Sonho

Uma manhã no ginásio, antes de ir para a musculação, reparou que estavam a trocar os cacifos, metade dos velhos cacifos enferrujados, socados e com tinta a descascar, tinham sido substituídos por outros novinhos em folha, de cor bege. Espero que não troquem o meu sem me avisar, pensou. Fez a sua horita no ginásio e quando voltou aos balneários para tomar um duche, confirmou-se o que temia: o seu cacifo fora trocado. Onde estava o velho, com as suas coisas? Ninguém parecia saber, mas havia, disseram, mais cacifos velhos no topo da escada para o escritório. Subiu as escadas a correr, e vistoriou uma pilha de cacifos empilhados deitados como peças de dominó, nenhum deles era o seu. Foi à recepção, apresentou queixa e meteu-se a pé para casa, suado e sem documentos. Pelo caminho encontrou mais dois cacifos abandonados, um junto à entrada para o Metro a servir de urinol de cães, e outro enfiado num beco onde uma puta tinha pendurado em cabides algumas mudas de roupa, mas uma roupa invulgar, branca com folhos e rendinhas como se fosse uma cortesã doutros tempos. O seu desalento era tal que não acreditava que algum deles lhe pertencesse.
Quando, finalmente, chegou a casa, ficou boquiaberto. O seu jardim estava juncado de cacifos, mas pareciam pintados de fresco com cores quentes e intensas e não estavam largados desordenadamente: abriam-se como pétalas de uma flor, raiando inclinados a partir de um ponto central. No centro estava o seu cacifo, esperando por ele. Com as mãos a tremer, abriu-o. O interior estava intacto, com tudo o que lá deixara. Enquanto o examinava, foi atraído por um detalhe curioso: o espelho comprido da face interior da porta reflectia atrás de si a parede de azulejos verdes do ginásio que sempre via ali quando a abria. Virou-se repentinamente. A sua casa tinha desaparecido, e o sobressalto gelado arrancou-o do sonho.

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