Quizumba

Na noite profunda ecoa o riso da hiena, da quizumba, matando a sede no balde sob o pingo-pingo da torneira do quintal. Vejo que é mais do que uma, figuras peludas rodando sob a sombra das árvores enluaradas, os olhos chamejam de encontro à luz. Ouço novamente aquela risada arrepiante, como de uma velha louca, depois vejo surgir das trevas a silhueta enorme do nosso mainato, António, que grita para as hienas enquanto brande uma vara, sem qualquer assomo de medo. As hienas retiram-se, confusas. Pensei que estivéssemos livres delas, mas vejo a silhueta duma recortar-se das trevas e aproximar-se de António com passos curtos até se imobilizar à sua frente, a uns dois metros, como se medisse forças, mas bate em retirada logo que ele faz a vara flagelar o balde. António vê-me de rosto colado ao vidro da janela e acena alegremente antes de se eclipsar nas sombras. Cessou o riso das hienas, e o silêncio repleto da noite africana toma o seu lugar.

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