Vida depois da morte

- Doutor, o senhor quer saber tudo sobre a minha experiência de vida depois da morte?
- Sim, conte-me tudo...
- Aconteceu depois de uma boa dose de estimulantes...
- À base de vitamina C? Tipo sumo de laranja com anfetaminas?
- Não! Sem o sumo de laranja...posso continuar?
- Decerto.
- Estava a ficar deprimida, morta de tédio, e então morri mesmo. Senti-me sair do meu próprio corpo como uma cobra que larga a pele. Reparei que o meu corpo etéreo estava ligado ao meu corpo físico por um cordão umbilical de prata. Não sei se era mesmo prata ou só casquinha. O certo é que me vi num túnel muito escuro, como se estivesse dentro do túnel da Crel durante um apagão...
- E ouvia música celestial, acordes de harpa ou lira?
- Não...sons...só me recordo do ronronar dos ventiladores do túnel. Depois avistei uma luz ao fundo, era uma luz muito ténue como um pirilampo e, à medida que me aproximava, continuou a ser uma luz muito ténue como um pirilampo. Afinal, era um ser celestial luminoso, que estava de guarda às portas do Céu. Não cheguei a saber se era Cristo, S.Pedro, o Arcanjo Gabriel, o Querubim Atanásio, ou se era mesmo um pirilampo.
"Fez-me várias perguntas enigmáticas enquanto, diante dos meus olhos, passava um trailer do que fora a minha vida. Devo ter passado no teste, para variar, e ele deixou-me entrar no Céu. Uma odalisca guiou-me. Levou-me a tomar um banho etéreo com espuma de banho etéreo, depois, catou-me os etéreos piolhos e, no final, ambos cheiramos éter. Quando íamos passar para o estágio seguinte, senti-me a ser puxada para baixo. Eu disse-lhe que o meu corpo etéreo estava ligado ao corpo físico por um cordão?
- Sim, disse-me...
- Pois eu senti a puxarem-me pelo cordão, e fiz o caminho inverso. Passei pelo pirilampo, pelo túnel escuro e voltei a realojar-me no corpo. Quando abri os olhos tinha diante de mim o meu marido. Tinha sido ele quem puxara pelo cordão, foi em desespero, disse-me, tinha-se lembrado que não tinha mais ninguém para cozinhar para ele".

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