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Mal a filha nasceu, inscreveu-a no infantário, no Infantário Público da cidade, que estas coisas levam tempo e pensava colocá-la lá à experiência quando perfizesse três anos, estava confiante que até essa idade a chamariam. Um ano depois, nada, foi indagar - havia muitas crianças inscritas, explicaram-lhe, entravam umas trinta por ano e a sua estava na quadragésima quinta posição na lista de espera. Fez o cálculo de cabeça: quando fizesse três anos estava lá dentro, numa honrosa décima quinta posição. Não dava para subir ao pódio, mas chegava para pontuar.
O tempo foi passando e ele inscreveu-a em diversos Infantários privados, não fosse o diabo tecê-las. Finalmente recebeu uma chamada, era apenas para actualizar a inscrição, mas era um sinal de vida. Queriam saber se ambos os pais estavam empregados, confirmou que sim e a funcionária, numa voz melíflua, explicou-lhe que isso era muito bom, óptimo mesmo, porque se um dos pais estivesse desempregado, a candidatura da sua filha cairia por aí abaixo. Não percebeu porquê, mas agradeceu a atenção e congratulou-se indirectamente com a desgraça dos outros.
Completados os três anos, a sua filha não foi chamada.
- Como é? - Perguntou na Secretaria - Qual é a posição da minha filha no ranking do Infantário?
- Está na trigésima posição!
- Como é possível? Há dois anos estava no quadragésima quinta posição!?
- É que os filhos de pais separados têm precedência sobre os outros. Por assim dizer, galgam degraus para o número de eleitos, e tem havido bastantes divórcios no concelho.
Ficou desanimado, ao chegar a casa declarou que, uma vez que não se ia divorciar para meter a filha no Infantário, tinham que desistir dele e procurar outro. Era tudo cunhas, conhecimentos, quem os possuía estava sempre entre os eleitos, fosse qual fosse a ordem de chegada.
Ironicamente, o Infantário não desistiu deles, continuavam em contacto, para actualizar a ficha, para explicar o surgimento de novos itens que explicavam a precedência dada a dezenas de outras crianças. Já muito tempo depois, e para acabar com aquelas cartas e telefonemas, decidiu comunicar ao Infantário que queria anular a inscrição, mas decidiu fazê-lo de uma forma perversa. Dirigiu-se à Secretaria, com um ar muito indignado e perguntou como estava a situação da filha
- Trigésimo segundo na lista de espera.
Com sangue-frio, elevou teatralmente a voz para bradar que aquilo era uma fantochada, uma fraude, que poderia nomear dez ou quinze crianças que haviam entrado no Infantário, de pais casados e inscritos depois da sua filha. A funcionária tentou acalmá-lo, muito constrangida, não, ele tinha uma impressão errada, apenas cumpriam directrizes e orientações vindas de cima, que não era nada pessoal e iam estudar o seu caso com atenção, que o número de divórcios do concelho até tinha baixado, e ela tinha conhecimento dalgumas desistências que poderiam abrir a porta ao seu rebento. Ele não desarmou e deitou mais lenha na fogueira, deixando suspenso no ar a promessa de uma queixa na Justiça.
Quando saiu do Infantário, sabia que tinha deixado a colmeia em polvorosa. Mal chegou a casa, recebeu um telefonema do Infantário. Tinham estado a analisar o seu caso, haviam recuperado literalmente o processo e telefonavam para lhe anunciar que, face a algumas desistências, era dado à sua filha o privilégio de entrar para o Infantário. Agradeceu, mas recusou, tinha o privilégio de lhes comunicar que nem ele nem a filha precisavam do Infantário. Já haviam optado por outro há muitos anos, e a filha tinha acabado de entrar para a Faculdade.

3 comentários:

  1. Anónimo20:43:00

    acontece exactamente o mesmo com o meu filho,ele vai fazer 3 anos em novembro e nao entra pk nao tem vaga,pk??pk primeiro tao crianças k nem seker pertecem a terra,crianças k sendo mais velhas ou mais novas entram so pk tem la irmaos,crianças k por cunhas de alguem k trabalha la e os pais ate se dao bem conseguem entrar e o meu filho nao pk??pk eu nao vou la dar nem batatinhas nem feijoes,nem carninha de vaca nem nada k se pareça pro meu filho entrar eu ca me hei-de arranjar,mas no dia k tiver k ir pra primaria tb nao vai ser pra la k ele vai e a escola vai fechar por falta de alunos k neste momento ta kuase a acontecer!!peço desculpa pela invasão mas é a unica maneira de mostrar a minha indignaçao

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  2. Tenho acompanhado de perto o calvário das minhas amigas que começaram a ter filhos e não têm onde os deixar.. É de assustar ! E ainda falam em incentivos à natalidade..

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  3. José Lopes10:20:00

    O texto do post não era inteiramente ficcional, e para quem anda metido nestas coisas, é natural que sinta desagrado e revolta. Infelizmente, é o "estado da nação", neste domínio e noutros, e em qualquer cidade ou região que se escolha

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