Duplo

A sua casa possuía vidros duplos nas janelas, sentou-se na cama num acesso de preguiça olhando a rua através deles. Tinha tomado banho e enrolara-se num toalhão, eram doces esses fins de tarde com o Sol estival ainda queimando no céu vítreo. Havia mais tempo, não havia por que correr, teria luz quase até às dez horas, tempo de sobra para fazer as suas coisas e ainda aproveitar para pegar no livro que andava a ler aos bochechos. Quando assim amornava, reparou num pormenor curioso, o Sol refractava-se no ângulo do vidro duplo da janela, numa imagem duplicada. Procurando não perder essa ilusão dos sentidos, recostou-se nos almofadões e pensou como o mundo ficava diferente assim. Dois Sóis. Talvez estivesse a entrever a verdadeira realidade. Num Universo paralelo ao nosso, uma outra dimensão, poderia existir um outro Sol, com um mundo paralelo ao nosso, onde uma mulher como ela viveria uma realidade paralela, contemplando a sua própria estrela e divagando sobre paralelismos e paralelepípedos.

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