INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Réplica imaginária

Moçambique, distrito de Tete, visto no mapa, o distrito parece a cabeça de uma ave mítica, talvez uma fénix: era o distrito mais quente, em temperaturas e no calor das armas. Quando era pequeno, sete, oito anos, aconteceu uma coisa espantosa. O meu padrinho estava na cozinha da sua casa a comer e, quando olha para a rede mosquiteira da porta, vê emergir a cabeça monstruosa de uma jibóia, lesto, vai buscar a caçadeira e desfaz a cabeça da bicha com um tiro. Todas as pessoas das redondezas acorreram ali, era a maior cobra que se tinha alguma vez visto, tinha mais de quinze metros, o corpo dela cobria toda a extensão do quintal do meu padrinho até à cozinha que ficava nas traseiras, e a cauda descaía no outro lado da rua da frente.
Lembro-me de dar passadas ao lado do corpo da jibóia para contar os passos que media, e de cutucar com uma cana o seu ventre mole. A cobra desapareceu no dia seguinte, diziam que o meu padrinho vendera a carne para um talho, e que a pele tivera como comprador uma fábrica de sapatos. Fosse como fosse, durante semanas, a cobra tornou-se o tema das brincadeiras e cóboiadas da rapaziada, o nosso dragão das redondezas, morta dezenas de vezes com espadas e lanças, Dirringer's e Colt's 45.
2
Por esses dias, lembro-me de andar a passear pensativo pelo quintal da minha casa, e do António me chamar.
O António não era um criado ou um mainato, para mim e os meus irmãos, era como um irmão mais velho, um amigo e um mentor. António Maluate Chacala, assim se chamava. De inteira confiança dos meus pais, zelava por nós, cuidando para que nada nos acontecesse na ausência deles.
Aproximei-me, limpando a terra a uma manga que acabara de cair. Ele pergunta-me no que andava a pensar. Encolho os ombros, sem saber o que responder, e observo o que ele fazia. Havia umas covas na areia e ele passava umas pedrinhas de umas para outras. Acho que era um jogo.
- O menino estava a pensar no futuro? - perguntou com um sorriso.
- O que é isso?
- Naquilo que quer ser quando for grande...há pouco o Afonso dizia-me que quando for grande quer ser comando, para matar os turras, o outro seu irmão quer ser Gringo, andar de cavalo e ter muitas mulheres bonitas. O menino nunca pensou nisso?
Pensei nisso, naquele momento, mordiscando a manga fibrosa.
- Quero ser uma cobra - respondi num repente.
O António riu-se com gosto.
- O menino não pode ser uma cobra. A cobra tem terra no sangue, como o lagarto e a quizumba - fez uma pausa, e apontou o beiral do telhado onde as andorinhas esvoaçavam em torno dos seus ninhos de terra. Numa voz mais grave, prosseguiu - o menino, quando for grande, pode ser uma andorinha, uma andorinha faz o ninho num sítio, depois os dias mudam e parte com o vento para outro lugar, onde constrói outro ninho. Cada terra é a sua terra.
Fiquei a olhar as andorinhas, aquela imagem não me entrou na cabeça. Como a imagem da cobra morta, com os restos viscosos da cabeça pintalgando as paredes.
3
Tentei reproduzir esta conversa o mais fielmente que consegui, atraiçoando apenas o teor exacto das palavras e a inominável teia de sentimentos envolvidos. Por vezes recordo-me dela, tantos anos depois. Se, por um capricho do acaso, me visse novamente diante do António, evocando esse diálogo, dar-lhe-ia a notícia que havia descoberto que me poderia tornar, também eu, numa cobra. Se ele me perguntasse como, revelaria, em tom de confidência: "Hoje sei que também tenho terra no sangue, a terra dos meus ninhos desfeitos!".

caliça

Somos os mesmos que éramos antes de fecharmos a porta atrás de nós, o gesto não nos aspergiu pelos ângulos das divisões em veladuras que velam as feridas profundas no gesso dos tectos, somos os mesmos de sempre, sempre ensimesmados sem nunca chegarmos a saber quem realmente somos.

2 dedos de conversa

Ele: A nossa nova colega é muito bonita!
Ela: Quem? A Cabo-Verdiana? Ah, sim, a negra de extensões no cabelo e sobrancelhas num risco...
Ele: Tens é ciúmes. Ela parece um modelo.
Ela: Sim, acho que sim...para quem gosta do género...Sabes que o marido dela é branco?
Ele: E?
Ela: E que os filhos são mais clarinhos...
Ele: Não sabia que eras racista, Rosa.
Ela: Não sou! Juro que não sou! Só acho que a vida se torna mais fácil quando se tem a pele clara...

miracolo

Sem medo nem hesitação, caminhou sobre as águas envolto num enorme bruá geral de «Milagre!». Segue-se o próximo, mais a medo, medo de humedecer a roupa ou agravar o reumático nos tornozelos, e um outro, uma criança apenas, criança e poderosa, saltando e esparrinhando água em redor, desfrute que culminou num enorme bofetão da mãe. Entre os ralhos da mãe e o pranto do puto, ouve-se nos altifalantes a voz da fulana da Caixa Central: "Solicita-se a uma funcionária da limpeza que se dirija ao corredor das águas para limpar o pavimento".

update

Ilhas Flutuantes.
É preciso pouca coisa para uma ilha flutuar. Um amontoado de madeiros ou caniços ensarilhados num novelo de matéria orgânica, e terra ou cinzas vulcânicas, ter vegetação, arbustos e talvez uma árvore, se não for pedir muito. Pode ser morada dalgum esquilo subnutrido, e aves, gaivotas e andorinhas do mar, enquanto na sua bainha vegetal prosperam crustáceos e pequenos cardumes. Assim reunidos os elementos, obtém-se uma ilha flutuante que vagueia até apodrecer ou ser dispersa por um ciclone.
As ilhas flutuantes, suportes efémeros de vida, possuem uma função transcendente que supera as suas características físicas: confundir os humanos.
A mesma ilha já deverá ter sido fixada pelos cartógrafos em lugares distantes, mas precisos, do grande mar, ora a cinco léguas da Ilha Mão de Satanás, ora orbitando em volta da Ilha Brasília com um penacho de luz no topo. Nos dias de hoje, em que depositamos uma confiança cega na tecnologia, as ilhas flutuantes servem para criar enigmas nas imagens de satélite, e levar os navegantes a desconfiar da exactidão do GPS.
Xingado pelos seus pares, achincalhado por amigos e gente sua, começou a ficar farto. Refugiou-se nos livros, foi-se eclipsando à vista de todos até desaparecer por completo, algures, entre o segundo capítulo d"A Provação do Labirinto" de Eliade, e a oração 34 d'"O Único, Original, Vero e Autêntico Livro de S.Cipriano".

Por uma unha

Como não conseguisse acabar o curso, empreendeu um protesto à boa maneira dos anos 60: um Sit-In nas escadas da Faculdade, a exigir que lhe dessem a cadeira que faltava.

Definição

Produtos lácteos verdes:
Leite e seus derivados proveniente de animais alimentados com erva e outras forragens naturais.
Exemplo: Leite de soja.

Redoma

Se tivermos medo das palavras,
como poderemos conhecer o seu sabor?

espaço

A sua auto-estima tem vindo a diminuir de tal forma, que só sabe chatear a companheira para trocarem a cama de casal, por uma cama de pessoa e meia.

Um objecto

No Parque da cidade há um banco especial, está situado em frente de uma estátua que parece figurar um rinoceronte mutante ou um caniche retratado por Bacon. Porque é que é especial? Tem uma armação de ferro pintada com tinta avermelhada, duas tábuas de madeira para assentar e encostar, parafusos e cravos, zebro e caruncho. Nele se faz o que se faz em todos os bancos de jardim, troca-se carícias e insultos, comem-se tremoços e pevides e dá-se a comer aos pombos, lança-se piropos às pombas e às mulas, zurze-se os burros e coleccionam-se macacos do nariz no verso do assento.
O que torna esse banco especial é uma evocação a mais para uma pessoa como outras, que costuma passar por ali. Há muitos anos, um adolescente sentou-se nesse banco, distraidamente, levava livros para a Biblioteca quando esta ainda estava sediada nos velhos Pavilhões Berquó. Para fazer tempo para a hora em que a Biblioteca abria, folheou um deles, as Ficções de Borges. Releu alguns trechos. Enquanto o fazia, uma senhora sentou-se ao pé de si, senhora, porque era mais velha, trinta e poucos, talvez, trazia sacos de compras do mercado, frutas e saladas, ofereceu-lhe um pêssego e ele aceitou. Enquanto trincava o pêssego, ela fingiu interessar-se pelo que lia, curvou-se sobre ele e discretamente apoderou-se do seu sexo, acariciou-o e masturbou-o debaixo do peso etéreo das bibliotecas imaginárias. Depois, com um sorriso irónico, pegou nos seus sacos e seguiu o seu caminho, arrastando os pés no saibro. O adolescente ali ficou, com as faces vermelhas e um sorriso pateta nos lábios. Aquela aventura inesperada num banco de jardim não lhe mudou em nada a vida mas, ainda hoje, quando passa por aquele banco inerte e vulgar, vem-lhe às narinas o doce aroma do pêssego.

Vozes do Além


Quando se fez ao mar no "Joana d'Arc", o seu veleiro de dois mastros para uma travessia solitária do Atlântico, sabia que não ia ser fácil. Arrostar sozinho as vagas do Oceano é uma tarefa hercúlea, luta-se contra tempestades e vagas alterosas, escolhos e perigos diversos mas, o maior de todos os perigos, é o próprio espírito, que pode vacilar e ondear com a vastidão do mar até se aproximar de um estado alucinatório.
Largou de Las Palmas, nas Canárias, em direcção a Cabo Verde, com excelentes condições meteorológicas, tudo funcionava e tudo estava perfeito, o GPS, o telefone por satélite, as velas e cordames. Fez escala no Mindelo e rumou a noroeste, seguindo uma rota traçada que o iria levar até Porto Rico.
Foi à saída de Cabo Verde, em pleno Oceano, que a sua mente lhe começou a pregar partidas. Começou a ouvir vozes. Rodeado apenas de mar e algumas gaivotas, ouvia vozes. Primeiro eram um pouco indistintas, roufenhas, pareciam sair e ressoar do próprio casco do navio. Procurou ter sempre a cabeça resguardada do Sol, e comunicou com um contacto seu no outro lado do Atlântico para manter a sanidade. Logo, as coisas agravaram-se. As vozes surgiam intercaladas com música, Puccini, Carlos Gardel, o Coro Infantil de Viena, rumbas e sambas. Não se foi abaixo porque tinha sempre imensas coisas por fazer, governar todo o barco como um titereiro a manobrar um fantoche, mantê-lo na rota certa, verificar os nós, alimentar-se, redigir o diário de bordo. Já não escrevia grandes coisas, apenas a língua em que as vozes fantasmagóricas lhes surgiam, e a música que elas invocavam. Ainda usou algodão nos ouvidos durante uns dias, mas depois desistiu disso ante a ideia pavorosa de que poderia não ouvir se alguém lhe tentasse avisar por rádio dalguma tempestade pela proa. Era um homem à mercê de um barco assombrado. Quando se aproximava de Porto Rico, física e mentalmente abalado, as vozes cessaram por completo. Por uma coincidência sobrenatural, no preciso instante em que avistou terra, avariou-se o rádio de onde provinham aquelas vozes.

Gomantak

Este seria um bom devaneio:
«Só deseja voltar a Goa, comprar a casa onde passou a infância e reconstrui-la em obediência aos salvados da memória. Viver ali até ao fim dos seus dias e aprender sânscrito e conseguir ler no original os épicos e poemas redigidos nessa língua. Acredita que se irá reconstruir, como as peças de um puzzle, embebendo-se do espírito que anima a terra onde nasceu, junto às raízes das árvores que já existiam no tempo em que veio a ser (muito tempo depois de ser semente e árvore antiga)».

Ursos e cervejas


«Eu sei que és meu amigo. Que bebes uns copos comigo e contas umas anedotas, e falamos sobre muitas coisas com uma invejável espontaneidade. Também sei que escondemos imensas coisas, grosso modo, tudo o que nos parece destoante ou embaraçoso para o nosso diálogo fluido e vivo. Eu sei que és meu amigo, ainda que não saiba quem tu és!»

imagem

A paixão é a única ponte que começamos a edificar sobre o vazio, cegamente, sem avistarmos ou conhecer a margem em que ela irá assentar. Todos os materiais são possíveis, e o que os une é a incerteza de saber se ela será chegará a algum lugar, ou sobreviverá como um semi-arco absurdo suspenso nos ares, aguardando a ruína e o esquecimento.

Aos 86 anos

"Feira do Livro" das Caldas da Rainha, na antiga Praça do Peixe. Uma barraquinha simpática: “Escrita Criativa: Beba uma água ou um café, e pague com escrita!”.
- Porque não vais? – pergunta-lhe a mulher – Sempre bebias um café.
- Hum! Não sei… - hesitou.
- Já sabia! Devias aproveitar! É uma oportunidade única de seres remunerado pelo que escreves e iniciares a tua profissionalização.
- Não, acho que não vou. No final, ainda me obrigavam a pagar o café!

Notícia

«Um realizador português pretende fazer um remake luso do novel filme "Transformers". Devido à insuficiência de meios técnicos para produzir efeitos especiais de igual quilate, o filme terá, como protagonistas, membros da classe política nacional. As audições estão abertas».

Progrom

O pastor levantou os braços, pedindo licença aos condutores para atravessar a estrada com o seu rebanho. Quando o rebanho desapareceu no eucaliptal do outro lado, ainda se ouvia as suas vozes lanosas a entoar: “O Senhor é meu pastor! Nada me falta!”. O pastor sorria, comovido e grato. E eis que uma ovelha se despenha num poço fundo. O pastor abeira-se do poço (muito fundo mesmo) fez a conta ao valor da lã e ao valor da ovelha, numa sábia gestão de esforço, e deixou-a ficar para trás. Pode-se pedir a um pastor que desaloje uma carraçita da cabeça duma ovelha, não estejam à espera que ele tire a cabeça da ovelha da boca de um lobo.

Promoção

«Violência televisiva gratuita! Aproveite agora em versão Demo! Se gostar, pode comprar e baixar toda a que quiser!»

A erosão

1
«Enganei-me a respeito dela. Ela não é triste, é melancólica, não possui essa morbidez oca e empedernida das pessoas tristes – a sua tristeza é etérea e sonhadora como um fogo de Sant’Elmo no mastro de um navio, flamejando entre o céu e a terra com os olhos enamorados da linha do horizonte. Possui a melancolia de um artista, de um criador, debatendo-se entre o devaneio e a angústia, o sofrimento e o prazer. A sua melancolia poderá resolver-se em versos ou obras, ou lançar raízes sobre paixões e afectos incondicionais. Ou isso, ou matar-se no processo».
2
O entendimento entre os dois nunca fora o melhor, infidelidades, recriminações, surdos antagonismos. Quando as coisas se começavam a fragmentar, faziam as malas e iam viajar. Fizeram uma segunda e uma terceira viagem de núpcias, como se assim pudessem reaver a vitalidade e o afecto dos primeiros anos. A sua última viagem fora interrompida quando ela ingerira uma sobredose de comprimidos. Fora na Índia, depois de um passeio turístico. Tinham ido visitar uma pequena praceta que o guia lhes tinha recomendado onde havia dezenas de cubas quadrangulares abertas no solo, cheias de tinturas diferentes onde mulheres e crianças mergulhavam tecidos sob um Sol forte que intensificava tudo, as cores, os cheiros, o frenesim das moscas. Ela sentira-se mal e pedira para voltar ao Hotel, as cores agoniavam-na, dissera, e a luz cheirava mal, era insuportável.
3
Depois dessa viagem, tornara-se evidente que já não havia volta a dar. A vida a dois era apenas um partilhar dos mesmos espaços, com ela medicada com anti-depressivos e ele a passar cada vez menos tempo em casa, prolongando a sua ausência com os afazeres e todos os demais pretextos de que se conseguia lembrar. Quando regressou a casa e viu as coisas todas reviradas, teve a intuição de que havia algo de errado. Ela pusera Maria Callas na aparelhagem, ouvia sempre Maria Callas quando as coisas não estavam bem. Deu com ela na casa-de-banho, mergulhada numa banheira cheia de água ensanguentada. Não pensou que ela podia estar morta, em pulsos cortados, apenas se lembrou das cubas de tinta da Índia e pensou que o vermelho não era muito vivo e que a roupa não ia ficar toda tingida por igual. Depois caiu em si e exclamou: «Que estupidez! Ela, afinal, está nua!».

O que desejar

Um café ao entardecer, numa mesa ao canto quatro homens discutem polidamente, fala-se de partilhas, terrenos, tornas, testamento, marcos, confrontações. Exaltam-se interiormente, sem que uma só pestana se agite. O corpo do falecido é velado a cinquenta metros de distância e eles já lhe fazem a folha, e a desfolha dos bens. A empregada do café traz o lanche num tabuleiro prateado e coloca os comes e bebes no centro da mesa. Eles entreolham-se, tensos. Um deles sai a correr do café e, alguns minutos depois, regressa com um marcador de tinta permanente. Sob o olhar desconfiado dos outros, desenha uma cruz no tampo da mesa, estabelecendo os respectivos territórios e suas confrontações. Num gesto de assentimento e concórdia, cada um puxa para o seu canto o seu quinhão do lanche e começa a comer.

O que fazer

Há ideias que são perigosas, ameaçadoras, a lei conserva diversas disposições a respeito: o seu dono não as pode passear na via pública sem as ter devidamente açaimadas e presas por coleira, terá sempre de limpar as suas imundícies, ter as vacinas em dia e mantê-las caladas à noite enquanto os outros dormem. Algumas ideias são mesmo, proibitivas, não se lhes deve dar guarida ou alimento porque assim se incorre em delito de cumplicidade e obstrução da justiça, e se algum cidadão capturar uma dessas ideias deverá, por precaução, fechá-la dentro dum boião ou campânula de vidro, já que grades, fechaduras e ferrolhos não são suficientes para as confinar. O Estado confia aos seus membros de pleno direito, dispensar as ideias perigosas ou ajudar à sua captura nos casos extremos, porque só assim se tornará segura a sociedade e se preservará a completa normalidade e a perfeita idiotia.

mono-mónada

Cientista 1: Regala a tua vista, assistente, somos os primeiros seres humanos que conseguem ser projectados a um nível sub-atómico.
Cientista 2: É fantástico, é tudo o que imaginávamos sem que pudéssemos saber o que era ou não imaginação.
C1: Agora podemos registar fielmente o que se passa á nossa volta, sem angústias quânticas sobre se isto é mesmo a realidade, ou a realidade depois de tocada por nós.
C2: Não estamos, decerto, a perturbar a ordem sub-atómica..
C1: Claro que não! Trouxemos estes fatos almofadados que nos dão o aspecto de bolas de golfe, e escrevemos neles, vezes sem conta, a palavra "partícula". Para as partículas, nós somos apenas outras partículas.
C2: Foi uma ideia de génio!!
C1: Obrigado! Agora regista as minhas primeiras impressões de campo!
C2: Estou pronto!
C1: «A um nível sub-atómico, as partículas assemelham-se à ideia que delas tinha a Física clássica, parecem bolas de massa densa...»
C2: Massa tenra? Como a dos pastéis?
C1: «Densa! Como pulsantes bolas de magma, mas infinitamente mais densas! Outras vezes comportam-se como ondas, descrevendo Olas em volta do núcleo».
C2: Passou por nós uma partícula em tudo igual a uma bola de golfe. Será que é por nossa causa?
C1: Impossível! Somos observadores dissimulados e externos a toda a experiência.
C2: Iria jurar que vi uma partícula bola de golfe a rolar em direcção a uma bandeirinha com o número doze!
C1: Cala-te! Se parecem bolas de golfe, é porque é esse o seu aspecto natural...
C2: Cientista?
C1: Diga, néscio assistente!
C2: Acho que a nossa experiência vai entrar numa nova dimensão: julgo que estamos a assistir ao início de uma cisão nuclear!

Sintoma

A ansiedade não o deixava dormir, um estado de tensão constante, um lufa-lufa do sangue no seu peito, recorreu à sua pequena farmácia caseira, passou em revista os ansiolíticos, hesitou entre o Lexotam e o Valium, namorou o Dormonid e o Thorazine e desistiu de todos, perseguindo uma alternativa natural, um chá calmante, uma coisa mais soft. Enquanto preparava um, colocou no Hi-Fi o Sinatra, diminuiu a luz e apeteceu-lhe dançar como um idiota ao som de Come Fly With Me. Renunciou também ao chá. Estava apaixonado, tinha de o admitir. Ninguém lhe havia explicado que aquilo podia bater tão forte.

Pau-de-cabeleira

1
Acompanhante, pessoa que testemunha um ritual de acasalamento e fica a apanhar bonés.
2
Cabide de camarim que presencia a promiscuidade da Prima donna careca.
3
Alegoria do pénis, sempre e quando é chamado à presença de uma cena que o excita, mas para o qual não é visto nem achado.

Trívia

César nasceu de uma cesariana, Marte nasceu de uma marciana, Baco, de uma bacana.

Aniversários

Fez sete Primaveras, doze, quinze...fez vinte e dois Verões, trinta e quatro, trinta e sete...fez quarenta e quatro Outonos...sessenta e dois Invernos.

Hermes/Moai

Escrevemos milhentas palavras sobre as nossas pulsões de sempre, uns poucos temas, angústias, desejos, chagas. A escrita desenvolve-se numa planície sem margens nem limites sob um céu enluarado, uma vastidão monocromática onde as nossas palavras se erguem como milhares de efígies de nós mesmos.

Precavidos

Há pessoas que desenvolveram uma forma elegante de ter medo, subscreveram Planos de Poupança e Seguros confiantes, estão mal-seguros nos dias chuvosos e em todos os outros dias, na estrada é um calhar, um camião desgovernado que os passa a ferro enquanto ouvem a dois o éme pê três, no passeio é o prédio já arruinado que lhe desaba no cocuruto enquanto ajustam o chinó, não confiam e não temem, o medo veste a roupa do dia, come do mesmo prato em doses diárias, está presente como a espada de Dâmocles ou o palito com que desalojam os restos de carne guisada dos dentes, o melhor é não temer, acreditar em toda a gente e fazer parapente na falésia em dia de vento, o que vier a acontecer está escrito e rubricado em sangue - do agente de Seguros, do Cristo, do Dalai-Lama, quem não vê é como quem não sente, pior seria o crash mundial fechar as portas de Seguradoras e Bancos, deitando por terra todas as economias e aplicações e tornando a desgraça e a morte uma coisa mesmo estúpida.

objectos

Ecos, um avião sobre a cidade, o rumor do tráfego, o tinir dos talheres numa sala de jantar moderna - o dissipar da vida nos ossos e nas veias de cada um. Estamos cercados de artifícios, de coisas que nos ocultam a realidade, e a íntima realidade de sermos ilhas no lado de dentro dos cenários que construimos.

angústia

Os sinais Morse recebidos em alto-mar, eram intrigantes. Em vez do tradicional S.O.S., alguém emitia um S.O.B., pediam Save Our Body de um pequeno veleiro perseguido por uma gigantesca serpente marinha.

Por completar

(imagem daqui)

Capelas Imperfeitas

O som do telefone arrancou-o do seu torpor. Correu a atender.
- Boa Noite! Estou a falar com o dono da casa? - uma voz feminina, doce e solícita.
- Sim, é o próprio...
- Desejava-lhe fazer algumas perguntas sobre acessórios de limpeza, e só lhe vou tomar uns poucos minutos do seu tempo. O senhor Domingos tem disponibilidade para isso.
- Toda. Atire!
- É o senhor que faz a limpeza da sua casa, a sua esposa ou tem uma mulher-a-dias?
- Não tenho esposa, limpo o que posso e pago a uma senhora ucraniana para vir cá uma vez por semana.
- Na limpeza da sua casa, usa só vassoura e esfregona, ou possui algum aspirador?
- Tenho aspiração central!
- O senhor sabe que a aspiração central nem sempre consegue satisfazer os mais exigentes. Que o melhor meio de eliminar todos os germes e ácaros é fazer uso da água no processo de aspiração. A empresa para a qual trabalho desenvolveu um aspirador revolucionário que cumpre todos os requisitos de limpeza e higiene no lar. O senhor estaria interessado...
- Compro-lhe um!
- Diga? Sim, teremos todo o gosto em lhe vender um! Pedia-lhe só os seus elementos pessoais, para enviarmos até si um delegado para o entregar e fazer uma demonstração.
- E depois desliga?
- Como? Não entendi a sua pergunta?
- Você está a vender um produto e eu faço-lhe uma contraproposta: eu compro-lhe dois aspiradores, se continuar em linha comigo durante mais uma hora. Eu tenho uma outra casa, era a casa dos meus pais, a casa onde cresci, depois que eles morreram não tive coragem para a vender, e vou lá uma vez por mês para limpá-la e abrir um pouco as janelas. Dava-me jeito ter lá um aspirador desses. E então? Fazemos negócio?
- Não é uma situação muito regular mas, por dois aspiradores, acho que posso largar as perguntas de roteiro e ficar ao telefone consigo. Quer falar sobre quê?
- Qualquer coisa...Hoje é Sábado e podemos falar sobre cinema, desportos, o que lhe apetecer. Como é que a posso tratar?
- ...
- Não estou a perguntar-lhe o seu nome verdadeiro, nem quero saber onde mora. Mas dava jeito ter um nome ou um Nick para facilitar o diálogo.
- Trate-me por Diana, era assim que eu assinava os meus poemas no jornal da escola...

Conversa de café

«Para apanhar, sentir um cheiro, nunca vi nada como a minha mãe. Quando era nova, dizia-me em confidência: "Estiveste a fumar, vê lá se o teu pai não te apanha", ou "Cheiras a homem, a after-shave de homem, e não é o mesmo do da outra vez. Quando é que tu atinas?". Hoje, tantos anos depois, a sua faculdade mantém-se. Quando a visito, esfrega o cabo da bengala e diz-me satisfeita: "Estás feliz, cheiras às coisas de que gostas e que te dão prazer, cheiras a amor e a ternura, a esqueceres-te de ti enquanto lês um livro ou brincas com os meus netos", ou então: "Consigo cheirar a tua dor, a dor amarfanhada que trazes hoje. Não vale a pena sorrires que, os sorrisos, eu não os vejo. O que foi desta vez? O dinheiro? O estroina do teu marido? Ou é por causa do teu amante secreto, aquele que cheira a óleo de coco?».

Santo dos Santos

Ela Ama Deus,
E Ludwig, Franz Joseph, Johann Christian, Antonín, Félix, Claude Achille, e Giuseppe...Verdi.
A música é o seu templo.

Diálogo

O casal, que sempre se entendera na perfeição, chegou a uma fase da relação em que estavam em total e perfeita sintonia. Antecipavam o que o parceiro ia dizer muito antes das palavras surgirem, e bastava um gesto ou um sorriso para os dois se rirem da mesma private joke. O entendimento refinou-se a tal ponto, que começaram a prescindir das palavras e entendiam-se sem precisar de falar. Naquela comunicação silenciosa surgiu um mal-entendido, gravoso, e nunca mais conversaram desde então.

Mais uma

A Produtora televisiva realizou audições para o papel de um falhado numa televonela em curso. Compareceram milhares de pessoas às audições, gente sem experiência como actor mas que se sentia capaz de encarnar o personagem. Eram todos credíveis e autênticos - representavam a si mesmos e à sua vida de frustrações. A Produtora não foi capaz de seleccionar um, e suprimiu o personagem do roteiro.

Adulada essência

O mês de Agosto não lhe recorda praias nem férias laborais mas sim o zunido das libélulas, o riacho no fundo da vala, a sombra generosa dos salgueiros, a brisa fresca à revelia do calor distante e a pele dela, ardente e sedenta de carinho, o toque húmido dos seus lábios e da sua língua, fazendo-o ficar zonzo enquanto ela lhe ensina com gestos de silêncio a linguagem do amor.

3 estórias bárbaras

Nadir
Os dois drogados não tinham champanhe e taças para brindar, nem mesmo comida. Viviam num prédio devoluto a cair aos pedaços. Pela madrugada, estavam acordados, a precisar de uma nova dose mas roídos de fome. Pela janela aberta entrou um pombo, que esvoaçou de encontro às paredes e aos móveis quebrados. Um deles venceu o torpor quando o pombo pousou na penumbra ao seu lado, deu um salto e conseguiu segurá-lo, o outro levantou-se de um monte de trapos sobre o qual dormia e juntou-se-lhe. Entre arrufos e cotoveladas, os dois comeram o pombo vivo, enterrando os dentes amarelos e podres naquela carne palpitando de vida, enquanto cuspiam penas e sangue.


Boreal
O casal de turistas suecos viajava de bicicleta pela Europa. Numa pequena aldeola da Estremadura, resolveram parar num bar para beber uma cerveja. Com gestos e meias-palavras em português e inglês, pediram duas cervejas. Enquanto bebiam, viram-se rodeados de um grupo de pessoas amistosas da terra, um falava inglês e estabeleceu-se através dele um diálogo intermitente com os dois viajantes. Gostavam de tratar bem as pessoas que chegavam à terra, diziam, de os fazer sentir-se bem. Para reforçar a mensagem de hospitalidade, começaram a chegar mais cervejas à mesa, pagas pelos outros. Conversa puxa conversa, cerveja puxa cerveja, e o bar tornou-se uma ilha iluminada no meio da aldeia adormecida. Quando começaram a sentir-se cansados, das cervejas e dos convivas, receberam de um deles, uma oferta de alojamento. Tinha em casa um quarto de hóspedes onde podiam ficar naquela noite e, de manhã, podiam seguir viagem. Aceitaram e saíram para a noite com a sua escolta numerosa. Deram alguns passos e a escolta transformou-se em alcateia. Deram ao homem um enxurro de porrada, e violaram-na repetidamente. Na manhã seguinte, os dois suecos procuraram a polícia, que nada fez. Apenas conseguiram alguns curativos numa farmácia da terra, e o alcatrão para seguir viagem.


Zénite
Os quatro amigos planearam algo diferente para o dia da Queima das Fitas. Recém-formados, membros activos da Grande Irmandade Branca, andaram embrulhados com a maralha até ser muito tarde, beberam e assistiram aos concertos, depois, numa retirada orquestrada, meteram-se num carro e andaram pela cidade dos estudantes. Encontraram o mendigo negro onde o costumavam ver, a dormir numa arcada, entre mantas e jornais. Calçaram as luvas de borracha, enfiaram-no no carro e levaram-no para fora da cidade. Deitaram-no a uma vala junto a um olival, com o dorso prateado do Mondego ao fundo. Sentaram-se em bancos de lona de pescador e lapidaram-no no fundo da vala, atirando-lhe pedras grossas enquanto fumavam cigarrilhas e bebiam Moët Chandon.

Resolução nocturna

Devido ao adiantado da hora, vamos todos atrasar os relógios!

causa e efeito

Para contrariar os dias incertos de Sol, passava as tardes no Solário. Assim, fazia boa figura diante dos estranhos, que a julgavam chegada de algum praia nos Trópicos. O expediente saiu-lhe caro: os médicos diagnosticaram cancro de pele originado pelo buraco no ozono.

soberania

Quando voltava a casa, encontrou o sujeito diante da sua porta, de fato e gravata como um bancário. Quando chegou perto, cheirava a Água de Colónia. Pensou num vendedor, mas enganou-se.
- Senhor João Alberto Mascarenhas de Aguiar? - perguntou o outro.
- Sim, o próprio... - (Devia ser do fisco).
- Só preciso de dois minutos do seu tempo
- Há algum problema com os meus impostos?
- Não, não se trata disso. Queria fazer-lhe apenas algumas perguntas sobre o seu modo de vida. Fui eu o dador do rim que lhe foi implantado, daí a minha curiosidade.
- Pasmo! Pensei que essas coisas eram do sigilo médico...que nunca diziam!
- Foi a minha condição, o rim é um órgão redundante, por isso decidi doar um a quem precisasse dele para viver. O médico veio com o blá-blá do sigilo, mas eu respondi-lhe em rima: "Se quer o rim / diga sim", e ele só me disse: "Está bem! Venha de lá esse rim".
- Tudo bem, o que é que deseja saber então?
- Sabe que eu levo um modo de vida austero, digno de um Quaker. Nada de comidas rápidas, bebidas alcoólicas, produtos com corantes e conservantes. Tento comer sempre produtos criados naturalmente e carne de confiança. O rim que passou para si estava novinho em folha. Atrevo-me a perguntar como são os seus hábitos alimentares?
- Sou vegetariano, para minha fortuna e saúde do seu rim. Aqui dentro não entra carne, nem de búfalo da savana alimentado a erva. Não bebo bebidas alcoólicas e, por norma, bebo dois litros de água por dia, para limpar o rim de qualquer produto ou substância tóxica que inadvertidamente tenha assimilado. Como vê, o seu rim está bem entregue!
- Concordo, superou todas as minhas expectativas. Iria ser penoso para mim saber que o contemplado com o meu rim vivia para o arruinar. Assim sendo, sigo o meu caminho e agradeço a sua paciência!
- Não quer entrar e beber alguma coisa antes de ir?
- Não, obrigado. Já se faz tarde e ainda tenho uma visita por fazer: tenho de ir à procura do fulano a quem doei o coração!

Realismo fantástico

Um tema que me é caro, e um post (mais um) de João Ventura que dá gosto ler: aqui

Para levar

Só mais uma para o caminho, uma cerveja, memória, palavra urdida por escrever,
Só mais uma para o caminho, dizia, uma oração, vou rezar por ti, rezo sempre pelos perdidos e pelos peregrinos nas estradas más. Para quê? Eles sabem que estão sós,
Só mais uma para o caminho, dizia à prostituta na parte de trás do comercial, uma ejaculação, carícia, dor, sevícia, a chuva caía e ela levava mais uma para o caminho, de casa, onde a alma escorria ensopada em dor e solidão.

Desabafo de um cafeinómano

Gosto de café, do cheiro do café, do sabor, do rumor da moinho de café, de todas as letras da palavra. Quando fumava, o fumo e a cafeína casavam-se na perfeição, agora que desisti, a cafeína é uma celibatária instalada e auto-suficiente. O café para mim, ou há-de ser tipo café da avó, de caneca cheia para acompanhar uma fatia de pão-de-ló ou torta, ou então, sempre e de preferência, prefiro-o curto - intenso e concentrado. É sempre assim que o peço, em pastelarias, restaurantes ou tascas. Mau grado a minha invocação, muitas vezes vem cheio até às bordas e, pior do que isso, mal servido: frio, com borra, queimado ou a saber a detergente de máquina. Ínfimas vezes reclamei, porque pouco adianta. Só por uma vez fiz finca-pé em ter uma italiana tirada como mandam as regras, e fiz triste figura. Peço o café curto, o empregado, pós-adolescente com acne no nariz e fones nos ouvidos, traz-me um café cheíssimo, e eu lembro-lhe que lhe tinha pedido um café curto. O rapaz não foi de meias-medidas: à minha frente, sem tentar disfarçar, vaza metade do líquido do café noutra chávena e entrega-ma novamente. Pacientemente, como um mentor, tento fazer-lhe ver que um café curto não é a mesma coisa do que meio café cheio. Reparando no incidente, o dono do estabelecimento intervém. Explico-lhe o que se passara e ele lança ao empregado um olhar severo, afirmando que eu estava com a razão. Manda-o servir outros clientes e dispõe-se a tirar-me pessoalmente o café. Agradeço e ele assim faz, e tira um café da máquina que vem tão cheio como o primeiro. Respiro fundo, conto até dez e abandono o estabelecimento, deixando em cima do balcão o dinheiro do café por consumir. Todos saímos beneficiados por eu manter em dia a minha medicação.

banda de cá

Depois de comer o último bombom da caixa, sentiu esfarelar-se na boca a última bolacha do pote das bolachas. Saboreou quanto pode, porque sabia que, a partir dali, a vida deixaria de ser agridoce.

gente

Ela não é de espiritismos, almas vagueando pelos esconsos e esquinas, não acredita em nada que não possa alcançar com a vista ou com o gume dos dedos. Mas ainda se perturba quando lembra o seu filho pequeno de um anito sorrindo docemente na hora do banho, não sorria para ela mas para um ponto determinado da parede, ela ainda esquadrinhou esse ponto procurando um efeito no azulejo ou um reflexo de luz que o pudesse divertir. Mas não encontrou nada. Se era espírito, não devia ser mau, porque ele sorria.

Desertos

Dirceu chamou ao seu bar "A Ilha Deserta". Diante dele, as pessoas paravam e se perguntavam, que livro? que música? que amante? -levariam para ali. Entravam e tinham um grande espelho para se verem melhor, depois, era a quase-escuridão, a fumarada pairando em torno de uma palmeira fluorescente. Sentavam-se a uma mesinha, ainda pensando no que gostavam de ler, sentir ou foder, e depois vinham as cervejas, geladas, os aperitivos, as bebidas espirituosas, o ópio de se fumar até à completa inanição. Então, deixavam de pensar no que eram ou nas coisas que traziam, sentiam-se sós e vazios como objectos ou destroços, restos de naufrágio nas praias duma ilha deserta.

contrapartida

Todos os quartos de hóspedes tem algo de comum: uma atmosfera de afável impessoalidade, um estranho desconforto implícito ao conforto que nos proporciona. Como se morarmos neles implicasse, sermos residência para os seus fantasmas.

fogo fluido

São mais doces as laranjas da nossa infância, mais doces e mais laranjas, as outras apenas vieram insinuar-se no seu lugar queimando-nos os lábios com a acidez de limões, as laranjas da nossa infância foram criadas pelos deuses, resplandecendo num tempo mítico, douradas de Sol e ouro.

crise logística

Desde que a Igreja Católica declarou extinto o Limbo, há menos um parque de estacionamento na Cidade de Deus.

farinha e farelo

Com dezassete anos fez-se padeiro. Não havia dinheiro para estudar e foi o que se arranjou. Mais propriamente, era ajudante de padeiro. Ajudava a carregar a farinha, a pesar o pão ou tender a massa, trabalho de esforço ou imperícia, que os outros, os mestres, os padeiros qualificados, encarregavam-se do resto. Depois de concluído o turno na padaria, fazia mais duas horas a ajudar na distribuição. Sob um frio de rachar, ia até às portas de casa, via o que estava no papel, aviava e conferia o dinheiro antes de o entregar ao motorista da carrinha. Por vezes, as freguesas vinham à porta, porque se levantavam cedo, ou porque gostavam de ver pela manhã aquele rapaz louro de olhar profundo e sorriso simpático. Uma delas, uma trintona roliça de cabelos revoltos, tornou-se uma presença incondicional. Estava sempre à porta, recebia o pão e, com um suspiro, atirava-lhe o dito: "Não é hoje que vejo o padeiro!". O rapaz estranhava, a mulher devia ser maluca, todos os dias o via e dizia sempre que não via o padeiro. A coisa foi andando que, um dia, ela convidou-o a ir a sua casa antes de entrar ao serviço. O marido estava fora, afiançou, e desejava ver o padeiro. Ele aceitou, e ela recebeu-o na sua casa e na sua cama, e foderam como doidos. Então ela explicou-lhe o que era "ver o padeiro" e riram-se os dois da sua ingenuidade, e aquela passou a ser para os dois a senha-e-contrasenha na volta da distribuição.
Meses mais tarde, uma outra freguesa começou a usar a mesma expressão num lamento inconformado, mas esta nada tinha de parecido com a inicial. Além de ser feia, cheirava que tresandava a suor e sarro nos sovacos. Sempre que ela se queixava que não via o padeiro, o ajudante de padeiro exibia um sorriso amarelo e gargalhava: "Ah ! Ah! Ah! A freguesa tem muita graça, muita graça mesmo!"

good year



O visitante da Feira admirava com mais ou menos interesse os carros clássicos expostos no largo pavilhão. Eram mesmo isso, clássicos, carros com identidade e alma, alguns deles apaixonantes. Um, sobretudo, despertou nele uma espécie de enamoramento: um Volvo P1800S perfeitamente conservado, com a sua cor vermelha e os cromados brilhantes. Era o carro do "Santo". Deu mais umas voltas a rodar pela Feira e voltou ao Volvo. Decidiu meter conversa com o proprietário.
- Bom dia, amigo, você tem um carro fora de série!
- Obrigado, é o meu tesouro. Tenho vários carros de colecção, mas nenhum como este. Está como novo e faz muitos quilómetros. Tive de substituir por duas vezes o eixo dianteiro mas, de resto, motor e tudo, poucas alterações teve.
- É de que ano?
- 1964!
- Não me diga! Veja só a coincidência: o carro que mais me interessou em toda a Feira, e é do mesmo ano que eu! Sessenta e quatro foi um grande ano, um ano de boas safras: boa gente, bons vinhos e bons carros.
- Desculpe-me a franqueza, mas é pena você não ser um carro. Com um eixo novo e umas peças de origem, escusava de andar de cadeira de rodas.

riquezas

Ele e a mulher passavam a vida a fazer contas, a pagar contas que chegavam pelo correio, custeando as despesas da casa e a educação dos filhos com o que ganhavam depois de descontado o que deram a ganhar. Nunca teve uma semana de tranquilidade: se não estavam a gastar dinheiro, estavam a pensar quanto conseguiriam por de parte para comprar as prendas de Natal e aniversário e, eventualmente, para arrancar a ferros do quotidiano, umas merecidas mini-férias. A sua vida parecia o diário de um contabilista, eram balanços, estimativas, esperanças e haveres. O dinheiro nunca chegou, viviam sempre à tona, mas nunca, por um só momento, se sentiu um pobre homem.

o Sol em volutas

Sentou-se num cepo ao alto, daqueles que dão jeito para rachar lenha e preparou a sua câmara digital. Estava no campo, no campo que vai desaparecendo, de gente rude que vive em simbiose com a terra e o cosmos. Esperou que o agricultor aparecesse de novo em cena. Depois de o ter filmado a manobrar a forquilha, chegara a vez da foice e da gadanha. Quando ele surgiu por detrás de uma oliveira, enquadrou a sua figura esbatida no visor. Imperturbável, sobre uma seara que parecia pintada por Van Gogh, o agricultor esgrimiu a pesada gadanha, ceifando vidas com gestos largos e curvilíneos. O improvisado cineasta foi colhido. Um feio corte num belo filme.

presa e predador

O óculo da porta,
,vemos e não somos vistos (julgamos), somos nós os titereiros, quem controla, entra-nos a realidade pelos olhos em visão panorâmica mas sem nos contaminar, ameaçar, devassar a nossa intimidade protegida, ela está do outro lado da porta, isolada como se estivesse numa câmara isobárica ou impressa num planisfério, espreitamos pelo óculo da porta como um rato de laboratório espreitando por uma fresta numa parede de labirinto - um meandro de corredores interligados onde não há interior e exterior e poderíamos ser nós quem está a ser observado como um agente estranho e externo.

à deriva


« , a biqueira dos meus sapatos podia ser um ideograma com a forma de aspas indicando para onde vou, devia saber ler isso, ver primeiro antes de chegar, saber o que está na curva do caminho ou o vazio para além dele, andamos às cegas suspensos do que pode (não) vir, a nossa vida pequena é um feto escondido no coração, embalamo-la na cadência dos nossos passos esperando que ela cresça sãzinha e cheia de sorrisos e tenha uma hora pequena e chegue a algum lugar bonito na berma do caminho, para crescer em amor ou morrer em paz »

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...