Talvez

Inspirou fundo, e agachou-se no cadeirão, o rosto encostado ao tampo da secretária. Estava abafado, sufocante, sentia-se confinado, encerrado com as suas preocupações. Quase não se podia respirar ali, uma divisão repleta de gente, gente que respirava e expirava calor, pessoas sentadas pelos cantos, encostados às paredes decoradas com diplomas e circulares. Todos fingiam trabalhar, sentadas em grupos de três ou quatro, consumiam o seu tempo nalguma tarefa absurdamente inútil, como dobrar e desdobrar páginas soltas de listas telefónicas, ou a armar e desarmar fiadas de clipes metálicos coloridos. Apenas uma pessoa estava na sorna, acocorado diante dum televisor apagado, afagava o ecrã com as mãos sonhadoras. Tinha de sair dali, do edifício com as suas salas idênticas onde as pessoas cumpriam rotinas semelhantes. Levantou-se e esgueirou-se pelo corredor, tentando não pisar as pessoas atarefadas, e alcançou a porta de saída dos Paços do Concelho.
Nas escadarias, sentiu-a aproximar-se, como uma lebre sente o esvoaçar duma águia. Ela apanhou-o antes que chegasse ao alcatrão, a mão como uma garra, fincada no seu ombro, obrigando-o a virar-se e enfrentá-la. Sustentou o seu olhar, tentando aparentar domínio, autoridade. A mulher era mais baixa do que ele, rubicunda e de carnes fartas, os olhos pequenos, mas determinados:
- Senhor Presidente - começou ela, naquela arenga que já ouvira dezenas de vezes - os munícipes precisam de si.
Aquela mulher fora a sua secretária, antes da guerra e das bombas. Agora era uma fanática pelo bem comum, uma missionária dos necessitados. Ele não tinha argumentos, ou força, era ela que dominava, que guardava os trunfos todos e dava as cartas.
«Há mais três pessoas que precisam da sua ajuda, senhor Presidente, precisam de emprego, para estarem ocupados e não pensar no pior. São todas de confiança, dois são filhos da D. Rosa, a que foi para a capital e morreu na explosão, a outra é a Firmina, era uma menina mas agora já está uma mulher e faz muitas perguntas que incomodam os outros. É gente de bem, vai ser um regalo vê-los trabalhar, tão cheios de virtudes e boa-vontade».
- Seja, seja, mas a fazerem o quê?
- Nos armazéns há latas de verniz, dois podiam lixar as escadarias da Câmara, e outro dava uma ou duas demãos, quando acabassem passavam aos aros das portas e janelas e, finalizados estes, voltavam à escadaria.
"Mais gente à volta" - pensou com pesar, mas não foi isso que disse. Concordou com aparente entusiasmo e tentou afastar-se, mas ela ainda não estava satisfeita.
- Senhor Presidente!
- Sim...?
- É uma tristeza olhar para esta cidade, as ervas a romperem por todo o lado, nenhum carro a andar. Eu estava aqui a pensar...O que vai ser de nós depois? Isto é, quando acabarem as reservas de comida das lojas e armazéns. As bombas H limparam a vida, não há pessoas nem animais num raio de centenas de quilómetros. O que vamos fazer quando a comida acabar?
- Vamos comer-nos uns aos outros!
- Céus! Não há outra solução?
- Não é uma solução, mas é previsível que aconteça. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que as coisas se passem de forma ordeira, que seja escolhido por todos quem vai morrer, quem vai matar e quem fica encarregue dos cozinhados. Enfim, minorar o impacto...
- Eu não temo, senhor Presidente, não acredito que alguém me marque para morrer, arranjei emprego e ocupação para todos eles, devem-me isso!
O Presidente exprimiu a sua concordância e ficou a vê-la afastar-se, com as nádegas gordas a balançarem-se como dois odres cheios de água, e pensou: "Talvez, talvez a gratidão seja maior do que a fome".

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