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Progresso bipolar

Samuel Oxvard é o que se poderia chamar um homem com tudo, jovem multimilionário e único herdeiro de uma vasta fortuna, repartia o seu tempo entre as suas responsabilidades para com o seu império financeiro e os seus muitos hobbies e compromissos sociais. Aos vinte e sete anos, no entanto, o imponderável aconteceu, os tecidos e órgãos do seu corpo começaram a degenerar rapidamente. Recorreu aos melhores médicos do mundo, e o seu diagnóstico foi desencorajante: uma anomalia insólita no ADN era a causa do seu mal, mas não havia meios de contrariar a sua doença, pelo menos, não no tempo actual e em função da esperança de vida que lhe atribuíam: quatro meses. “Quero viver! – rugiu – Dêem-me opções!” - “Criogenia”, foi a única resposta consensual. Podiam, por assim dizer, congelar o seu corpo durante dez ou vinte anos, e ao fim desse tempo seria exumado e curado graças aos novos progressos da ciência. Concordou parcialmente, achava que vinte anos era pouco tempo, podia não ser suficiente para o que a ciência tinha de evoluir, preferia cinquenta, cinquenta era um investimento mais seguro. Foi escolhido o lugar para ser preservado: uma divisão isolada da nova ala de Hospital Central de Chicago, que fora financiada por ele. Mal se ultimaram os preparativos, foi criogenizado, suspendendo a sua acelerada decadência física dentro de um tanque metálico com nitrogénio líquido.
Cinquenta anos depois, cumprindo uma disposição transmitida ao longo dos anos, os médicos do Cento de Recuperação de Vida, retiraram-no da cápsula. Ainda em estado de vida suspensa, inverteram o processo de criogenização e corrigiram a falha no ADN, iniciando a sua recuperação. Despertaram-no. Algo tinha corrido mal no processo e a sua actividade cerebral estava reduzida a um estado vegetativo irreversível. Continuaram a recuperar a saúde do seu corpo, até estarem certos de que não ficava afectado por nenhuma sequela, e só então foi transferido para uma ala isolada do Centro que, na gíria dos funcionários, granjeava a alcunha de “Talho”. Aí, num ambiente asséptico, foi colocado à engorda para ser posteriormente morto e retalhado em porções de carne que exibiriam o selo de certificação do Centro, que era a melhor garantia que se podia oferecer a um consumidor.

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