Isolar

Quando era pequena, os pais achavam que a dor não podia ser presenciada pelas crianças. Quando o vizinho morreu, soterrado na mina de carvão, não quiseram que ela visse ou ouvisse o cortejo fúnebre. Fecharam as cortinas das janelas, espalharam cânfora para que não lhe chegasse o cheiro da morte, e colocaram no gira-discos um álbum de Nilton César, cantando baixinho os seus temas românticos. O féretro saiu da casa ao lado, com o seu séquito de prantos, e a menina alheia a tudo aquilo, brincando com um guizo na segurança do berço.

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