Imobilidade

Todos os Domingos, arranjava um tempo antes do almoço e saía das Caldas da Rainha para ir espreitar a Lagoa de Óbidos. Renegava os seus sofás, a sua cama e a cama de rede no jardim, e trocava-os pelo assento do seu carro, tão confortável e macio como eles. Era um sedentário incondicional. Ia no carro e no carro ficava, olhando pelo vidro aberto as águas da Lagoa refulgindo ao Sol, enquanto mastigava uma sandocha que preparara para a ocasião. Da cidade para a Lagoa, olhava com alguma curiosidade as dezenas de burgueses em desenvolta peregrinação, os grupos de amigos ou familiares conversando e rindo com os filhos no carrinho de bebé ou montados em triciclos e bicicletas, os obesos determinados derretendo as banhas em suor, os brancaças a correr atrás do elixir da eterna juventude, e os inevitáveis e irritantes exibicionistas, homens e mulheres de ventre liso correndo com sobranceiro desdém pela ralé patética. Um dia, decidiu ir também fazer exercício para a estrada para a Lagoa. Tirou do roupeiro o seu apertado e mofento fato-de-treino e vestiu-o. Mas antes de vestir as calças, teve de puxar pelas pontas das raízes que lhe saíam das nádegas e da planta dos pés e enrolá-las em volta das pernas.

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