Eterna saudade

O negócio era florescente, um quiosque de venda de flores à porta de um cemitério é bom negócio! Que mais as pessoas podem comprar para oferecer aos seus fiéis defuntos? Caixas de música? Perfumes? Caixas de Tupperware? A flor é a oferenda ideal, e o Hermínio, tanto como a mulher, ajeitava-se para fazer ramos e arranjos. Estava ele a preparar um dos ditos quando vê uma jovem a montar uma pequena banca próximo ao quiosque, o Hermínio larga tudo e vai cuscar. Era para vender flores de papel. Era legal? Era! licença camarária em ordem. O Hermínio não se conforma. Porquê ali? Porquê no seu cemitério? O negócio andava mal, pelas horas da morte, morria pouca gente e as pessoas cortavam nas despesas. E porquê flores de papel? Perguntou o mesmo à jovem, assim, literalmente, sem rodeios. Ela justificou: as flores de papel eram recicláveis, temos de pensar no futuro do planeta. Planeta uma ova! Brame Hermínio, nada ali é para reciclar, as pedras, os mortos, as flores, envelhecem e apodrecem e é essa a sua reciclagem, não ficam para semente. A jovem insiste: temos de ser ecologicamente responsáveis e a flor de papel tem o mesmo valor simbólico que uma flor natural. Não aqui, grita o Hermínio, não neste cemitério, compro-lhe toda a mercadoria que você traz, compro-lha pelo dobro do valor mas você vai reciclar para outro lado. Ela concorda, faz um preço e ele passa um cheque, sem querer saber de mais nada. Ela recolhe o cheque, a banca, a mercadoria e, mal se senta no carro, consulta numa listagem de cemitérios a morada do seu próximo alvo.

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