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Maciez

Quando era pequeno, morreu-lhe o tio e o corpo ficou a velar na pequena capela da aldeia. Porque era de longe, o agente funerário deixou na casa da sua família, o caixão para o enterro. Ele e os primos entretiveram-se a brincar em volta do caixão e foi aí que lhe fizeram uma maldade das piores: fecharam-no lá dentro, deixando-o a gritar e a chorar uma noite inteira, com os seus lamentos abafados pelo caixão estanque e almofadado. Quando o tiraram de lá na manhã seguinte, tinha perdido a fala, esteve sem falar durante semanas seguidas, e quando a voz lhe voltou, perdera a fluência, ficou gago. Ao longo dos anos, um outro efeito se tornou nítido: naquele caixão, com um pé no coração das trevas, quando o seu terror se converteu em paixão, adquiriu uma aversão crescente aos espaços abertos, à imensidão. Daí em diante, a sua vocação eram os ninhos e escaninhos, se um quarto lhe parecia demasiado grande, tinha de dormir no roupeiro ou debaixo da cama num torvelinho de lençóis, viajava em bagageiras de carros e porões de navios, reverenciando pequenos livros lidos à luz de lanternas, e santos e potestades guardados em relicários aveludados. E as mulheres, as mulheres não podiam ser grandes ou avantajadas, porque aí, não sossegava enquanto não se refugiava dentro delas.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...