosos, gente séria e inofensiva, acessíveis à palavra e à comunicação. Metem conversa, ainda com o comboio na estação, e o diálogo urde-se naturalmente como se deslizasse por carris de aço em direcção a um destino preciso e cronometrado. Vamos para Coimbra, diz um. A "terra dos doutores", não, não! O nosso doutor está em Lisboa, ou antes, futuro doutor, que só está no terceiro ano. Que coincidência! A nossa filha também, estuda literatura, ou artes, uma coisa assim, viemos passar o fim-de-semana com ela. Vivem em Coimbra há muito? Desde sempre, e vocês? Também vivemos em Coimbra, mas só há uns meses, num apartamento alugado, decidimos passar lá uns tempos quando o meu marido se reformou. Gostamos de Coimbra e sempre a…

Ab-Ove

A marca italiana de carros Fiat, conheceu, desde os seus primeiros passos, um número impressionante de modelos diferentes. Os historiadores que se debruçaram sobre o passado desta marca, sobretudo os papistas e tradicionalistas, acreditam que o primeiro modelo a existir foi o Fiat Lux.

O Pico humanista

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Ostra

“A vida é um doce” pensou para consigo enquanto se mudava da cama para o sofá grande. Mudou a posição dos almofadões, colocou por perto a mesinha com o cinzeiro e os aparelhinhos electrónicos, e aguardou enquanto a empregada doméstica lhe servia o pequeno-almoço num carrinho. Comeu-o rapidamente, com a sofreguidão de iniciar o dia.
O salão principal da sua casa fora construído no primeiro piso da mansão, uma escadaria recurva em espiral ligava-o ao piso inferior e ao terraço. Toda a ala oeste da sala era preenchida por um vidro grosso, através do qual podia esquadrinhar o bulício das casas vizinhas. O tecto possuía ao centro uma cúpula em ogiva através do qual, durante o dia os raios de sol eram filtrados com uma intensidade regulada por computador, e à noite, em dias de céu claro, podia admirar as constelações de estrelas (o que, em qualquer dos casos, era para ele sinónimo de absoluto e mortal aborrecimento). Aquela sala era todo o seu mundo, e fora concebida até ao mais ínfimo detal…

Curta-letragem

Na sua pequena biblioteca doméstica, escondia a sua reserva de anfetaminas e ecstasy numa caixa secreta alojada dentro de um calhamaço com obras de Aristóteles. Era o seu modo peculiar de perseguir a Pedra Filosofal. * De todas as pessoas do mundo, só teve um inimigo, odioso e odiado, em quem concentrou toda a raiva que um homem é capaz de sentir. Quando ele se finou, fez questão de ir ao funeral para vê-lo descer à terra. Numa das coroas de flores, um cartão anónimo dizia tudo: "Meu inimigo, sejas bem desaparecido!". * Círculo vicioso Batia-lhe e lambia as feridas, para novamente lhe bater. Ela até podia aceitar que ele lhe batesse, desde que não lhe lambesse as feridas. * Personificação O furacão Dean parece ter uma sinistra vocação: viver depressa, morrer depressa, e deixar um bonito rasto de cadáveres. * O novo Centro Médico abriu na Baixa, como uma colmeia de pequenos consultórios onde os discípulos de Hipócrates atendiam nas suas diversas especialidades. Bem no centro, numa divi…

Contra a corrente

Saiu com o carro da garagem e, a uns três metros apenas, uma batida no carro. "Alguém me quer falar" - murmurou para si, enquanto preenchia os papéis. No escritório foi o mesmo, deixava cair coisas, entalava os dedos nas gavetas, dava coquinadas nas esquinas das mesas. "Alguém me quer falar", cismava. No regresso ao lar, mais dois toques com o carro, o primeiro superficial, contra um carro que travou a fundo à sua frente, mas o outro, mais danoso, pulverizou-lhe o chassis dianteiro do carro até ao motor, ferro-velhando o seu carro novo. Horas mais tarde, chegou finalmente a casa, graças à boleia de um policial. Do outro lado da sebe baixa do seu jardim, viu com espanto uma mesa espírita de tripé a rodopiar pelo jardim e, a correr atrás dela, a sua excêntrica vizinha, com a ranhoca de ectoplasma a reluzir na cabeleira - "Vizinha! Vizinha! - gritava - falei agora mesmo com o seu defunto marido e ele disse-me para lhe lembrar que já não está a passar férias em Ch…

Suspeita

(Quando ouço os técnicos e governantes afirmar que, para o novo Aeroporto de Lisboa, andam à procura de uma solução intermédia entre Alcochete e Ota, não posso deixar de imaginar, que deve existir uma promissora localização equidistante com o nome de Alcochota).

Verão

Saiu pela rua, nu, exibindo a sua magreza, o ventre liso, as pernas sem pregas de gordura. Dava-se aos olhares e à inveja sob um Sol de Agosto cáustico e imperdoável. À tardinha, sempre nu e elegante, juntava-se aos outros esfaimados na praça da aldeia, esperando os víveres da ajuda humanitária que seriam lançados de pára-quedas.

Com fundo

Num barco a naufragar, redigiu mentalmente um epitáfio para si mesmo: “Leu muitos livros a pensar que o fariam viver melhor, mas só nos seus últimos momentos é que percebeu que na sua biblioteca, o que faltava, eram livros de cheques, gordos e chorudos, para se gozar”.
Num barco a naufragar, concebeu um segundo epitáfio: “Tenhas o que tiveres nos bolsos e na alma, vais para o fundo à mesma”.

ociosidade

(Duas palavras parecidas, quase homófonas: Maremoto e Mar-Morto. Não podia haver duas palavras mais distintas, vicejando nas antípodas uma da outra. E, no entanto, há uma escala intermédia: o maremoto é um mar de morte).

Os comedores de lótus

Pateira de Fermentelos. Pateira conseguia perceber, lugar de arribação de patos, agora, Fermentelos, Fermentelos era um nome estranho, de sonoridade germânica. Talvez o nome dalgum ganso da Baviera que arribasse a estas águas em busca de cerveja doutras paragens, lembrou-se com uma réstia de bom-humor, olhando as águas escuras e moliçosas do lago, acocorado no cais do restaurante. Águas escuras como a memória, onde não se pode fazer vaguear a mão sem a sentir enredada em seres e coisas desconhecidas. A mulher acercou-se dele, afagando-lhe o ombro.
- Vais andar de gaivota?
- Nop, estas gaivotas também não têm ar de ser muito usadas, ainda ia ao fundo. E cheira mal por aqui, devem usar a lagoa como fossa.
- Vá, vamos para dentro, o Almoço Anual de Retornados está a começar. Ao menos é num lugar giro, não é daqueles almoços que se ouve falar, no meio do pinhal com cerveja morta e galinha à cafrial coberta de moscas.
- Temos mesmo?
- Claro. Eu sei que não gostas destas coisas, que andaste muit…

Conselho de canicultura

Há muito para aprender sobre cães, as raças e suas características, as variantes e a história de cada uma delas. Mas não é nada de assustador, pode-se começar pelo mais simples e ir progredindo. O básico mesmo - e isso você consegue - é saber como distinguir uma ninhada de Pastor Alemão de uma ninhada de Dálmata. Não é muito difícil porque, aí, você tira pela pinta.

Calhada 2

Os dois seres extraordinários encontraram-se como pessoas comuns numa pastelaria de Centro Comercial, de onde se avistava o Tejo por entre a cortina de prédios e prediozinhos. Beberam um café a meias para partilhar segredos, fumaram um cigarro e ela, certificando-se de que ninguém os escutava, perguntou em voz sumida: - Você é o Super-Homem, não é? Não vale a pena negar, eu tirei-o pela pinta.
- Sim, sou o Super-Homem, filho de Kal-El e Bab-El, Clark Kent é o meu nick público na vida anónima de um repórter do jornal Sol. Quando me vêem a cruzar os céus, as pessoas exclamam: "É um avião? É um cometa? É o Sócrates a caminho do reino da Utopia? Não! É o Super-Homem, o Homem Voador sem chumbo nem aditivos!". Que hei-de fazer? Sou uma estrela por estes lados. E você?
- Betty Loop, a Aeromoça, a super-heroína do Kama-Sutra - não de todo o Kama-Sutra, só daquelas posições em que eu estou por cima e posso voar, como A Rainha, O Laço do Amor, O Caranguejo...Há anos que eu ansiava por co…

criado(r)

O Grande Ceramista moldou Adão, o homem de barro, com a lama que trazia agarrada aos pés e, completada a obra, insuflou-lhe vida. Criou-o para ser um servo, um títere que o divertisse, um objecto decorativo de carne-e-osso para o seu Jardim. Adão tomou o freio nos dentes e provou dos frutos da árvore da sabedoria, fez terra-chã da ordem imposta e tomou consciência do muito em si que só devia a si próprio, à alvura dos seus passos novos e ao reinventar das coisas e dos fenómenos que advinha de lhes atribuir um nome. Adão saiu-lhe melhor que a encomenda.

Chama solar

Em Ravena, diante do túmulo de Dante, arde uma lamparina alimentada com azeite das oliveiras de Florença, a terra natal de Dante, como tributo remissivo por o ter exilado. Dou comigo a pensar nos milhões de exilados por todo o mundo, expulsos, proscritos, forçados a migrar pela míngua de pão e de trabalho, pela guerra e pelo extermínio étnico.
Se, num gesto incomportável e irreal, cada país contribuísse com azeite para os túmulos dos seus filhos mortos em terra estranha, a luz de todas essas chamas tornaria mais branda a noite. *
O nosso segredo, é vivermos em degredo, afastados, expulsos de nos conseguirmos realizar. O nosso segredo é este viver-entre, tolhido, paraplégico, cego-surdo-mudo, abraçando a angústia nascida dos obstáculos erigidos pelos outros e por nós mesmos.

Espelho lunar

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Já saiu a sétima edição da revista MINGUANTE dedicada ao tema "espelho", com muitos textos, notícias e links (e três cacos meus). (Gravura de Escher)

Espelho 2

Quebrar um espelho dá sete anos de azar, ou, no caso do Ruben, um pouco menos que isso, quando se quebra um espelho depois de cair de um sétimo andar.

Quando duas pessoas se fitam no espelho ao mesmo tempo, diz-se também que morre a mais velha, sobretudo quando isso acontece antes dum parricídio.

Uma outra crença geral é que uma pessoa não se deve mirar ao espelho à luz das velas, porque é estúpido, e deve ir primeiro ver se a luz faltou por se ter queimado um fusível.

Shoptime

Entrou na loja com alguma reserva mesclada com desdém. Uma loja escura, com estantes metálicas cheias de volumes de papel e caixas stock cinza-escuro. No balcão largo de madeira estavam expostos os artigos para venda: uma parafrenália de taças em prateado e dourado sobre bases em mármore ou metal. Algumas tinham na base uma pequena figura em bronze escuro ou dourado, de acordo com o propósito da taça. Um jogador de futebol, um tenista, um caçador de arma apontada. Um cartaz largo à sua frente, informava: "Fazemos gravações nas Tassas". Típico. Enquanto se interrogava se podia ou não fumar um cigarro, acercou-se a funcionária, talvez dona. Cinquentona, gorda e de cabelo seboso. Se tivesse um avental, podia imaginá-la a cozinhar uma panelona de comida para uma alcateia de crianças sujas e barulhentas.
- Queria comprar umas três taças e dez medalhas para uma prova de atletismo organizada pela Associação a que presido. Se puder mostrar-me o que tem.
- Com certeza, senhor...- respo…

roteiro

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A Casa da Cultura de Caldas da Rainha apresenta a EXPOSIÇÃO PERMANENTE: "A Desconstrução Vegetal do Concreto"


quotidiano

Sempre estive de pé-atrás com a funcionária da bomba de gasolina onde costumo atestar o carro. Muito cabeleira de canudinhos, unhas prateadas e dente de ouro à frente. Deve trazer um leitor de mp3 implantado na traqueia. Chego lá para pagar e menciono o número da bomba. Pronuncia uma única frase inédita, a da quantia a pagar. Depois deve premir o botão de play e desfia, com a pausa para a resposta: «Tem cartão Mach3? / Deseja aderir? / Vai desejar mais alguma coisa / Posso fechar então a sua conta? / É favor confirmar a quantia e inserir o código secreto! / Obrigada e votos de boa viagem!». Nunca lhe conheci nenhuma variação, nem nas palavras nem no tom de voz. Um dia parei de propósito na bomba com a minha bicicleta e apareci diante dela para comprar um pacote de pastilhas. Atirou-me com as suas perguntas gravadas, e eu não respondi a nenhuma, estendendo-lhe o pacote de pastilhas com um nota apensa. Abriu muito os olhos e desfaleceu no banco alto, desactivada por algum curto-circuito…

Calhada

A jovem muito branca e muito esterlicadita, estava atrasada e tentava chegar o mais depressa possível à entrevista de emprego, ziguezagueando por entre as pessoas que caminhavam desencontradas no salão grande do aeroporto. Foi preciso apenas um carrinho de criança de puxar por uma corda, para iniciar a reacção em cadeia: tropeçou no carro, cambaleou, tentou apoiar-se num rasta, tropeçou na sua guitarra, chocou com uma mala com rodas e, aí, levantou voo, literalmente, sobre o ror de gente que descia na escada rolante, e ela rolando sobre elas, conhecendo carnalmente, com a cabeça, os braços, as coxas, muitas pessoas diferentes sem distinção de sexo, raça ou credo. Quando o seu corpo, depois de muitas piruetas e revoluções, aterrou no piso inferior em cima de uma floreira de jasmins (em cima dos jasmins, não da floreira), a moça compôs o cabelo e a saia, olhou o relógio e saiu correndo para os escritórios da Companhia. Causou muita boa impressão na entrevista, favorecida pela fragrância…

politonia

Pegou num jornal na mesinha de mogno e instalou-se num sofá do átrio do hotel. Ao seu lado, um expositor envidraçado exibia miniaturas dentro de garrafas: uma caravela, a Torre de Londres, o Coliseu de Roma, o Padrão dos Descobrimentos. Enfastiou-se daqueles monumentos engarrafados e folheou o jornal à procura dalguma notícia de interesse. Acabou por derivar para a última página, com fait-divers e cartoons. Sorria com o Dilbert, quando ouviu sussurrar ao pé de si: "Quem admira a Torre de Londres, não sabe o que ela guardou...". Mirou-o. Um homem de bigode, gabardina e chapéu, parecia o Peter Sellers da "Pantera Cor-de-Rosa". Sorriu novamente, desta feita daquele cartoon de carne-e-osso. "Guardou prisioneiros" - respondeu por fim. O outro puxou de um banco e sentou-se diante de si, visivelmente agradado. "Pensava que já não aparecia. A contra-senha confere. Dobre o jornal e leve-o consigo. No seu quarto, procure na página catorze, ca-tor-ze, e encontr…

Seiva 1

editar Html, redigir, pré-visualização, pré-cognição, ver antes o que ainda não existe, nem na sua forma larvar, que é como dizer que estamos inanes e submissos por este monitor em branco, estátuas de sal crestadas por se olhar em frente, para o vazio, urge viver, mais do que arengar ou escrevinhar inorganicamente, viver e verdescer, lançar raízes túrgidas sobre a matéria pútrida dos nossos artifícios e pretextos. Descobrirmo-nos criaturas, bichos, sementes, germes, larvas, cobras, girinos, e assim emprestar seiva e sangue às palavras em gestação

Acabado de ler

De "Fúria" de Salman Rushdie (da Dom Quixote):
«Há algo em nós, via-se forçado a admitir, que é caprichoso e para o qual a linguagem da explicação é inadequada. Somos feitos de sombra, assim como de luz, de calor como de pó. O naturalismo, a filosofia do visível, não consegue capturar-nos, porque somos um excesso. Tememos isto em nós, o nosso ser-sombra infractor de fronteiras, refutador de regras, metamorfoseador, transgressor, trespassador, o verdadeiro fantasma na nossa máquina. Qual vida depois da morte, qual improvável esfera imortal, é aqui na Terra que o espírito escapa aos grilhões de que sabemos ser. Pode amotinar-se em ira, inflamado pelo cativeiro, e fazer terra queimada do mundo da razão».

Seiva 2

(Perdem-se coisas pelo caminho, idílios, amigos, lugares, sonhos - perdas que nos distanciam de nós, criando lacunas, incompletitudes que moem e remoem devagar. Amadurecemos! Não podemos conservar tudo connosco, tem de haver algumas cedências, pequeninos sacrifícios. Amadurecemos no nosso casulo nostálgico e esgotamos o porvir. A podridão é o nosso destino)

Repetindo...

...o que ouvi num Parque de Campismo:
«(...) Lembram-se do João Matias, da família da Petrolina? Rica peça, matou o pai com doze facadas. Diz que o gajo, depois de dar a primeira facada, gritou para o pai: "Ainda mexes!! Com esta que é eu te arrumo!"».

Ménade

A casa era pequena, quase não se via, afundada entre muros cobertos de hera. Chegava-se lá por um caminho de terra batida que despontava logo a seguir ao fontanário. As pessoas não gostavam da mulher que vivia na casa e não se cansavam de zurzir nela. Era uma porca e desleixada, nem figura de gente tinha, parecia uma louca, não falava com quase ninguém e contava-se à boca pequena que em algumas luas se transformava em bizarras criaturas - bem ouviam aqueles cascos pétreos de cabra a martelar no lancil do fontanário, e as sombras irrequietas no caminho de terra, para lá e para cá. Os moços da terra também a conheciam, fora ela quem os desmamara a quase todos, recebendo-os no segredo da casa da hera e desvelando as artes do amor. Não que algum o o admitisse, ela era uma velha, uma velha para os quinze e vinte anos das primeiras experiências, e cheirava mal e metia nojo, além de ser bruxa e louca. As palavras e as juras negavam qualquer ligação àquela mulher repugnante, ainda que todos e…

Tradução

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(Bob, o Constritor)

Dito

Na sabedoria própria dos velórios, acercou-se dos familiares e falou de cor: "Não somos mesmo nada, um primeiro segundo estamos vivos e de boa saúde e no segundo seguinte já não estam...".
Parou de falar no segundo segundo.

Agosto-Algarve

Contagiados pelo desnorte geral, migram ao contrário das andorinhas, em busca de uma insulação.

Não culpem o mensageiro

Criar um filho sozinha era uma tarefa superior às suas forças. Não podia ou não conseguia estar com os amigos, divertir-se, dançar, fazer todas as coisas que gostava de fazer, e das quais fora afastada durante a longa travessia no deserto que fora o seu casamento. Dissimuladamente, deu-o para adopção: entregou-o à irmão e ao cunhado que viviam no Canadá. Mas não o abandonou. Continuou presente na sua vida, comunicando com ele através do Messenger.

Pronomes possessivos

Desde que o filho nascera, teve a preocupação de separar as águas, se o filho fazia uma graça, ficava bem numa foto ou atraía a simpatia das visitas, logo ele enchia a boca com o meu filho. E se, ao invés, o filho não comia, fazia birra ou custava a aturar, apressava-se a mudar o discurso: "Sabes o que o teu filho fez hoje?...". A mulher rapidamente se habituou àquela parcialidade, que o marido não se cansou de enfatizar à medida que o rapaz crescia: "Viste como o meu filho trata a bola por tu, é aquela familiaridade com a bola que dita os verdadeiros artistas, vê-se bem a que costado da família ele foi buscar os genes", ou "o teu filho é um cábula e um preguiçoso, carrega resíduos das pessoas obscuras que te deram o sobrenome, escumalha de varredores de rua e pintores de parede". No dia do seu décimo segundo aniversário, a mulher chegou a casa com o filho e este pareceu-lhe um pouco perturbado. Exigiu saber o que se passava e a mulher deu-lhe conheciment…

Buratino

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1 - O O-Kee-Pa

Estágio final das provas de iniciação dos jovens guerreiros Mandans, das planícies do Missouri, o O-Kee-Pa era um suplício no qual eram cravados espetos de madeira através da pele e dos músculos dos neófitos e, em seguida, atavam-se cordas a esses espetos, deixando-os suspensos no ar. As gravuras que se fizeram deste ritual atroz da extinta tribo dos Mandans, sempre me fizeram lembrar marionetas humanas, suspensas do alto, talvez manipuladas por um Jeová-Manitou exótico, de penacho de penas e pinturas de guerra, que os preenchia de sonhos alucinatórios de grandes caçadas e batalhas vitoriosas, enquanto extraía prazer do seu patético sofrimento.2 - história infantilNo meio de uma floresta de carvalhos, o títere fugido do teatro de fantoches encontrou um duende embriagado arrastando o seu garrafão de bom uísque. "Ajuda-me" - pediu-lhe - "Fugi dos fios que me articulavam e das mãos violentas na extremidade desses fios. Transforma-me numa pessoa, peço-te, tu …

Tecnologia Wireless

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Não gostava de letras

Era-lhe indiferente a leitura, os autores e os tramas. A BD ainda lia, tinha figuras, agora, obras só com texto, nem vê-las, era como ter de beber um frasco de xarope amargo em vez da useira colher cheia. Mas como a ocasião faz o ladrão, por assim dizer, viu-se ocioso e aborrecido diante de um livro a cheirar a novo: em pleno Agosto, num parque de merendas a duzentos metros do mar e com o pé engessado. Na hora em que todos saíram para ir beber o café à roulotte de serviço, ele preferiu ficar para trás, sentado à mesa de madeira com a perna estendida ao longo do banco. Pegou no livro que estava à sua beira, Batalha Incerta, de Steinbeck. Era da sua sobrinha, oferecido pelo namorado imberbe e clearasílico. Começou a ler, a medo, como se caminhasse num campo minado - uma frase, um parágrafo, depois outro, depois perdeu-se na contabilidade do que já lera, o ledor era já o que lia. Quando os outros voltaram, a sobrinha insistiu para que ele levasse o livro e ele aceitou. Em casa leu-o de e…

Amor proibido

É o que une Julieta Capuleto, adolescente de famílias desfavorecidas, a um Alfa Romeo topo de gama que costuma admirar num Stand no caminho para a escola.

Azedia

A traição tem por vezes um gosto horrível, traz especiarias a mais ou foi confeccionada com coisas estragadas. Ele fartava-se de a avisar: "não pecarás por pensamentos e palavras, actos e felações", e ela assentia, fazendo figas por debaixo do livro sacro. O gosto azedo da traição tomou-o de uma só vez, quando soube de tudo, da infidelidade e do escárnio. Não só andava com outros, como gozava com ele, chamava nomes ao coitadinho, nomes repercutidos de má-língua em má-língua até lhe emporcalharem o ouvido. Bramia de fúria na sua ausência, prometia banhos de sangue e vendettas torpes, mas diante dela esmorecia, amolecendo a raiva em lume brando. Talvez a culpa fosse dele, animava-se, a culpa de uma relação nunca era só de um deles, talvez ele não tivesse entendido os sinais que ela lhe dirigia, como soi dizer-se nos artigos das revistas femininas. Se deixava a cama por fazer de manhã, era como que a dizer "saio insatisfeita, alguma coisa não ficou completa", e quando…
Era um fumador de longo curso, de três maços de tabaco por dia e acessos crónicos de tosse. Quando os tinha, ficava de muito mau humor enquanto acendia nervosamente um novo cigarro. E se algum amigo se metia com ele nos seus momentos sombrios, vociferava: “Não! Não estou com a neura, estou com a pleura !”.

Domínio filipino

Em pequena, numa infância de miséria, vivia num bairro pobre e enlameado, com andrajos por roupa e sem calçado para os pés. De noite, quando tinha sonhos maus, estes tinham sempre o mesmo enredo: sonhava que era uma centopeia de mil pés, todos frágeis e quebradiços, que se partiam de encontro às coisas.
Quando cresceu, Imelda Marcos jurou a si mesmo que nunca a haveriam de apanhar descalça.