INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

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«Nunca considerei pecaminoso comer uma maçã, a não ser por eu ser vegetariano e ela poder ter bicho»

história mínima

Entrelinhas, sua cabeça na ferrovia.

J

Jogo, jogatina, jogatana, o jogo o ajoujava, o jugo pesava, leve e volátil tudo o mais, era um jumento, sabia-o, jurava a pés juntos que não queria mais nada do agiota, mas seus juramentos iam pelo cano junto com o seu dinheiro, jungidos ele e o jogo numa marcha circular, até que o agiota enviou seus janízaros para lhe cortar a jugular.

Game over

Primícias

Os seus primeiros beijos foram com a prima, eram miúdos, não achou nada de especial, ela também, iam treinando, ela agoniou-se quando ele insinuou a língua na sua boca, doutra vez ela riu às gargalhadas quando deram uma valente narigada e lhe vieram lágrimas aos olhos, anos depois, a prima beijava melhor e com mais gosto e não era tão picuinhas quanto ao sítio, falaram de outros tempos na quietude do leito, ela também reconhece que ele beija melhor mas tem saudades do primo de outrora, a garganta não cheirava a buraco de esgoto e conseguia saber quando ele havia roído pastilhas Gorila.

Cinco irmãos


Nos primeiros tempos em Portugal não havia Internet por não haver sido criada, nem televisão.
A família ficava na mesa depois do jantar, um breve interlúdio para lavar a louça e arrumar a cozinha e fazia-se tempo antes de dormir, as conversas teciam-se enquanto se jogava ao dominó a pontos ou às cartas, principalmente a Bisca e o Sete-e-meio. Quando o cansaço fazia os corpos pesarem sobre o chão de soalho bebia-se um chocolate quente ou um sumo Tang e duma porta de armário desencantava-se algo de guloso para animar os espíritos, uns biscoitos de manteiga ou uns beijinhos das Caldas. Como cenário, o rádio, a música, os jingles, os discos pedidos, a voz cavernosa de um padre nas mudança da hora.
Nos primeiros tempos não havia Internet nem televisão.
Falávamos uns com os outros.

transitório

Sempre estive aqui, o sempre da eternidade compreendida entre duas caganitas episódicas de mosca, ouço vozes antigas e sábias que me incitam a procurar argumentos e reflexões sobre a vida das pessoas e das civilizações num pomposo exercício de inutilidade, sempre estive aqui julgando que tudo passava por mim, do estertor de uma estrela a milhões de anos-luz ao catarro do Sumo-Pontífice. E passava. Como a cerveja que se bebe deliciado julgando que contém a génese e a explicação do universo e se guarda um pouco na bexiga antes de a comunicar ao mundo. Os sistemas filosóficos e as certezas teológicas cheiram a urinol de bar.

Epílogo

"Tu és puro" - reconheceu ela, quase-murmurando na sala de visitas da prisão - "Tens a pureza da maldade, és como uma espada concebida para se banhar em sangue, forjada com ferro meteórico caído da escuridão dos céus. Tu és puro, e devias viver na pureza dos desertos gelados como um corvo negro aureolado pelo Sol da meia-noite".

completar

Andava pela casa como num terreno minado, lendo e escrevendo Post-it's que registavam cada contorno, cada detalhe, cada memória, por vezes estudava-os, ajuizando da sua relevância, reescrevia alguns, eliminava outros que achava desactualizados. Quando saía à rua, levava um bloco de Post-it's e um fio de Ariadne preso ao cinto das calças, um dia, alguém seguiu-o no regresso, alguém que entrou em sua casa, mas não fez caso do lugar onde escondia o dinheiro ou o relógio de ouro maciço, alguém que teve voz e presença para repor alguns Post-it's perdidos, que lhe ensinou qual era o seu nome completo, explicando-lhe que era seu filho.

vida suspensa

(por vezes a memória recente parece-nos um daguerrótipo, as coisas coisaram há tão pouco tempo e já ganharam o tom sépia das fotos de cantos colados dos velhos álbuns, não importa se as imagens se traduzem por jpeg's ou por número de fotos do rolo, são novas e senis, nado-velhas, parece-nos que ainda agora as tinhamos por perto e parecem tão gastas como se merecessem um pequeno espaço num expositor de fósseis)

Perdidos

Uma lâmpada numa praia deserta, ele esfrega-a e aparece um génio - "Sou o Génio da Lâmpada! Por me teres libertado, concedo-te três desejos!".
- Quero um bilhete para o Festival Oeiras Live! - zás, um bilhete.
- Outro para o de Paredes de Coura! - zás, outro bilhete
- E outro para o Festival do Sudoeste! - zás, mais um bilhete.
O Génio desaparece, o homem esfarrapado, segurando a lâmpada e os três bilhetes, corre para a floresta a gritar:
- Sexta-Feira! Sexta-Feira! Precisamos de encontrar um transporte!

kapok

esta manhã adormeceu julgando que a ouvia, acariciando-a na maciez desnuda de um sonho.

acordou, com flocos de sumaúma pairando no ar.

Asados

Um amigo verdadeiro, enquanto somos vivos, dá-nos asas para voar. Quando morremos, segura-nos na asa do caixão.

Sem título

O músico de Jazz escreveu um livro, viu-o e reviu-o, corrigiu a ortografia e a sintaxe, escreveu uma dedicatória, mas não conseguiu decidir-se quanto ao título. Era uma autobiografia, a sua vida prosseguia, o título não aparecia, e continuava a escrever adendas ao texto original. Por fim, os editores decidiram publicá-lo e, sem mais debates, intitularam-no: "Aqui Jazz !".

Francisco de Assis

"Bom dia, irmão Sol, como estás forte hoje. Bom dia, irmã borboleta, e também para ti, irmã pulga. Olhem quem está aqui, o nosso irmão lobo, estás magro, o teu corpo parece um caniço seco. Ai !! Mordeste-me a mão, irmão lobo, eu só te queria dar uns trevos para mastigares, devo-te ensinar um ditado dos nossos irmãos humanos: não se morde a mão que nos dá de comer. Ui !! Agora mordeste-me o pé, mas já não tenho nenhum reparo a fazer, não consigo comer nem dar de comer com o pé, a não ser a ti, irmão lobo. Olha, agora vem aí uma matilha de irmãos teus, e tão escanzelados como tu. Acho que a pé-coxinho não consigo chegar à cidade primeiro que vocês, irmão lobo, mas talvez me consiga colocar no meio daquele rebanho de ovelhas. Somos todos criaturas de Deus, mas a carne delas é melhor para vocês, porque tem menos calorias e lipoproteínas do que a minha".

Nova Era

Quando os sentidos são apurados, abrem-se janelas à nossa volta, abertas de par em par, o voo de uma mosca varejeira ou uma folha amarelecendo no jardim não são apenas isso, entram em nós revestidos de múltiplos significados e naturezas, a folha precisando talvez de um pouco de brisa para entrar pela janela, a mosca de um pouco de sorte nossa para ela descrever o sentido contrário.

pavlov


Há letras e musiquinhas que nos ficam no ouvido. Esta, do Tom Jobim, vem de longe, da banda sonora de uma novela, e ressoa como um grito magisterial: "Vou te contar / Os olhos já não podem ver / Coisas que só o coração pode entender / Fundamental é mesmo o amor / É impossível ser feliz sozinho".
Ouvindo rádio, descobri uma resposta a esta letra na voz de Marisa Monte. O tema é "Satisfeito", composto pela própria, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Transcrevo-a:

Você me deixou satisfeito
Nunca vi deixar alguém assim
Você me livrou do preconceito de partir
Agora me sinto feliz aqui

Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho?
Vivo tranquilo, a liberdade é quem me faz carinho
No meu caminho não tem pedras nem espinhos

Eu durmo sereno e acordo
Com o canto dos passarinhos
Eu durmo sereno e acordo
Com o canto dos passarinhos

a despropósito

Hoje é dia do vizinho, pre-texto, não falo mais do vizinho. Juro! Não falo! Não falo da chávena de arroz que se pede ao vizinho, do condómino que odiamos até ao tutano, nem do crime de sangue porque a abóbora do vizinho veio lançar as suas guias perversas para a nossa horta, não estou a falar de vizinhos, é bom ter vizinhos, gente boa na vizinhança, de preferência, que haja uma mulher boa na casa ao lado que se dispa sem fechar os estores do quarto e venha para a rua em camisa de dormir para chamar o gato, mas não, isso são devaneios de celibatário ou presidiário, os vizinhos vieram de Marte para acabar com a nossa raça, são sementes de abóbora inteligente que assumiram forma humana, sorrisentes seguidores de Satã que só esperam a hora de nos degolar em missa negra, propagadores de sífilis e lepra, cagadores de relíquias e lugares sagrados. Não estou a falar de vizinhos, nem jurei em falso. Juro! Estou a falar de coisas dos outros. Não tem vizinhos, quem se sente só no mundo.

obituário

A sua primeira vez foi com uma mulher mais velha, novidade nenhuma, um adolescente tenro e uma mulher casada que deixara já o Balzac duas esquinas atrás, ele fazia-lhe um ou dois recados, ela tirou-lhe os três, em tudo, tudo era novo, amou-a o mais que uma pessoa é capaz de amar outra, ela divertia-se com ele, era um jogo, um brinquedo de luxúria, ele só pensava em tê-la para si, só para si, sua companheira e sua guia, sua nascente poesia, ele não conseguia pensar que podia não ser assim, muito menos ouvi-lo, as palavras ficaram no segredo das paredes, caladas na cal e no cimento, apenas o som dos disparos passou e trespassou o concreto, ela tirou-lhe os três, ele tirou-lhe a vida, três cruzes numa necrologia de jornal.

silhueta

Era madrileno de nascença, e sem afectações nem vaidades.
Lhano e Castelhano

receita

Para vincar e consolidar uma separação, é prudente virar tudo do avesso, desafectarmos o que antes nos apaixonava, criar urtigas e cactos nos canteiros de ternura, em suma, fazer do coração, tripas.

germes

Os pais da pequena Fábia haviam-se separado. Apanhada no meio de um mundo em ruptura, sentiu-se um pouco à deriva. O pai era um madraço, não gostava de trabalhar, só trabalhava em última instância e quase tudo o que ganhava era para gastar em cervejas e tabaco. Recusava-se a pagar a pensão de alimentos da filha que o juiz estipulara, e já por duas vezes fora levado a tribunal para o fazer, mas continuava a baldar-se. Em resposta, a mãe tinha de trabalhar dobrado, tinha o trabalho na fábrica em regime de turnos e, depois dele, fazia horas numa e noutra casa a fazer limpezas. Chegava a fazer três turnos seguidos, dormindo mal ou onde calhava, antes de pegar novamente no batente. No meio daquilo, a Fábia ficava um pouco esquecida. Por vezes, quando chegava da Escola, a mãe estava deitada sobre um sofá, extenuada, com dores no corpo todo e a cheirar a lixívia ou a emulsões industriais. A filha deixava-a descansar, e com a precoce maturidade dos seus onze anos, fazia comida para as duas. Numa tarde em que chegou a casa e a encontrou vazia, foi à cozinha para lanchar, mas não encontrou nada que pudesse comer. Espreitou o mealheiro, mas também não tinha nada. E a fome apertava. Lembrou-se que, perto da sua casa, havia um contentor do lixo. Por vezes, o tractor da Quinta deixava aí caixas com maçãs e pêras. Era fruta boa, mas não se vendia, e eles deitavam-na fora. Foi até lá num pulo, mas não viu nenhuma caixa de fruta. Abriu a tampa plástica e empoleirou-se sobre o interior. Enquanto estudava o conteúdo, ouviu o barulho de uma mota e uma sonoro grito. Quando deu por ela, o pai estava junto a si, arrancou-a do contentor e pousou-a no chão, apertando-lhe com força os pulsos. Os seus olhos metiam medo, dois lumes numa cara suja.
-Vai para casa! - ordenou - e diz à maluca da tua mãe, que não te deixe mexer no lixo sem te calçar umas luvas!

réplica

O grupo de peregrinos caminhava ao lado do alcatrão quando um peso d'água tremendo os forçou a abrigar-se no alpendre de uma paragem de autocarros. Mesmo com os oleados amarelos, os bonés e os chapéus de chuva, ficaram encharcados da cabeça aos pés. O carro de apoio, uma carrinha de nove lugares, estacionou ao lado do alpendre e o motorista, pai de uma jovem do grupo, abriu o vidro e inquiriu:
- Querem que vos leve a algum lugar, para se enxugarem antes de retomar o caminho?
A filha, melindrada pela pergunta, respondeu com maus modos:
- Não seríamos peregrinos se fossemos a Fátima à boleia...
O pai acusou o toque e percebeu o embaraço dela. Mas deu-lhe o troco:
- Não andaríamos por aqui a penar, se fossemos filhos de Deus.

advertência

Possuía inúmeros amigos, família próxima e por perto, um emprego light onde lhe era tolerado conversar com os colegas, ao telemóvel falava ou sms'ava com milhentas pessoas e, na web, usava regularmente fóruns, o Skipe, o Messenger. Ainda assim, padecia de um acentuado défice de comunicação. Coagido pela União Europeia a reduzir o défice, viu-se forçado a sair à rua, recitando textos em voz alta e esgrimindo argumentos com as pedras da calçada e com os prédios que eclipsavam o Sol.
Seja benévolo quando encontrar uma pessoa assim.

Vozes

A águia borbolha, cachoa, chapinha, chia, murmura, rufa, rumoreja, trapeja, crocita, grasna, grita, pia.

O cão acua, aule, balsa, cainha, cuinca, esganiça, gane, ganiza, ladra, late, matica, ronca, ronrona, rosna, uiva, ulula.

A cigarra canta, chia, chichia, cicia, cigarreia, estridula, estrila, rechina, zine, zizia, zune.

A mosca zine, zoa, zumbe, zune, zumba, zizia, zonzoneia, sussurra, azoina.

O passarinho apita, assobia, canta, chalra, chichia, chalreia, chia, chilra, chilreia, chirreia, dobra, estribilha, galra, galreia, garre, garrula, gazeia, gazila, gazilha, gorjeia, graniza, grita, modula, palra, papia, pia, pipia, pipila, pipita, ralha, redobra, regorjeia, soa, suspira, taralha, tine, tintina, tintine, tintla, tintila, trila, trina, ulula.

O homem cala-se.

(mirado no Michaelis, Dicionário da Língua Portuguesa)

via mística

Um Deus absconso e velado, vivendo em reservas - um muro dos visigodos esconde-o dos fiéis, como as paredes de um templo ou a capa gasta de um livro tido como sagrado que só alguns eleitos podem manusear, uma ara sagrada num recanto secreto da floresta ou um livro em latim para a nata erudita. Um Deus absconso e obscuro, cheirando a mofo e a velas, efígie descorada de um panteão de abadia.

Se não houver um santuário dentro de cada uma das pessoas, uma centelha luminosa no meio de entranhas e vísceras pegajosas, então tudo isso é inútil, as Igrejas são clubes do absurdo e os objectos sagrados são itens de catálogo para alfarrabistas e museus.

plus ultra

(Vivemos, sentimos e criamos muito abaixo das nossa capacidade real. Por inanição e comodismo, desistimos dos nossos ideais e quimeras e vivemos aquém, tolhidos e limitados, culpabilizando amargamente o Outro - as potestades do Céu e do Inferno, a globalização e a Economia, o Karma e o Destino)

o que desejar

Os adultos exercem um uso supérfluo e pleonástico das palavras, aprenderam-nas, logo, têm de as expelir em hemorragia incontrolável. Longe desses excessos, as crianças possuem uma sábia frugalidade. O seu filho, que nem três anos tinha, elaborou um pedido abrangente: "Qué 'ma côsa!". Quando ele pedia "uma coisa", essa coisa compreendia tudo o que lhe pudesse causar alegria: um brinquedo, uma goma, ver um filme de animação, jogar à bola, ir até ao parque deslizar no escorrega e ver os patos ou ir brincar com os primos.
Como também se aprende com os filhos, não tardou a aperceber-se das vantagens de se economizar palavras. Num Sábado, em que levou a família a visitar as grutas calcárias da Serra dos Candeeiros, o guia mostrou-lhes um pequeno lago iluminado no seio da montanha e explicou-lhes que era tradição as pessoas deitarem uma moeda à água e formularem um desejo. A mulher insistiu para que ele o fizesse, e enquanto procurava uma moeda ocorreu-lhe uma parafernália de itens a pedir: saúde para si e para os seus, o Sporting campeão em 2008, o Euromilhões, uma bolsa de estudo para a Universidade do filho, um novo projecto, um livro novo, uma velha música, reencontrar um amigo de sempre, partilhar uma ideia em gestação, comprar roupas para a Estação...Mas quando se viu com a moeda entre os dedos, limitou-se a atirá-la ao lago e pronunciar com voz audível: "Qué uma côsa!".

Guinness

*

João Anísio, decidiu entrar para o Livro dos Recoordess como o homem do planeta com as sobrancelhas maiores. Durante trinta e quatro anos, abdicou de as aparar, cortar ou rapar. Deixou-as crescer livremente. Ao fim de vinte anos, viu-se forçado a puxá-las para o alto da cabeça e, durante um tempo, enrolou-as em tranças que prendia por detrás das orelhas, mas desistiu do processo quando se viu amiúde rodeado de rastas a cantar e tocar guitarra, e passou a usá-las como antes, penteadas sobre a calva. João Anísio mantém-se no Guinness, mesmo depois das suas sobrancelhas terem sido ceifadas por um carro quando atravessava uma rua num dia de vento.

*

Maria João pretendeu entrar para o Livro dos Recordes por ter permanecido trinta e seis horas seguidas à espera de ser atendida numa Conservatória do Registo Predial, mas a candidatura foi considerada inferior ao recorde estabelecido, que se registou num Centro de Saúde em território português.

*

Manuel Silva propôs-se pelo número de horas ininterruptas a ver televisão: duzentas e setenta e seis horas. Os juízes que monitorizaram a experiência documentaram que, ao fim de tantas horas de televisão, a actividade cerebral de Manuel Silva era equivalente à de uma couve lombarda.

"The" Guiness Book

Pactrick O'Shea, de Dublin, entrou para o Guinness pelo número sucessivo de cervejas Guiness que conseguiu beber enquanto lia o Livro, a Bíblia. Contabilizou cento e trinta e quatro, sem verter águas. Em Isaías, 14, teve de ingerir amendoins e pistácios para consolidar o estômago, na Segunda Carta aos Coríntios teve um sonoro arroto que ia deitando tudo a perder, mas aguentou quase até ao final: em Apocalipse, 13, a contagem cessou quando sofreu uma convulsão apocalítpica na bexiga, estômago e intestinos.

Preparos

Na hora de compor o corpo para o funeral, lavou meticulosamente o corpo e vestiu-o com o fato cerimonial, deitando as roupas usadas para o lixo. Antes de o fazer, revistou os bolsos e encontrou um maço de tabaco. Uma descoberta tão trivial incomodou-o pelo seu denso sentido profético. O defunto tinha noventa e três anos, e o invólucro do maço ostentava a afirmação sibilina: "Os Fumadores Morrem Prematuramente".

Ensaio

(Lago Titicaca, Peru-Bolívia)



Com os dias de Verão ao virar da esquina, começou a sua peregrinação pelas Agências de Viagem para recolher catálogos, e prospectos sobre ofertas promocionais. Entretanto, para reduzir a ansiedade, viajava no Google Earth para os destinos sonhados, uma viagem que não a satisfazia. Devido a problemas de câmbio e limitações de bagagem, nunca conseguia trazer desses destinos, os souvenirs que pretendia.

círculo virtuoso

Vivemos com as causas e as ideias dos nossos pais até percebermos que elas não são nossas, que se agitam e se consomem nas antípodas do nosso espírito. Depois, pacientemente, elaboramos as nossas próprias ideias e causas que, um dia, iremos administrar aos nossos filhos com o leite e a papa.

Como antes

Cansou-se da Web. Renunciou ao e-mail, ao e-commerce, e-news, e-business, aos e-books e à e-stupidez. Agora, usava o Modem como pisa-papéis, e cultivava frases e gerúndios com uma caneta Bic Cristal em folhas de papel reciclado.

sem abrigo

Uma casa em ruínas emaranhada em hera e silvas, um quintal abandonado e, ao fundo, num muro que já esteve caiado de branco, uma porta de chapa. Abriu a porta e encontrou outro quintal abandonado com uma outra casa em ruínas por detrás da qual sentia o apelo de uma nova porta de chapa à espera que a abrisse. Andava há anos nisso, ruínas sucessivas e portas para lugar nenhum que atravessava na esperança de encontrar algum sinal de vida.

(descrição de um sonho)

Lições da História:

1

Móbil da Guerra do Golfo:

"É um dever da comunidade internacional, levar a liberdade ao oprimido petróleo do Iraque"

2

Divisa da Revolução Francesa:

"Liberté, Egalité, Guillotiné"

duplo labor

Consegue-se guardar o sofrimento, escondê-lo, refundi-lo, mas não se consegue esconder a paixão. O sofrimento adequa-se aos recessos dos abismos, aos quartos escuros onde se debate, às fissuras e cavernas fundas. A paixão é-nos rebelde, volátil, vida eruptiva. Se não a trairmos pelos nossos gestos e palavras, ela assoma nos nossos olhos e amanhece.

dupla pessoa

deveríamos ter duas almas, ou uma alma em dois corpos distintos,


uma real, contigente, que precisasse de executar o mais árduo dos trabalhos para ter um pouco de ócio e vão repouso, essa que tem os olhos vazios por nada ver, que tem depressões e confusões, que precisava de dormir dez horas por dia e mesmo assim se sentiria sempre cansada, que paga impostos e coimas e vota em pessoas e causas que se estão a cagar para ela,


outra, a nossa alma fina e ladina, anárquica e adâmica, em que cada passo fosse sempre inédito e primordial, que não precisasse de dormir ou de férias burguesas, que usufruísse do seu tempo como quem bebe uma bebida de um só trago, que viajasse onde os seus caprichos a levassem, que vivesse amando as palavras e descobrindo a arte e o sonho, que alimentasse a amizade sem nada a disputar ou exigir a sua partida.


de tempos a tempos, as duas almas se fundiriam numa só, e a segunda inundaria a primeira de sabedoria e experiências que lhe estavam vedadas ou distantes, restabelecendo o equilíbrio e a carência de sonho, a alisar as pregas das suas rugas e colocando na vertical a sua coluna dobrada pelo peso do mundo

perdidas

a felicidade,
para vir ao nosso encontro, caminha com pés de gesso, que se desfazem a cada passo,
para nos abandonar, é leve e veloz como um falcão

Inti

um condor plana sobre os nevados cumes andinos, uma família Aimará segue as suas evoluções no céu vítreo, evocando com um canto místico o condor divino do mito de criação que ergueu os cumes dos montes nas suas garras, afastando o céu e permitindo que os primeiros homens tivessem luz, e ar para respirar. Aquele condor passa novamente sobre eles como se respondesse ao cântico, e depois procura um cume próximo onde avistara uma criança magra perdida no gelo, esperando o momento de se banquetear com a sua carcaça.

genéricos e marcas


Temos mais hipóteses, se formos uma pessoa genérica em vez de uma pessoa marcada.

neoromantismo


lá fora o som do vento tem uma pauta estranha de notas trémulas escritas por espectros inquietos e torturados

mata-ratos

O marido era impossível, bêbedo, devasso, cruel, violento. Planeou matá-lo, com a ajuda da filha casada. A filha comprou veneno mata-ratos numa drogaria da cidade, mas ela tinha dúvidas. Ele podia dar pelo sabor e deitar tudo a perder. Resolveu fazer um ensaio. Numa noite em que ele curtia uma bebedeira, deu-lhe ao jantar uma comida muito condimentada com uma porção minúscula de veneno. O desgraçado ficou virado do avesso, diarreia, vómitos, espasmos, mas não acusou o sabor, era do grau, julgava. Preparou-lhe então o golpe de misericórdia. Um panelão de feijoada em cima do fogão para o jantar de Sexta, com o pacote de veneno dissolvido. Costumava ser o dia do coma alcoólico. Ela arranjou maneira de não estar por lá, e foi para casa da filha passar o fim-de-semana. Só voltou na Segunda, a polícia estava à porta. Alguém descobrira o corpo, fiou-se. Entrou em casa e deu de caras com o marido, vivo e em pé diante da lareira. Ele acenou-lhe com a embalagem vazia de veneno e cumprimentou-a: "Miau!".

confissão

«Sou um subvivente»

Ninguém

Os cobardes que se escondem no anonimato convencem-se de que derrotam cíclopes enquanto lhes sugam o sangue como uma pulguita entre os dedos fétidos dos pés. Ocultam-se nas trevas e vomitam. Noutro dia, passarão ali sob a luz do Sol, e condenarão com asco a cobardia de quem emporcalhou o mundo. Urdem, maquinam, envenenam, ferem. Não querem ter nome, porque não têm ser, não dão a cara porque ninguém a consegue ver enquanto chafurdam em calúnias e insultos.

preguiça Zen

O nada também é absoluto, não pensar em nada é uma forma diferente de pensar em tudo.

triuno

«And what have you got at the end of the day? / What have you got to take away? / A bottle of whisky and a new set of lies / Blinds on the window and a pain behind the eyes» (Dire Straits, Private Investigations)
*
Cansamo-nos, dos burburinhos e redemoinhos, das manchetes e dos proxenetas das manchetes, cansamo-nos do cansaço, o mundo personificado é um parente próximo que gostaríamos de ver longe, uma sanguessuga que nos apanhou a chapinhar alegremente em pauis infectos, talvez um uísque atenue a coisa, com duas pedras de gelo, para derreter o cansaço, talvez com os estores corridos em pleno dia e o candeeiro de halogéneo a fazer as vezes do Sol, fazemos girar as pedras como planetas frios ou icebergues apanhados num turbilhão, e temos de ter uma música qualquer, estupidamente anacrónica e nossa, e a televisão ligada, mesmo sem som, para termos notícias do planeta distante que se afunda na distância wiscosa.
*
Conseguiriamos perceber melhor o mundo que nos cerca, se o Génesis que nos foi inculcado, não fosse o do Antigo Testamento, mas o mito de Criação dos Songos de Angola, que recordo de memória de um livro de Maria Lamas: no princípio, tudo estava contido dentro do grande deus Bumba-Chembé, um dia Bumba-Chembé sentiu-se mal e vomitou tudo cá para fora, as estrelas e o Sol, o mundo e todas as suas criaturas.
Piuuc. Tudo é vómito.
E, ao sétimo dia, deus bebeu um chá.

negociata


"Unhas, cabelos e chifres, têm o mesmo cheiro quando são queimados", dizia-me o aprendiz de mago, como se me estivesse a iniciar num conhecimento supremo, "não é absurdo que essas coisas se transmudem umas nas outras, ou que se alcancem umas, sacrificando outras", demasiado Senhor dos Anéis, pensei, aquele do celulóide com monstruos que nos fazem vomitar a bola digestiva de há três refeições atrás, mas cabelos? Chifres? "Para agradar ao grande Bode, podem-se queimar unhas e pedir um favor ou acção de poder", Bode/chifres+unhas, a equação estava quase completa..."assim, posso queimar unhas se lhe quiser pedir que me faça crescer uma farta cabeleira". Pronto, charada achada, mais um careca com complexos.

Dar manteiga

- Acredita no que te digo, não é por não ter apetecer ou não estares para aí virada, mas sou permanentemente apaixonado por ti, amo-te mesmo quando te tenho longe, vives na memória da minha pele e dos meus lábios, esteja eu a trabalhar ou sentado no comboio no regresso a casa.
- Não me digas...
- É verdade. Sinto coruscar no meu íntimo pequeníssimos detalhes e afectos, como sentir o cheiro da tua pele enquanto dormes, a carícia dos teus cabelos quando te beijo a nuca, o som doce da tua voz no telémovel quando te ligo na hora de almoço. Vives em mim enquanto cruzo desertos hostis pejados de estranhos.
- Tudo bem, acredito em ti, mas não precisas de dar mais manteiga, porque hoje não vamos dançar o Último Tango em Paris.

uma poetisa

(Inebriava-a as coisas simples, os objectos, as cores, os sons, a presença das pessoas, memórias frias, intuições e sensações nefelibáticas, inebriava-a as palavras, as notas que as palavras soltam e que eram como música para o seu palato, intoxicava-se de coisas vagas e de nada, escrevendo com a mão trémula como se estivesse tomada de um delirium "fremens").

País dos Rodinhas 2


Comprou um carro velho, mesmo velho, um autêntico chasso, e decidiu transformá-lo com as artes mágicas do tuning. Pintura metalizada cor de bronze, com um dragão de prata pintado no capot cujas asas vermelhas se abriam para os dois lados do chassis sobre as saias laterais, portas com Lambo Door, luz estroboscópia inferior para conectar ao sistema de som, faróis com projector montados sobre painéis metalizados, pára-choques dianteiro com um spoiler com aberturas transversais para saída de ar, e atrás, um extractor desportivo, rodas de liga leve de quinze polegadas, aerofólio vermelho fluorescente de 60 léds, e aeroflaps de prata.
Para se sentir realizado, apenas lhe faltava um pequeno detalhe: um motor.

Descobrimentos

O navegador globetrotter aportou às Ilhas Lucaias e levantou o seu Padrão dos Descobrimentos numa praia de areias brancas, reclamando a terra e todos os povos para Deus e a Coroa. Não satisfeito, rumou a sul no seu galeão e descobriu outras terras, Cuba, Ilha Hispaniola, Guatemala, Ilha de Trindade, Golfo de Pária. Em todas estas terras, levantou outros tantos Padrões dos Descobrimentos, reclamando-as para o seu Deus e a sua Coroa. Seis anos depois de iniciar viagem, regressou a casa, e na sua cama viu um ameríndio com a sua mulher, cravando o totem para a reclamar em nome do grande cacique Huliba e dos trezentos e oitenta deuses da nação Arawak.

no País dos Rodinhas

"A 200 Kms à hora, não tens amigos"
A 40 Kms/hora, em hora de ponta, ganhas inimigos mortais.

Paula


Costumava dizer-te a brincar, que olhavas para mim como uma serpente fixa um passarito antes de o devorar. Como era ingénuo! Olhavas para mim como a ave ossuda que acabaras de vomitar por repugnar ao teu ventre. Levei muito tempo para conseguir voar dali.

vaidade

(julgavas que os teus sonhos e as tuas palavras te iam sobreviver, que tudo seria mais fácil se eles vivessem sempre contigo e ainda existissem mesmo depois de desapareceres, só muito tarde descobriste que eles nunca chegaram a existir, que os graníticos templos de esperança, não eram mais do que um anónimo chão de Outono atapetado de folhas secas e mortas).

o meu reino

entre mim e o mundo existe uma permanente assimetria, matemática, pitagórica, abstrusa, não é dos senos e co-senos, bissectrizes e directrizes, muito menos das favas, que estas não dão a imortalidade mas são boas para gasear, a assimetria é como a folha colorida dos meus trabalhos da Primária, dum lado, tinta fresca, colorida, dobrava-se a folha, e a simetria ressurgia do outro lado, ainda sangrando de cores pingadas do arco-íris, mas não resultava nunca, descobria sempre diferenças, borrões, torrões de terra no asfalto plano da auto-estrada, o menino não sabe fazer bem, ou não vê bem, os dois lados são iguais, menino mau, aposta que espreita a mana quando está com o namorado e que faz coisas más com o pau do mijo, não, senhora professora, os dois lados não são iguais, são assimétricos, como as suas sobrancelhas, dum lado um risco fino, do outro um risco grosso de marcador, e as suas pernas, uma não tem pelos, a outra parece um tapete persa. São iguais! É tudo igual, espelhado, as cores, você e o mundo, as minhas duas pernas, o Sol e a Lua, os tomates do contínuo, ouviu bem? Criança estúpida! Entre mim e o mundo existe uma permanente assimetria, de cores e de sombras, dobro-me sobre mim para imprimir as mesmas cores e o que resulta é frustrante, como se não fosse este mundo, aquele que se espelha em mim.

viagem

Viajamos por nossa conta e risco, trazemos na bagagem os nossos pequenos tesouros e o remoedouro das muitas tristezas e malogros. Arrastamos tudo isso connosco, e são essas coisas que ditam o curso da nossa viagem.

fim da viagem

Novamente o comboio. Parado na linha, no meio da noite. Nenhum dos passageiros tem noção de onde está, e todos olham confusos para as janelas e paredes da carruagem como se elas não devessem estar intactas. Todos se sentem um pouco perdidos. Esperando sem temor, como Porquinhos-da-Índia numa gaiola, que alguém lhes diga que podem desocupar o mundo dos vivos.

enlevo

Ela é bonita, um rosto sardento com covinhas, e longos cabelos incendiados de ruivo. Fuma demoradamente um cigarro com os cotovelos apoiados no muro baixo. Debaixo dela, agachado, para lhe servir de assento, o talvez namorado ou talvez amigo, ostenta uma expressão sorridente e patética, respondendo às suas palavras de forma entontecida e viva.

De contrafacção

Soam estranhas as palavras que traem o silêncio que gostariam de dissimular.

citando

"Eu não nasci feliz. Em criança, a minha frase favorita era a seguinte: «Cansado do mundo e carregado com a minha culpa». Aos cinco anos, reflecti que se vivesse até aos setenta tinha suportado apenas a décima quarta parte da minha vida inteira e senti então que o interminável aborrecimento que havia diante de mim ser-me-ia quase intolerável. Na adolescência, odiava a vida e estava continuamente à beira do suicídio, de que no entanto me salvei devido ao desejo de me aperfeiçoar em matemáticas. Agora, pelo contrário, amo a vida; poderia quase dizer que cada ano que passa a amo mais. Isso deve-se em parte ao facto de ter descoberto as coisas que mais desejava e de ter alcançado muitas delas a pouco e pouco, em parte também por ter afastado de mim, felizmente, certos objectos de desejo, essencialmente inacessíveis, tais como a aquisição de um conhecimento absoluto num ou noutro campo, mas principalmente por me preocupar menos com a minha própria pessoa".


(Bertrand Russell, "A Conquista da Felicidade", Guimarães Editores, Lisboa. O itálico é nosso)

Corleone

"Vou fazer-te uma proposta que não podes recusar - disse-lhe o mafioso - ou fazes negócio connosco, ou corto-te a cabeça do cavalo e ficas a cantar com voz de Soprano".

orante

O sacerdote não tinha grandes motivos para se sentir satisfeito, tinham-no colocado numa paróquia no cu de Judas, uma terra pobre do interior, de gente rude a viver em casais e lugarejos dispersos. Em vez de boas estradas, tinha caminhos de cabras, e não parecia haver planuras, aquela terra fora concebida pelo Criador numa noite de sobressaltos e pesadelo, era quase sempre a subir ou descer nas abas de vales cavados. Quando lhe disseram que era tradição rezar-se missa nas diversas capelas dispersas pela paróquia, ficou descoroçoado de todo. Nem no fulgor dos seus trinta anos conseguiria vencer, todos os dias, aqueles caminhos íngremes na sua bicicleta-pasteleira.
Desabafou com o pároco cessante e este confidenciou-lhe o modo como resolvera o problema. Dera como desaparecida uma obra de arte sacra da igreja matriz, e vendera-a em Lisboa, adquirindo, com o produto da venda, o seu automóvel destinado ao serviço de Deus. Podia indicar-lhe a quem a vendera e até escrever-lhe uma carta que ele entregaria pessoalmente num envelope lacrado. E ainda havia mais obras de arte sacra para vender? Perguntou-lhe. Não de todo, pelo menos, que se lembrasse, já não havia imagens nem quadros de valor. As imagens que aí havia, tinham sido compradas pelos paroquianos aos santeiros de Braga para substituir as que tinham desaparecido, mas não tinham grande valor, eram modernas e não eram de pedra ou madeira, mas de uma pasta resinosa e industrial. Mas era uma questão a analisar.
O pároco agradeceu a sugestão e passou em revista o acervo da igreja matriz e das capelas, e não encontrou, realmente, nada de valor. Não poderia extrair painéis de azulejo ou lavores manuelinos na pedra. A solução passava pela factor quantitativo. Se uma boa imagem sacra podia dar para parte ou para a totalidade do valor de uma viatura, para ter a mesma importância, teria que dar como desaparecidas mais imagens de menor valor unitário.
Arquitectou o golpe. Um primo dele trouxe uma carrinha a coberto da noite, onde os dois enfiaram todas as imagens da igreja-matriz. No dia seguinte, os párocos receberam a notícia do furto com grande consternação. Já não havia respeito, nem sequer por Deus e os anjos. E logo se mobilizaram para se fazer colectas e peditórios para reparar o dano. Enquanto isso, o pároco ausentou-se, para pressionar a polícia para encontrar os culpados, justificou.
Na capital, foi na carrinha do primo visitar o negociante de antiguidades. Disse-lhe à boca pequena ao que vinha e mostrou-lhe a carta de referências que trazia. Este leu-a com um ar grave e mostrou-se disponível para ajudar. Gostava de ajudar os emissários de Deus porque, assim, se ajudava a si mesmo. Levaram-no até à carrinha mas, mal viu a mercadoria, torceu o nariz.
-Isto não é arte - explicou - Antigamente, traziam-me peças fabulosas, retábulos, cálices e custódias, imagens quinhentistas em pedra de Ançã, paramentos com fio de ouro. Isto foi o que ficou quando a arte se perdeu. Mas tenho o dever sagrado de ajudá-lo, e vou fazê-lo. Mas devo já preveni-lo de que o dinheiro não vai servir para grande coisa. Conseguirá comprar com ele um jogo de pneus para carro, ou, no máximo, uma daquelas limusinas com que o Joaquim Agostinho corria no Tour de France.


(estória que me foi narrada como autêntica, numa tarde de Julho, numa loja de antiguidades da vila de Óbidos)

Perdidos

A queda do avião isolou-os naquela ilha, sete homens e uma mulher num rochedo sem vida. Eram sete cães a um osso. Mais rigorosamente, era para cima de cento e cinquenta ossos - perderam-se nas contas enquanto a comiam.

Alerta de Segurança

Moisés era um simples pastor, habituado a mungir tetas e à pasmaceira de mirar o rebanho. Quando, no monte Horeb, uma voz saída da sarça ardente lhe começou a ditar os Dez Mandamentos, viu-se em apuros para os gravar na pedra, de maço e cinzel em punho, ora martelando o cinzel, ora os dedos, com a língua ao canto do lábio por causa dos erros ortográficos, que tinha de apagar para recomeçar de novo, os braços doridos pelo esforço inaudito. E eram dez, os mandamentos. Não faziam por menos. Já esgotado ao fim do terceiro, lembrou-se de um subterfúgio e, virando-se para a sarça que ainda ardia, observou: "Não foi possível verificar o editor. Tem a certeza de que pretende continuar?"

Elegia

"Era uma mulher como há poucas, filha dedicada, mãe exemplar, esposa amantíssima, rodeada de inúmeros amigos, a quem ajudava e ouvia em qualquer momento do seu tempo, com desprezo pelos seus próprios interesses e conforto. Era também, uma guerreira de muitas causas. Que o digam as suas acções e associações de caridade, a sua filiação em tudo o que fosse organizações humanitárias, e iniciativas pelo bem geral. A nossa filha, de que hoje nos despedimos, era, apesar da sua juventude, uma pessoa perfeitamente desintegrada na comunidade a que pertencia".

mundo real

Sentou-se numa cadeira vazia, numa sala de espera de uma estação de comboios de um país estranho. Enquanto estranhava a sala de espera, a estação e o país, vê entrar, como uma funesta aparição, uma mulher jovem, em tudo semelhante a qualquer jovem mulher à excepção da cabeleira de cobras vivas, e do seu terceiro seio, mais pequeno que os outros, mas nu e inflado com um mamilo róseo espetado. Tentou passar despercebido, fingir que não vira nada de invulgar, passeando a sua visão em vitral de mosca, pelas páginas do jornal. Sentiu então, junto a si, a presença da mulher, com as cobras a flagelarem o ar junto aos seus cabelos, e ouviu a sua voz, doce e leitosa: "Tente não dar nas vistas, para que não nos vejam. Somos, os dois, personagens ficcionais, seria mau de mais se interrompessemos o sono das pessoas".

rodovida

Tinha pressa, aliás, tinha sempre pressa e, como se fosse propositado, o carro estava bloqueado. Um filho-da-mãe encostara um carro ao pára-choques da frente, enquanto um micro-carro tinha o pára-choques quase a beijar a traseira. Olhou em volta, os donos das viaturas não pareciam estar por perto, só se fosse aquele tipo guedelhudo que lia à borla - e quanto podia - das páginas dos jornais do quiosque. Estudou-o melhor. Sapatilhas, e o terço inferior das calças de ganga amarrotado, como se elas tivessem sido dobradas quase até ao joelho - isso relacionava-o com a bicicleta encostada ao poste de iluminação. Suspeito descartado!Entrou no carro e ligou-o. O carro da frente tinha o alarme a piscar, por isso não podia estar a empurrá-lo à Lagardère, agora, o de trás, esse estava mesmo a pedi-las! Avançou o carro até senti-lo encostar à pele do da frente, volante todo rodado para a esquerda e encostou-o ao micro-carro, empurrando-o uns quatro palmos, em seguida, volante todo para a direita, e mais um encostar ao da frente. Olhou em volta, nenhum indício de alarme ou pânico, volante em sentido oposto, e desta vez, empurrou o pequenote até ele ficar de esguelha no estacionamento.Com gestos maquinais, endireitou a direcção e colocou-se no meio da faixa, experimentando o leitor de CD's do carro. Que porcaria de música que aquele carro tinha! Ninguém, mas mesmo ninguém, facilita a vida a um ladrão esforçado!

andando pela cidade

Placa preta, convenientemente preta, com letras douradas: "Agência Funerária N. - Armazém". Interrogo-me: Armazém de caixões ou de mortos?

tecnoraticamente

- Elas vêm e vão, assim como se vai e vem, por vezes ficam connosco durante algum tempo, outras são episódios fugazes e regressam episodicamente ao fim de quatro ou cinco anos. É tudo muito incerto e irregular.
- Está a falar de visitas ao seu blog?
- Não! De hemorróidas!

bio-grafias

As perguntas essenciais sobre nós, Deus e o Cosmos, são fúteis entretenimentos espirituais, pastilha elástica para tolos que se vai ruminando enquanto nos aproximamos do fim, do abismo sem sons e sem respostas, sem palavras e sem Deus.
*
O carinho não tem preço, dizem-me. Dizem-me também que a vida não tem preço. Palavras fáceis, de quem nunca teve de pagar por um poucochinho de carinho e uns quantos minutos de vida fingida.
*
Também eu, um dia, pretendi mudar o mundo. Mas desisti, logo que obtive o primeiro orçamento de uma transportadora.
*
Carrego com a culpa dos outros e com as minhas faltas ancestrais. Sempre que tentei contrariar esse determinismo e rebelar-me contra o peso desse fardo, caiu-me em cima o Karma e a Trindade.

solitude

tenho os olhos
cansados de ver e ler coisas
solenes e irreais, pousa
a tua mão fresca e macia sobre
os meus olhos
faz-me ver-te,
de novo

Uma estória recuperada

Mãe

“André!?”. André ficou sentado no seu cadeirão no sótão. A voz da mulher estava longe. Olhou pela janela as casas na encosta do monte, muito novas, muito iguais, enlevadas pela luz terna daquela manhã de Sábado. Continuou por ali, rodeado de caixas e mobílias velhas. Estava ali há horas, emburrado e sem vontade. Era sempre assim. Ia para algum lado, tentava fazer alguma coisa e ia ficando inerte, o sangue a refrear o seu curso até se converter em água e estagnar no pântano fétido do seu peito. Ficava a pensar em coisas ou a pensar sem pensar. O seu olhar sem alma divagava como o seu espírito. “André?” – a voz estava ainda mais longe. Sacudiu os braços que estavam a ficar dormentes e desapertou o botão superior da camisa. “André?” – sobressaltou-se. A voz agora estava diferente. Era a voz doce e longínqua da sua mãe, ouviu-a à volta e dentro de si – “Que fazes aqui, André?”. Estava encolhido na penumbra do quarto, sentado no tapete com a cabeça apoiada na porta do roupeiro. Escondia-se dos miúdos que lhe tinham batido. Ela pousou a sua mão no hematoma da testa, e aquele toque suave reanimou-o como se o tivesse curado. Sem perguntas nem sermões, ela abraçou-o com um longo suspiro de tristeza. Sentiu-se, de repente, muito calmo, protegido, aspirando o odor diáfano a laca dos seus cabelos. “Fizeste-nos muita falta, mãe!” – disse – “Nós nunca mais fomos os mesmos sem ti. Eras o nosso Sol e desapareceste. Arrumei a tua luz numa gaveta funda dentro de mim, e aprendi a ser cínico, a fingir e detestar, mas de cada vez que reencontro a tua memória, a dor volta como se as lágrimas estivessem presas por detrás dos meus olhos”. Tentou sufocar um soluço e sacudiu a cabeça. “Um dia o medo desaparece, vais ver” – retorquiu ela – “os teus amigos não sabem que não és medroso, és apenas bom e gentil. Quando eras mais pequeno, todos te queriam abraçar, tal era a ternura que inspiravas. A tua coragem vai ser feita de força interior e tenacidade, e não de punhos cerrados e brigas de recreio. Quando perceberes isso vais gostar mais de ti mesmo e o medo desaparece”. Ela ajudou-o a levantar-se e encaminhou-o até à pequena farmácia de parede, donde retirou o que precisava para lhe fazer o curativo. “Não sei, mãe. O mundo não precisa de seres gentis nem de sonhadores, precisa de nós como ferramentas ou componentes, usa-nos e gasta-nos. Consumimos a nossa vida a cumprir as tarefas que nos atribuem incessantemente, apenas no intuito oco de termos pão e conforto, enquanto a nossa energia e a nossa vitalidade se esvaem com os dias, como a água fértil da chuva perdendo-se no granito poroso e estéril. Eu sou apenas um fantasma do que fui e sonhei, sou um caco ou um destroço, não posso gostar de mim mesmo, mãe!”. Gemeu com o ardor da tintura de iodo, enquanto ela soprava sobre a ferida. “O que é que eu faço, mãe? Eles arreliam-me e batem-me...”. Ela afagou-lhe os cabelos grandes e suados. “Levanta-te, André, se te deitarem ao chão e te baterem, levanta-te. Estejas ileso ou a sangrar, calmo ou furioso, levanta-te sempre. A tua coragem é a tua força, fica de pé como uma torre ou um gigante, que a coragem intimida tanto como um murro bem dado. Aqueles que passarem a sentir respeito por ti, tornar-se-ão teus amigos, talvez para toda a vida”. Encostou-se para trás, tentando não sentir a ferida que ainda parecia latejar na sua testa, e reviu a crueldade nos olhos deles enquanto chorava depois de ter apanhado a surra.
Num repente, levantou-se do cadeirão e abandonou o sótão. No rés-do-chão rumou à sala, onde ouvia o rumor de vozes. Quando entrou, sentiu que o ar parecia ter-se tornado mais denso, como se todos os sons tivessem implodido num silêncio estelar. Ana, a esposa de André, havia-se levantado rapidamente, com os cabelos desalinhados e as faces afogueadas. Roger, o seu amigo de muitos anos, tentou exibir uma expressão casual, enquanto os dedos crispados da sua mão procuravam o copo de uísque que deixara pousado sobre o carrinho de chá.
- André – exclamou jovialmente – ia a passar na estrada e resolvi passar por cá para te cumprimentar. Procuramos-te por todo o lado e eu até fui aos anexos a ver se te via. Foi então que a tua cara-metade sugeriu que esperasse um pouco até voltares!
A mulher havia-se eclipsado, deixando-os a sós. André serviu-se também de uma bebida no balcão do bar, e encostou-se a este, bebericando em silêncio. As palavras pareciam-lhe fúteis. O nervosismo de Roger era cada vez mais evidente, entreolhando André e a porta da sala, como se procurasse um pretexto para fugir dali. A sua trémula angústia inspirava ainda mais calma a André, de repente, como se estivesse a acordar, apeteceu-lhe falar, falar muito, dizer coisas profundas e com significado, como se sentisse o ímpeto de dedilhar uma lira diante de uma cidade em chamas a recender a carne queimada.
- Sabes de uma coisa curiosa, amigo Roger, em tempos acreditei que nós nunca mudamos realmente, por mais modificações que se operassem no nosso mundo, no nosso íntimo éramos sempre os mesmos, apenas um pouco desfocados pelos sedimentos dos anos. De há uns tempos para cá a minha tendência é precisamente acreditar no oposto, nós só mantemos a forma fóssil e exterior que os outros procuram e reconhecem, por dentro já não somos nós, a vida esventrou-nos repetidas vezes e de variadas maneiras e esvaziou o nosso íntimo de tudo o que pudéssemos chamar de nosso, despojou-nos com a mesma precisão cirúrgica com que se limpa um frango ou um bicho.
- Não percebo... – balbuciou Roger.
- Vou-te dar dois exemplos. Por um lado, vivo nesta casa com a minha mulher, e quando se vive com um pessoa a sua presença entranha-se em nós, as nossas vidas circunscrevem os mesmos espaços reais e etéreos e até enquanto dormimos lado a lado os nossos sonhos insinuam-se no espírito um do outro. Perder isso é como sofrer a amputação de um membro ou a perda da vista. Todo o nosso ser se angustia e definha pelo que perdeu, no entanto, é uma perda dessas que eu decidi por bem enfrentar, sem recriminações nem lamentos. Por outro lado, temos o teu caso, Roger, uma pessoa que eu conheço de toda a vida, fomos amigos de infância e colegas de escola, hoje, no entanto, não te reconheço no estranho que vem a minha casa como um ladrão e anda a comer a minha mulher pelos cantos, emporcalhando como um verme nojento todos os lugares deste refúgio onde construí a minha vida e os meus sonhos. Podes continuar a vê-la, mas fora daqui, no meio das ervas como os animais, ou dentro de uma fossa com merda, que é o lugar a que pertences...
Roger, muito pálido, como se temesse pela vida, correu literalmente para fora de casa, seguido pelas risadas nervosas de André. Este ouviu o ronco do seu carro, que se afastava e sentou-se a saborear o resto da bebida. O silêncio voltou a imperar, um silêncio gelado de mausoléu, nalgum ponto daquela casa a sua mulher deveria estar na expectativa, respirando nervosamente como uma condenada. Depois de cismar durante longos minutos, André passou pela cozinha. Ana enxugava louça com um pano, aparentemente absorta na sua tarefa e no meio de tanto silêncio que dir-se-ia estar a afagar tecidos de seda. Em cima da mesa, estava a lancheira que ela lhe havia preparado para o trabalho. Pegou nela, e dirigiu-se para a saída, murmurando um “Até logo!” entredentes. “O que é queres para o jantar”, perguntou-lhe Ana com uma terrível voz de falsete, seguindo-o como se corresse atrás dele. André masquiu encolhendo os ombros, e entrou no carro. “Estou com tempo”, pensou, enquanto se afastava de casa. Mas não se dirigiu de imediato para o seu trabalho de fins-de-semana. Conduziu o carro sem destino pelos meandros da cidade, vendo as ruas e as esquinas sucederem-se umas às outras com uma plácida indiferença, tudo passava diante dos seus olhos como se por detrás deles não houvesse lampejo de viva alma, como se tivesse morrido e apenas perpetuasse gestos com uma fidelidade mecânica. Passou pelos mesmos sítios uma e outra vez e foi quase por acaso que viu surgir diante de si o desproporcionado e colorido pavilhão do Centro de Diversões. Encolheu os ombros uma vez mais, e arrumou o carro no lugar do costume. No interior reencontrou a mesma amálgama de ruídos e cheiros intensos que sempre o chocava quando cruzava a entrada em arco. Dirigiu-se ao pequeno cubículo de alumínio e contraplacado onde se mudavam e maquilhavam, com uma pequena salinha e uma minúscula casa-de-banho com duche e uma pia turca. O seu sebento colega já lá estava à porta, todo ataviado para a sua função, sempre constipado e a fungar. Resmungou-lhe um cumprimento e entrou na casinha, sentando-se no banco de madeira junto à janela de cortinas abertas onde enrolou pacientemente um cigarro. Finda a tarefa, acendeu-o e sorveu com prazer o fumo cálido e adocicado, e só então olhou para o exterior. Os outros dois estavam a acabar o turno. Ia um à vez para a cadeira suspensa sobre o tanque de água, vestido de palhaço e teatralizando sorrisos e gestos burlescos. Os estúpidos tentavam acertar num alvo em chapa com uma bola de borracha maciça para destravar a alavanca que o fazia mergulhar no tanque. Eram poucos os que o conseguiam, era precisa concentração e uma força bem dirigida para vencer o desafio, o que não era fácil quando a maioria deles vinham em grupos de amigalhaços que se desafiavam entre gargalhadas e provocações. Ao fim da terceira queda, o palhaço era revezado pelo companheiro e ia ao cubículo para se enxugar e mudar de roupa. André gostava daquele trabalho, pagavam-lhe para se esconder por detrás de uma máscara, e apesar dos banhos, sentia-se bem em ser outro, em se desdobrar em pantomimas e macaquices, insultando aqueles que se divertiam com ele, e ao cair na água, tentava fazê-lo com impacto para procurar encharcar os foliões. Todos deveriam ter essa chance de ajustarem contas de tempos a tempos com o mundo e as pessoas, de gritar a sua revolta e o seu desprezo, desferindo palavras como socos no meio dos decibéis de música gravada e das vozes sem memória. Enquanto se mudava, pensou em Ana, sabia que não a encontraria em casa quando voltasse, ela que sempre lhe metera na cabeça que deveria arranjar um segundo trabalho para endireitarem a vida, ela que todos os fins-de-semana morria de preocupação dele adormecer, ou faltar ao trabalho por capricho. Aquela traição e aquele escárnio eram-lhe insuportáveis. Começou a pintar a cara com uma base de branco – “Hoje podia ficar assim!” pensou admirando no espelho o seu lívido rosto macabro, enquanto lá fora um coro de risos e o splash da água anunciavam mais um mergulho.

MÃE - 2 poetas, 2 poemas

De José Régio:

Que o filho lhe mal pagava
Queixou-se-me certa mãe.
- Nem a vida lhes chegava,
Se os filhos pagassem bem !...
Quem tem um filho apartado,
Sofre com dois corações :
Um, tem-no em si bem fechado;
Outro... lá longe aos baldões.
Cria uma mãe seu menino:
Cresceu... seguiu novos trilhos.
- E é para esse destino
Que as mães dão asas aos filhos !
Minha mãe, se eu te perder,
Farei de branco o meu luto :
Que é Santa toda a mulher
Que dá poetas por fruto !


De Eugénio de Andrade

Poema à Mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

chuva


Mão que fere é mão que cura, diz o povo, pode-se arriar, malhar, enfiar os dedos nas órbitas, desde que depois se vá buscar as compressas e o betadine, a caixa dos primeiros socorros ou o estojo dos últimos sacramentos, sancionamos a violência quando ela irrompe num desvario da razão, tretas, mão que fere, fere sempre, a razão não é para aqui chamada, matou a mulher porque suspeitava que ela o traía e com ela matou o alegado amante que não a estava a penetrar nem sequer estava com ela, o juiz deu-lhe uma pena leve, porque é homem e o homem tem o recalcado receio de um dia ser ou ter sido corno, o assassino passional estancia na prisão uma dezena de anos e, com as ideias repousadas, sai e mata mais três homens, porque qualquer um deles podia ter sido o verdadeiro amante da mulher e, se não o era, podia ter pecado com ela em pensamentos e palavras, actos e omissões, mão que fere não tem indulgências, compradas ou oferecidas, benesses fiscais, medalha do dez de Junho, se premeditou, feriu com o punho da razão, se não premeditou, feriu apenas com a mão, é um caso psicológico, estava deprimido, apetecia-lhe matar passaritos, e subiu à torre da universidade com uma carabina, mas só lá havia alunos, pequenos ao longe, e coloridos como canários primaveris, o que se há-de fazer, não tomava a medicação porque andava a beber shot's e deu uns quantos shot's, bang-bang, mão que fere, fere para sempre.

trabalhos

Chuva e mais chuva, ouviu-a durante toda a noite a mijar enquanto esmurrava a almofada em busca do sono, de manhã levantou-se de rastos e gatinhou até à janela, apoiando-se nos seus membros com crostas e penugens coloridas. Ia precisar de um suplemento de cafeína e de um ou dois choques eléctricos para conseguir fazer alguma coisa. Abriu os estores e quase ficou cego. Estava um dia esplendoroso. O Sol assomava por entre as nuvens e espelhava-se nas poças de água e telhados liquefeitos. Ainda bem que não chovia. Voltou a cerrar os estores e desceu à cave bafienta, ao laboratório onde desenvolvia para estudo, bolores e fungos, cultivando-os em si.

anjo caído

Não precisava que toda a sua vida passasse diante dos seus olhos, principalmente, as últimas semanas. Disseram que queriam fazer dele um homem de verdade e, para o conseguir, submeteram-no a uma voragem de humilhações e golpes - "És um páraquedista, não és um paneleiro"- gritavam-lhe ao ouvido, enquanto levava porrada ou limpava a merda dos outros. Prova atrás de prova, castigos dolorosos quando não as conseguia superar. Mas hoje, o seu dia parecera-lhe diferente, o avião não soava como um avião, lembrava-lhe o som do tractor do pai na fazenda, aos solavancos com as relhas de aço na terra encaroçada de pedras, quase podia sentir o cheiro do óleo que fica nas mãos, mesmo quando as lavamos, no tempo em que a sua boca não havia sentido ainda o sabor do próprio sangue, e se deliciava com as sandes de ovo cozido e cebola que a mãe lhe fazia para a merenda e que comia deliciado numa pausa do trabalho, refastelado na sombra de uma caneira da extrema da terra. Nessa manhã, saltou do avião, determinado, os braços colados ao corpo, sem esboçar um gesto para abrir o pára-quedas, num mergulho libertador. Antes de se esmagar nas rochas da falésia junto ao mar, passou por uma mulher que fazia parapente. Inquirida depois, ela jurava diante do cepticismo de todos, que tivera um fugaz relance do homem que se matara, uma imagem instantânea, mas nítida. O seu rosto, afirmava ela, estava sereno e luminoso como o rosto de um arcanjo.

PNP 1

Este é um contra-senso curioso:
- Há pessoas neste país que sofrem de uma xenofobia patológica, dum luso-monroísmo que reclama Portugal para os "portugueses", exigindo a deportação em massa do que consideram bárbaro: brasileiros, croatas, bielorussos, ucranianos, romenos, indianos, cabo-verdianos, marroquinos, argelinos, galegos, habitantes das Berlengas, mexicanos, etc.
- No entanto, estas mesmas pessoas vivem num país que tem os seus filhos disseminados pelos quatro cantos do mundo, e tem seguramente gente sua, do seu sangue, vivendo e fazendo pela vida noutros lugares do planeta. Não deve haver país nenhum ou nenhuma latitude do globo que não tenha um grupo de emigrantes portugueses enraizado. Quando os noticiários nos trazem notícias de convulsões políticas noutros países, mesmo em países distantes com um nome exótico - como Burkina Faso, Mayotte, Quirguistão ou Miramar - é inevitável que as mesmas notícias tragam em apenso a informação de uma colónia de emigrantes portugueses que vive a alguns quilómetros do foco do conflito. Este é uma realidade tão óbvia, que esvazia de sentido os argumentos viscerais dos nossos xenófobos caseiros.

PNP 2

PARTIDO NACIONALISTA PLANETÁRIO
(Manifesto)

Nós do PNP, proclamamos como nosso de inteiro direito, todo o espaço cósmico e mais além. É o nosso espaço vital. Temos a legalidade natural de converter a órbita da Terra num amontoado de ferro-velho, de lançar satélites para todo o Universo, explorar minas na Lua, abrir um McDonald's em Marte e uma lavagem automática em Io. Nenhuma lei ou princípio se sobrepõe ao nosso direito soberano de Terraformar outros planetas, transformando as suas atmosferas com a intrusão de novos gases e plantas, ou modelando a sua superfície com bombas nucleares.
Decorrente deste nosso direito, impõe-se o dever de expulsar do nosso planeta todos os traços de presença alienígena, como os Marcianos de Wells, os Venusinos de Charroux, os Klingon's, os Vulcano's, Goauld's, o Alf, o Principezinho, os homens-couve de Alpha Centauri ou a Ameaça de Andrómeda. Metam-nos num avião ou num teletransportador, num envelope de correio azul, numa liquidificadora, num destruidor de papel. Mandem-nos para a origem, de onde vieram sem ninguém os chamar.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...