perdida

O timing, casual pela primeira vez, foi forçado nas vezes seguintes. Quando se retirava da praia à tardinha, viu-a sentada nas traseiras do bar da praia, a fumar um cigarro, vestida de negro e com um ar melancólico e sofrido. Soube que ela trabalhava no bar, foi lá admirá-la a pretexto de comprar uma cola ou umas pastilhas e não tardou a verificar que todos os dias à mesma hora do primeiro dia, ela fazia a sua pausa para um cigarro antes de pegar nas suas coisas e rumar a casa. Assim sendo, também por aquela hora ele largava tudo, as ondas, o vólei de praia, os amigos, e seguia pelo caminho de tabuado que interceptava o acesso ao bar. Dia após dia passava ali, olhavam-se, desenvolvendo-se uma crescente familiaridade, e ele seguia caminho, com um ar luminoso e o coração a bater com força no peito. No seu último dia de férias, sentiu uma ponta de desespero e, ao passar por ela, parou à sua frente, a uns dois metros, para lhe falar. O olhar dela devassou-o como uma rajada de vento a estracinhar uma fina flor de papel. Por um instante, tudo se tornou possível, o planeta e o destino equilibravam-se num fio de cabelo. Por medo, ou por coisa nenhuma, retomou a marcha e nunca mais a voltou a ver, carregando a memória doce e dolorosa daquele olhar misterioso.

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