INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Autobiográfico

Sempre fui um zero à esquerda na prática do futebol, tenho dois pés esquerdos, e quadrados, com tendência para sofrer tendinites. O mais próximo que consegui estar do virtuosismo de um avançado, foi ter dado um pontapé-na-bicicleta.

Negócio

Depois de ter aprendido a arte de cabeleireiro numa Inglaterra vitoriana onde era difícil viver desse mester, a sorte bafejou a vida de John Fallstuff. Ao exumarem o corpo de Elisabete Siddal, esposa do poeta Dante Rosseti, descobriram que o interior do caixão estava repleto com a sua ígnea cabeleira rubra. Crescera depois da morte, e parecia não parar de crescer. A família pediu-lhe ajuda. O corpo ficaria exposto no jazigo da família no Highgate Cemetery, e pagavam-lhe para lá ir de vez em quando cortar-lhe o cabelo para a tornar apresentável, apesar da carne em decomposição. Era uma renda, acrescida, porque descobriu que podia vender o cabelo a um fabricante de bonecas de porcelana. Com aquela receita constante, Fallstuff gozou uma vida de boémio e noctâmbulo, enquanto as coisas não se resolveram a seu desfavor como uma má ressaca. O fabricante de bonecas dispensou o cabelo da senhora, agora que se podia conseguir cabelo sintético mais barato e maleável, e a insigne senhora Siddal foi vítima de uma calvície galopante. Foi um terrível revés, de uma só vez perdeu o emprego, a casa e a mulher.

T1

Os grandes génios são, por natureza, solitários e pouco dados a constituir família e ter uma casa cheia de gente. Mas ninguém os pode censurar, vivendo como vivem no espaço exíguo de uma lamparina de azeite.

Estaminé

Quando viu aquele quiosque vago à beira da praia, lembrou-se logo de ficar com ele e montar uma tenda para venda de preservativos. Os amigos acharam uma ideia parva, ainda se fosse para toalhas de praia, baldinhos para crianças e pranchas de surf, agora camisinhas. Mas ele persistiu. Á noite, o areal é um deserto fresco onde os amantes se sentem sós sob as estrelas e aproveitam ao máximo. Depois havia uma discoteca perto, e uma Escola Secundária com adolescentes que as compravam para se sentirem homens e as testavam sozinhos, e um hotel onde arribavam camionetas cheias de turistas desejosas de aventuras. Aquilo dava que dava. Tinha de arranjar um nome sugestivo. Pensou em algo vagamente web, tipo "sítio da camisinha" ou "domínio da camisinha" mas, a pensar nos camones, decidiu chamar-lhe apenas "Condomínio".

Sonho

Uma manhã no ginásio, antes de ir para a musculação, reparou que estavam a trocar os cacifos, metade dos velhos cacifos enferrujados, socados e com tinta a descascar, tinham sido substituídos por outros novinhos em folha, de cor bege. Espero que não troquem o meu sem me avisar, pensou. Fez a sua horita no ginásio e quando voltou aos balneários para tomar um duche, confirmou-se o que temia: o seu cacifo fora trocado. Onde estava o velho, com as suas coisas? Ninguém parecia saber, mas havia, disseram, mais cacifos velhos no topo da escada para o escritório. Subiu as escadas a correr, e vistoriou uma pilha de cacifos empilhados deitados como peças de dominó, nenhum deles era o seu. Foi à recepção, apresentou queixa e meteu-se a pé para casa, suado e sem documentos. Pelo caminho encontrou mais dois cacifos abandonados, um junto à entrada para o Metro a servir de urinol de cães, e outro enfiado num beco onde uma puta tinha pendurado em cabides algumas mudas de roupa, mas uma roupa invulgar, branca com folhos e rendinhas como se fosse uma cortesã doutros tempos. O seu desalento era tal que não acreditava que algum deles lhe pertencesse.
Quando, finalmente, chegou a casa, ficou boquiaberto. O seu jardim estava juncado de cacifos, mas pareciam pintados de fresco com cores quentes e intensas e não estavam largados desordenadamente: abriam-se como pétalas de uma flor, raiando inclinados a partir de um ponto central. No centro estava o seu cacifo, esperando por ele. Com as mãos a tremer, abriu-o. O interior estava intacto, com tudo o que lá deixara. Enquanto o examinava, foi atraído por um detalhe curioso: o espelho comprido da face interior da porta reflectia atrás de si a parede de azulejos verdes do ginásio que sempre via ali quando a abria. Virou-se repentinamente. A sua casa tinha desaparecido, e o sobressalto gelado arrancou-o do sonho.

perdida

O timing, casual pela primeira vez, foi forçado nas vezes seguintes. Quando se retirava da praia à tardinha, viu-a sentada nas traseiras do bar da praia, a fumar um cigarro, vestida de negro e com um ar melancólico e sofrido. Soube que ela trabalhava no bar, foi lá admirá-la a pretexto de comprar uma cola ou umas pastilhas e não tardou a verificar que todos os dias à mesma hora do primeiro dia, ela fazia a sua pausa para um cigarro antes de pegar nas suas coisas e rumar a casa. Assim sendo, também por aquela hora ele largava tudo, as ondas, o vólei de praia, os amigos, e seguia pelo caminho de tabuado que interceptava o acesso ao bar. Dia após dia passava ali, olhavam-se, desenvolvendo-se uma crescente familiaridade, e ele seguia caminho, com um ar luminoso e o coração a bater com força no peito. No seu último dia de férias, sentiu uma ponta de desespero e, ao passar por ela, parou à sua frente, a uns dois metros, para lhe falar. O olhar dela devassou-o como uma rajada de vento a estracinhar uma fina flor de papel. Por um instante, tudo se tornou possível, o planeta e o destino equilibravam-se num fio de cabelo. Por medo, ou por coisa nenhuma, retomou a marcha e nunca mais a voltou a ver, carregando a memória doce e dolorosa daquele olhar misterioso.

Na estrada

Estavam a construir em madeira a nova capela de Santiago. Ao tentarem fixar a armação, a trave-mestra desencaixou-se como se tivesse vida própria e desabou em cima de uma sexagenária que ia a passar. A mãe dela, ao seu lado, mal-entrevendo o sangue a jorrar por todos os lados, indignou-se: “Devias ter vergonha, Francelina, velha que estás e agora é que havias de t’alembrar de ficar mestrada”.

Fair-play

Cheirava a costeletas e a frango assado no Snack-Bar do Parque de Campismo. Depois da azáfama da praia, a noite servia para acalmar a pele castigada pelo sol, e os espíritos inquietos e insaciados. Desaguavam ali famílias inteiras, fragmentando o silêncio com as suas vozes estrídulas, a escorropichar chávenas de café e finos de cerveja enquanto os mais novos cravavam gelados, donuts e gomas. Num pátio anexo, quatro amigos tentavam jogar matraquilhos imersos na penumbra, com os punhos dos ferros a martelar na madeira entre exclamações e caralhadas. A um extremo, junto à rede e sob um pinheiro despido, estava sentado um casal, quase invisível nas trevas. Os quatro amigos só deram por ele quando o tipo começou a bater na mulher. Arqueado sobre a mesa tinha-a segura por um braço e malhava-a com o outro punho, nos ombros, no alto da cabeça, onde calhava, enquanto ela, sem dúvida habituado àquelas andanças, tentava rebuçar o rosto com os antebraços. Olharam uns para os outros, e continuaram a jogar como se nada fosse. E não era mesmo, nem queriam saber, o que os chateava é que o mais novo dos quatro não jogava nada, já tinha corrido as duas equipas e jogado à frente e atrás, mas não era do mesmo campeonato que eles. Enquanto ralhavam com o infeliz, o casal levantou-se para se retirar, contornando o matraquilhos, ele a segurá-la pelo braço, enquanto a mulher desviava a cara, rodando-a como a sombra de um objecto na perpendicular da luz. Um dos jogadores interpelou-os:
- Amigo, posso fazer-lhe uma pergunta?
O tipo virou-se bruscamente, o seu rosto estava sereno, mas repararam que cerrara o punho, preparado para tudo.
- O que quer saber?
- Você joga bem matrecos? É que temos aqui um levezinho a precisar de ser substituído…
- Sou o melhor reforço que vocês podem arranjar – garantiu com a expressão desanuviada, soltando a mulher que continuou o seu caminho com passos miudinhos.
- Benfica ou Sporting?
- Belenenses! Mas posso jogar pelo Sporting, já que o levezinho saltou.

Progresso bipolar

Samuel Oxvard é o que se poderia chamar um homem com tudo, jovem multimilionário e único herdeiro de uma vasta fortuna, repartia o seu tempo entre as suas responsabilidades para com o seu império financeiro e os seus muitos hobbies e compromissos sociais. Aos vinte e sete anos, no entanto, o imponderável aconteceu, os tecidos e órgãos do seu corpo começaram a degenerar rapidamente. Recorreu aos melhores médicos do mundo, e o seu diagnóstico foi desencorajante: uma anomalia insólita no ADN era a causa do seu mal, mas não havia meios de contrariar a sua doença, pelo menos, não no tempo actual e em função da esperança de vida que lhe atribuíam: quatro meses. “Quero viver! – rugiu – Dêem-me opções!” - “Criogenia”, foi a única resposta consensual. Podiam, por assim dizer, congelar o seu corpo durante dez ou vinte anos, e ao fim desse tempo seria exumado e curado graças aos novos progressos da ciência. Concordou parcialmente, achava que vinte anos era pouco tempo, podia não ser suficiente para o que a ciência tinha de evoluir, preferia cinquenta, cinquenta era um investimento mais seguro. Foi escolhido o lugar para ser preservado: uma divisão isolada da nova ala de Hospital Central de Chicago, que fora financiada por ele. Mal se ultimaram os preparativos, foi criogenizado, suspendendo a sua acelerada decadência física dentro de um tanque metálico com nitrogénio líquido.
Cinquenta anos depois, cumprindo uma disposição transmitida ao longo dos anos, os médicos do Cento de Recuperação de Vida, retiraram-no da cápsula. Ainda em estado de vida suspensa, inverteram o processo de criogenização e corrigiram a falha no ADN, iniciando a sua recuperação. Despertaram-no. Algo tinha corrido mal no processo e a sua actividade cerebral estava reduzida a um estado vegetativo irreversível. Continuaram a recuperar a saúde do seu corpo, até estarem certos de que não ficava afectado por nenhuma sequela, e só então foi transferido para uma ala isolada do Centro que, na gíria dos funcionários, granjeava a alcunha de “Talho”. Aí, num ambiente asséptico, foi colocado à engorda para ser posteriormente morto e retalhado em porções de carne que exibiriam o selo de certificação do Centro, que era a melhor garantia que se podia oferecer a um consumidor.

Equilibrar o Karma

Álibi.
Onde estava? Estava em tal e tal lugar, ocupadíssimo, durante todo o tempo de vigília e mesmo durante o sono, sonhando com o que me mantinha ocupado. O que fez até agora? Donativos para quem me pede, também costumo deixar um pouco de leite numa caneca de resina perto do contentor do lixo onde andam gatos a vaguear. E as pessoas? Falei-lhe nos donativos? Sim, falei! Também costumo comprar o Pirilampo Mágico e dar uma moeda para a luta contra doenças terminais, há dias, depois de ter atropelado uma velhinha, dei cinco euros a um arrumador pedrado! Cinco! O tipo ficou a pensar que era do transe. Tudo bem, mas e a humanidade em geral, a fome, a subnutrição de milhões de pessoas por todo o mundo, a falta de roupas e cuidados de saúde? Costumo assistir aos noticiários, sinto empatia, e há umas semanas doei um saco de roupa para Angola, era roupa de Inverno, camisolas de lã e cachecóis, mas eles devem encontrar alguma aplicação para isso, para vestir os mortos, por exemplo…também faço reciclagem do lixo doméstico, indirectamente, ajudando o planeta estou a ajudá-los a eles e aos filhos, não é? A minha mulher também costuma ajudar, dá o dízimo do que os dois ganhamos para ser entregue pelo pastor aos refugiados e espoliados, ela garante-me que vai directamente para lá e que Jesus não o deixa enganar-nos. Mais alguma coisa a declarar? Aristóteles, Aristóteles dizia que quando uma pessoa velha morria, era como se chegasse ao porto do destino. Vocês não vão implicar com o meu deslize sobre aquilo da velha, pois não? Afinal, eu fui uma espécie de rebocador, só lhe dei um pequeno empurrão até ao porto.

Reza e trabalha

O abade do Mosteiro de Alcobaça sentia crescer água na boca enquanto admirava a mesa farta: grandes cestos de pão cozido com farinha dos moinhos de Paredes, peixe trazido do porto da Pederneira, salgado em Alfeizerão com sal das suas marinhas e assado com requinte com ervas de tradição árabe, perdizes obtidas em dia de S. Miguel, cozidas com vinho e repousando sobre folhas de couve em pequenas travessas, porcos de carne tenra criados à solta nas matas dos coutos e assados no espeto, cestas de fruta grada da granja da Vestiaria, pudins de ovos e tartes dulcíssimas, vinho generoso obtidos com uva das vinhas da Cela, licores aromáticos confeccionados pelas freiras de Cós. Olhou os monges em volta da mesa e, em memória da austera frugalidade cisterciense, rezou uma oração breve com os lábios trémulos e impacientes. Não conseguindo esperar mais, rugiu:
- Eu começo primeiro, e vou-vos dar uma abada…

leveza

Não é qualquer um que consegue andar nas nuvens, é necessário disciplina e savoir faire para ser um bom nefelibata. Andar nas nuvens, não é um passeio para todos os dias, guardem-se para isso as manhãs dos Domingos e Feriados, há mais gente a dormir e assim evitam-se os encontrões e cotoveladas. Sem ingerir muitos alimentos (um copo de leite ou iogurte e uma tosta devem bastar), vista-se um fato leve e informal, solto e esvoaçante para condizer, deixe-se o calçado em casa e esqueça-se a parafernália de residentes de algibeira - porta-chaves, telemóveis, corta-unhas, blocos de notas, canetas, canivetes suíços, facas de mato. Pode-se começar a caminhar a partir de um terraço ou da empena de uma casa, ou optar pelos espaços naturais, um fraguedo junto ao mar ou um cômoro isolado. Por andarmos carregados com dramas e ansiedades que pesam como mercúrio, poderá sentir alguma dificuldade nos primeiros passos, mas pouco a pouco irá começar a sentir-se mais à vontade, desanuviado e isso fa-lo-á sentir-se mais seguro e confiante. O passeio ideal deverá começar pelas primeiras horas do dia para aproveitar o ar fresco e saturado onde é mais fácil caminhar, e cessar antes do meio-dia, antes do calor e do peso do almoço. Como em todos os passeios, mas por mais razões, devemos tentar não fazer lixo e, sobretudo, não cuspir para o lado.

Missão

O agente à paisana interceptou as duas senhoras quando estavam a sair de casa, vestidas de forma austera e com os cabelos apanhados no alto da cabeça, para que não se rebelassem ao vento - «Preciso de falar com vocês», sussurrou. Entraram para o jardim. O agente olhou para os muros altos em volta e continuou no mesmo tom de voz: «Vocês ainda se lembram de que foram testemunhas contra um dos mais perigosos criminosos deste país, um homem que tem na consciência a morte de dezenas de pessoas e que gere um negócio complexo de extorsão e lavagem de dinheiro. Porque as vossas vidas estavam ameaçadas, trouxemo-vos para este fim-de-mundo e providenciamos uma casa nova e novas identidades» - elas anuíram, parecendo não compreender porque ele lhes recordava isso - «Pois bem, à luz de tudo isso pedia-lhes que durante uns tempos alterassem um pouco as vossas rotinas e que deixassem de manter o vosso parzinho na rua a falar de religião e a distribuir revistas da “Sentinela”. Caso contrário, não posso continuar a garantir a vossa segurança ao abrigo do Programa de Protecção de Testemunhas».

Arte

Os seus talentos gastronómicos eram verdadeiramente poéticos: confeccionava uma macedónia de legumes que era um autêntico verso alexandrino.

Pausa

A culpa foi das aulas de Código

:)


(foto gamada ao João Gaspar)

Sistema

Mal a filha nasceu, inscreveu-a no infantário, no Infantário Público da cidade, que estas coisas levam tempo e pensava colocá-la lá à experiência quando perfizesse três anos, estava confiante que até essa idade a chamariam. Um ano depois, nada, foi indagar - havia muitas crianças inscritas, explicaram-lhe, entravam umas trinta por ano e a sua estava na quadragésima quinta posição na lista de espera. Fez o cálculo de cabeça: quando fizesse três anos estava lá dentro, numa honrosa décima quinta posição. Não dava para subir ao pódio, mas chegava para pontuar.
O tempo foi passando e ele inscreveu-a em diversos Infantários privados, não fosse o diabo tecê-las. Finalmente recebeu uma chamada, era apenas para actualizar a inscrição, mas era um sinal de vida. Queriam saber se ambos os pais estavam empregados, confirmou que sim e a funcionária, numa voz melíflua, explicou-lhe que isso era muito bom, óptimo mesmo, porque se um dos pais estivesse desempregado, a candidatura da sua filha cairia por aí abaixo. Não percebeu porquê, mas agradeceu a atenção e congratulou-se indirectamente com a desgraça dos outros.
Completados os três anos, a sua filha não foi chamada.
- Como é? - Perguntou na Secretaria - Qual é a posição da minha filha no ranking do Infantário?
- Está na trigésima posição!
- Como é possível? Há dois anos estava no quadragésima quinta posição!?
- É que os filhos de pais separados têm precedência sobre os outros. Por assim dizer, galgam degraus para o número de eleitos, e tem havido bastantes divórcios no concelho.
Ficou desanimado, ao chegar a casa declarou que, uma vez que não se ia divorciar para meter a filha no Infantário, tinham que desistir dele e procurar outro. Era tudo cunhas, conhecimentos, quem os possuía estava sempre entre os eleitos, fosse qual fosse a ordem de chegada.
Ironicamente, o Infantário não desistiu deles, continuavam em contacto, para actualizar a ficha, para explicar o surgimento de novos itens que explicavam a precedência dada a dezenas de outras crianças. Já muito tempo depois, e para acabar com aquelas cartas e telefonemas, decidiu comunicar ao Infantário que queria anular a inscrição, mas decidiu fazê-lo de uma forma perversa. Dirigiu-se à Secretaria, com um ar muito indignado e perguntou como estava a situação da filha
- Trigésimo segundo na lista de espera.
Com sangue-frio, elevou teatralmente a voz para bradar que aquilo era uma fantochada, uma fraude, que poderia nomear dez ou quinze crianças que haviam entrado no Infantário, de pais casados e inscritos depois da sua filha. A funcionária tentou acalmá-lo, muito constrangida, não, ele tinha uma impressão errada, apenas cumpriam directrizes e orientações vindas de cima, que não era nada pessoal e iam estudar o seu caso com atenção, que o número de divórcios do concelho até tinha baixado, e ela tinha conhecimento dalgumas desistências que poderiam abrir a porta ao seu rebento. Ele não desarmou e deitou mais lenha na fogueira, deixando suspenso no ar a promessa de uma queixa na Justiça.
Quando saiu do Infantário, sabia que tinha deixado a colmeia em polvorosa. Mal chegou a casa, recebeu um telefonema do Infantário. Tinham estado a analisar o seu caso, haviam recuperado literalmente o processo e telefonavam para lhe anunciar que, face a algumas desistências, era dado à sua filha o privilégio de entrar para o Infantário. Agradeceu, mas recusou, tinha o privilégio de lhes comunicar que nem ele nem a filha precisavam do Infantário. Já haviam optado por outro há muitos anos, e a filha tinha acabado de entrar para a Faculdade.

Mentes

"Não, não é verdade" - defendeu-se ele - "São coisas inventadas pela tua mãe, que só nos quer separar".
E acrescentou ainda: "Sabes que eu não era capaz de te mentir, eu e a tua colega somos apenas conhecidos".
E voltou: "Está bem, admito! Eu e ela estivemos juntos num quarto de Motel, mas passamos o tempo todo a ler Barthes".
Entrementes, contou-lhe a verdade.

Nearby

(O mundo não é redondo, é plano, vivemos, rimos e sofremos numa vasta planície. Não há como distanciar as coisas por se situarem nas antípodas - nas antípodas vivem as pessoas e os dramas que negligenciamos, as feridas cruentas e a gangrena das nossas ruas e casas).

Duplo

A sua casa possuía vidros duplos nas janelas, sentou-se na cama num acesso de preguiça olhando a rua através deles. Tinha tomado banho e enrolara-se num toalhão, eram doces esses fins de tarde com o Sol estival ainda queimando no céu vítreo. Havia mais tempo, não havia por que correr, teria luz quase até às dez horas, tempo de sobra para fazer as suas coisas e ainda aproveitar para pegar no livro que andava a ler aos bochechos. Quando assim amornava, reparou num pormenor curioso, o Sol refractava-se no ângulo do vidro duplo da janela, numa imagem duplicada. Procurando não perder essa ilusão dos sentidos, recostou-se nos almofadões e pensou como o mundo ficava diferente assim. Dois Sóis. Talvez estivesse a entrever a verdadeira realidade. Num Universo paralelo ao nosso, uma outra dimensão, poderia existir um outro Sol, com um mundo paralelo ao nosso, onde uma mulher como ela viveria uma realidade paralela, contemplando a sua própria estrela e divagando sobre paralelismos e paralelepípedos.

Opções

Cansado de viver oprimido e humilhado, procurou recuperar a sua dignidade, ergueu-a das pedras da calçada onde estava prostrada - suja e rasgada e fedendo a gosma de pessoas e mijo de cão - e levou-a para casa nos braços como quem transporta um filho doente. No segredo do seu retiro, deu-lhe banho, limpou-lhe o sangue e o pus e coseu os rasgões que a desfiguravam. Quando a achou apresentável, vestiu-a para ver como lhe ficava. Não gostou, não lhe assentava, parecia desigual e esquisita, com foles e abas caídas sobre a pele. Abriu a janela e atirou-a de novo para a rua. Ia deixar que as pessoas a maltratassem um pouco antes de a voltar a experimentar.

Périplo

Quando iniciamos uma viagem, nem sempre conseguimos levar-nos por completo. Uma viagem ideal será aquela em que nos reconstituimos entre a partida e o regresso.

Economia

A nova vizinha do andar em frente. Mirou-a da sua varanda enquanto ela pendurava roupa com molas de madeira no estendal da marquise. Estava lá em baixo, quando ela se mudou. Um belo pedaço de mulher. Tinha um filho mais crescido com uns dez anos, um casal de gémeos com sete anos e um filho recém-nascido. Quatro filhos, na flor da idade. Aquele casal devia pensar que o Planeamento Familiar era o balanço das contas do mês, ou então, em vez de, simplesmente, constituir família, queria criar uma equipa de futebol. Ela olhou na sua direcção e ele cumprimentou-a respeitosamente com um menear da cabeça. Pelo sim, pelo não. Deve-se ser cordial com os vizinhos, sobretudo quando flectem repetidamente o tronco à nossa frente, com uns seios volumosos mal contidos por uma t’shirt justa. O estendal foi-se enchendo, baby-grows, fraldas de pano, roupas variegadas de criança, um bibe, umas calças de ganga, um toalhão de banho. Quando as varetas do estendal ficaram repletas, ela pareceu ficar pensativa. Depois, retirou todas as peças de roupa da última vareta e, no seu lugar, pôs a secar preservativos, usados e acabados de lavar.

Eterna saudade

O negócio era florescente, um quiosque de venda de flores à porta de um cemitério é bom negócio! Que mais as pessoas podem comprar para oferecer aos seus fiéis defuntos? Caixas de música? Perfumes? Caixas de Tupperware? A flor é a oferenda ideal, e o Hermínio, tanto como a mulher, ajeitava-se para fazer ramos e arranjos. Estava ele a preparar um dos ditos quando vê uma jovem a montar uma pequena banca próximo ao quiosque, o Hermínio larga tudo e vai cuscar. Era para vender flores de papel. Era legal? Era! licença camarária em ordem. O Hermínio não se conforma. Porquê ali? Porquê no seu cemitério? O negócio andava mal, pelas horas da morte, morria pouca gente e as pessoas cortavam nas despesas. E porquê flores de papel? Perguntou o mesmo à jovem, assim, literalmente, sem rodeios. Ela justificou: as flores de papel eram recicláveis, temos de pensar no futuro do planeta. Planeta uma ova! Brame Hermínio, nada ali é para reciclar, as pedras, os mortos, as flores, envelhecem e apodrecem e é essa a sua reciclagem, não ficam para semente. A jovem insiste: temos de ser ecologicamente responsáveis e a flor de papel tem o mesmo valor simbólico que uma flor natural. Não aqui, grita o Hermínio, não neste cemitério, compro-lhe toda a mercadoria que você traz, compro-lha pelo dobro do valor mas você vai reciclar para outro lado. Ela concorda, faz um preço e ele passa um cheque, sem querer saber de mais nada. Ela recolhe o cheque, a banca, a mercadoria e, mal se senta no carro, consulta numa listagem de cemitérios a morada do seu próximo alvo.

Mito

Hero e Leandro eram amantes, mesmo vivendo em lados opostos do Estreito do Helesponto. Hero, sacerdotisa de Afrodite e proibida de amar, acendia uma tocha na sua torre, que guiava Leandro enquanto este atravessava o Estreito a nado para se lhe reunir. Leandro tinha sempre muito cuidado. Antes de atravessar, olhava com muita atenção para a direita e para a esquerda, para ver se não vinha ninguém, e só depois iniciava a travessia. Leandro amava Hero, Hero gostava de pecar com Leandro, mas cada vez menos, a travessia era longa e a água muito gelada, o archote estava cada vez mais mortiço. Uma noite, Hero apagou deliberadamente o archote, e Leandro foi colhido na passadeira.

Sentido trocado

O insólito se apresentou a um homem que só queria voltar a casa: fazia baixar o helicóptero sobre o heliporto, em pleno dia, mas não o conseguia alcançar. O heliporto num terraço de prédio, o prédio, toda a cidade, o vale e as montanhas vizinhas afundavam-se debaixo dele. De nada adiantava usar os comandos. Estava a descer sobre um heliporto que se afastava na mesma velocidade. Começou a ver mais e mais terras debaixo dele, e sentiu o ar a rarefazer-se. Num gesto desesperado para acabar com o sofrimento, manobrou o heli para subir ainda mais depressa e viu, atónito, a terra mover-se ao seu encontro.

Irmão

"Nada de mesuras ou formalismos, de pedir por favor ou descosermo-nos em desculpas. Somos família, caramba, não uma equipa de futebol!". Dito o que tinha a dizer, espetou-lhe uma canelada que o estendeu no relvado aos gritos.

Jus prima noctis

Vestiu o seu garboso gibão, afivelou a sua espada e saiu ufano no seu alto alazão. Chegou à tardinha à aldeia que ainda celebrava a boda, e foi bater à porta da noiva. Aquela noite era para si, as tenras primícias amorosas daquela jovem acabada de casar pertenciam-lhe por direito e tradição. A espada estava impaciente, o alazão resfolegava, e quando a porta se abriu revelando uma anciã sem dentes e cheia de pudor, fugiu despudoradamente sem sequer cumprimentar a avó da noiva.

Declarações finais

1

«O meu cliente é culpado? Sim! Cometeu o crime de que o acusam? Sim, sem dúvida! Mas é culpado e cometeu o crime com toda a inocência de uma criança que brinca com armas de plástico!"
2
Lido depois
«Sou o produto acabado de um produto acabado. Vim, vivi, fugi».
3
«Como advogado mas, sobretudo, como vosso amigo, peço-vos que dêem um tempo antes de avançarmos para o divórcio. Estou convencido que vocês ainda se podem entender, mesmo com a ordem de restrição que cada um activou contra o outro»
4
«Foi um bom homem, honesto, religioso, trabalhador, amigo do seu amigo, sempre pronto a ajudar, mesmo quando não precisavam da sua ajuda. Como médico, só me arrependo de não o ter avisado que também se podia morrer de tédio»




Cultura muito geral

Aprendemos muito, imenso, com os outros: a família, os mestres, os livros, os amigos. Mas, é na solidão que esse conhecimento se refina e se torna nosso, sob pena de vir embrulhado em ganga e escória inúteis.

hora do recolher

«Quando estou cansado, mentalmente cansado, consigo sentir no cérebro a linha de fronteira entre os dois hemisférios, como se esta fosse o espaço vazio entre duas asas atrofiadas, de corvo ou morcego. Quando estou cansado, perco o sentido de orientação e de voo, e o meu cansaço concentra-se na fronte, sobre os dois olhos a latejar que preguiçam de estarem abertos».

Tabuleta

“Ruínas em curso.
Pedimos desculpas pelo marasmo. Seremos demorados”.

Contaminado

Era hostil e rancoroso dos pés à cabeça, com cada fibra e célula do corpo. Quando o sangue rico em oxigénio se distribuía pelo corpo, no trajecto para o coração embebia-se dos seus podres, e tornava-se venenoso.

Ganha-Pão

Vende vivendas e vive do que vende.

1º entre =/=

Quem vive virado para o seu próprio umbigo, nunca vê as vísceras que ele sela, e cria asas nos pés e nas costas, e anda por entre a gente como um Messias esperado de coroa de louros nos cabelos e folhas de palma aos pés, da boca e dos poros suda ensaios, romances, filosofias e teorias, do seu ânus saem aforismos, versículos e axiomas embrulhados em folhas de lótus e cheirando a sândalo. Quando chega a hora de ser sepultado, os vermes abrem finalmente o seu umbigo faraónico (abrem-no primeiro, para iniciar o festim) e o semideus que violou o universo com o prepúcio da sua arrogância, não possui mais filosofia ou ciência do que o tronco de uma árvore morta dissolvendo-se sobre a chuva, ou o corpo de um sarafano que as formigas devoram deliciadamente.

Gavrinis

(Escrever um pouco à toa, como quem arremessa pedras para a superfície quieta de um lago, não me perguntem o que esses círculos significam ou quais as leis da ciência que presidem a essas ondulações caprichosas. Basta-me a libertação interior de arremessar essas pedras para longe e o prazer pueril de corromper a imóvel serenidade em que me sinto ataviado).
Em toda a extensão de meridianos deste planeta, ele só tinha duas pessoas a quem podia chamar amigo. A meio de uma comezaina com o seu amigo número dois e sublimado pelos vapores do álcool, lamentou-se - não sem uma pontinha de orgulho - que se sentia como um porco-espinho todo eriçado. As pessoas evitavam-no, passavam por ele ao largo, furtavam-se ao seu convívio com medo de se ferirem nos seus aguilhões. O amigo concordou em que a imagem lhe fazia justiça, sendo que os seus espinhos eram moléculas de cheiro.

Currículo

Resumiu a sua vida e o seu "percurso" em três linhas, abreviou-a em poucas palavras, e que, ainda assim, lhe pareceram sobejar. Não adiantava tossir nem mugir, fazer auto-retratos sem bexigas, venerar a sua sombra alongada pelo Sol baixo do crepúsculo. Três linhas bastavam como apresentação, as mesmas linhas breves com que a morte se cosia.

Expediente

Gostava de ser popular, e que o tratassem sem cerimónias nem formalismos. Na hora de criar um weblog, escolheu Tube como nick. E todos começaram logo a tratá-lo por tu.

Cruzamento







(...)
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
(...)

(do "Cântico Negro" de José Régio)
(imagens surripiadas daqui)

(Marketing poético: Vide poemas de Víctor González Solano, na caixa de comentários)

Companhia

O bule estava lascado, o bule que era da sua mãe, hierático na solidão de mausoléu do louceiro. ELA sabia que estava lascado, ainda que quase não se visse, muito menos àquela luz do lusco-fusco. Para se redimir da sua falta para com a memória da mãe, fez e serviu chá nele ao seu marido - bule riscado, vidro moído.
"Envio-te o Fernando, mãezinha, não o estragues com mimos".

Algum dia

Viviam nas antípodas um do outro como aquelas figuras mecânicas que correm sobre carris em relógios intrincados de catedrais. Nunca se cruzam, ele guia-se pela fria e translúcida Estrela Polar, ela transparece na nudez dos caminhos ardentes ditados pelo Cruzeiro do Sul. Ainda assim, precisam um do outro, e esperam que os céus se recurvem para se reunirem sobre a linha do Equador.
O surdo Abe construiu um funil gigantesco no topo da colina para, esperava ele, escutar a música das esferas e o rumor das estrelas. Quando o seu trabalho teve resultados decepcionantes, atribuiu o malogro ao facto de ser um Abe surdo.

FLXR

Morto o rio, o seu leito arenoso é um mortório de conchas e carapaças, limos e musgos secos ainda agarrados às rochas, búzios que encerram o eco das águas, e espinhas e cartilagens translúcidas que fremem na palma da mão.

verdadinha

1
Bebia uns copos, mas não era alcoólico. Quando ingressou nos AA, seis dos doze passos para a recuperação invocavam Deus, e pediam-lhe que ele acreditasse num poder superior. A verdade, é que isso era impossível. Era capaz de deixar de beber, pelo menos por umas horas, mas não lhe podiam pedir que fingisse acreditar numa Entidade Divina. Voltou aos copos (mas continuava a não ser um alcoólico).
2
A súcia de homens que erram, dissocia o erro da verdade, mas escolhem o erro por ser mais leve e fácil de transportar.
3
A verdade tem farpas, aguilhões, espinhos, penugem de urtigas - e, quando se vomita, rasga-nos a garganta como se expelíssemos lâminas de vidro. A verdade mata. Os que perseguem a verdade, morrem prematuramente.

endividado

Alguém devia obrigar as unidades hoteleiras a deixar bem explícito que as bebidas do frigo-bar do quarto que são consumidas, são para serem debitadas na conta, e não para se beber à fartazana como se fossem de graça.

resposta a uma pergunta 1

Na taberna, lia-se um anúncio: "Há Cachoros". Picuinhas, implicativo com qualquer agressão à lingua pátria, chamou a mulher do outro lado do balcão e perguntou-lhe se sabia que aquilo que estava escrito se devia ler: "há-ca-chóros". A mulher fixou o papel, coçou a cabeça e reagiu sem constrangimento: "Sei, sim senhô. Mas se o senhô não gosta de cachóros, também temos caracoes, muelinhas e hamburgues".

resposta a uma pergunta 2

O prosador aprendiz andava sempre com um bloco de notas à mão, e uma esferográfica, pequena, de escrita fina e macia. No dia-a-dia, escrevinhava frases e palavras soltas, coisas vistas ou imaginadas, memórias verdadeiras e outras que lhe apareciam como tal:
«Vi um estranho na ponte, muito sério, olhando para a linha férrea; miosótis; transmigração; um canário demorou-se ontem no parapeito da minha janela; uma amiga partiu, estava habituado a bater-lhe à porta e ler as suas palavras, mas já não mora lá, a casa está vazia, foi vendida, as suas palavras mudaram-se cá para dentro; detesto o meu reflexo nos espelhos pela manhã, em casa removi-os todos, mas não poderei estilhaçar os que encontro pela rua - terei de me olhar como a uma outra pessoa e cumprimentar a minha imagem, desde que não esteja ninguém a olhar; fixar isto: odor do limão e o sabor da tequilha; hoje apetece-me uma broca, como as que fumávamos quando fazíamos a ronda pelas tascas; Teocalli, a casa de deus dos Astecas, onde se sacrificavam guerreiros oferecendo o seu coração a deuses esfomeados e sem hipocrisias...»
Em casa, revia as notas, unia algumas como um jogo de associação, enriquecia outras, completando a recordação ou o grau de minúcia. Dali surgiam algumas histórias mancas ou pedaços de prosa, versos também, alguns, poucos, porque sempre os sentia nado-mortos.
Esse bloco de notas, acabou por perdê-lo durante um dos seus constantes passeios. Procurou-o por todos os lugares por onde tinha passado nesse dia, mas sem resultado. Desesperou, estavam ali semanas de vivências e suspeitas, por fim, resignado, iniciou outro.
Sem o saber, nesse mesmo dia, um estranho encontrou o bloco perdido no chão, ao pé de uma montra, estranhamente vazio e por usar, com a caneta de estimação enganchada. Num impulso, pegou na caneta e começou a escrever: "O prosador aprendiz andava sempre com um bloco de notas à mão..."


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...