Frases periféricas

"Andas sempre com a cabeça das nuvens" - condenou a mãe, sacudindo com um espanador o pólen que se fixara aos seus cabelos louros.
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Mesmo nus, sentimo-nos vestidos com demasiadas coisas.
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Ardem-me fogos antigos nos olhos, as minhas mãos esfarelam cinzas mortas.
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É facil levar uma vida tranquila, apascentando rotinas lanígeras nas abas de um vulcão pouco-adormecido.
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Guardo uns bolbos de tulipa holandesa, em sacos translúcidos, que trouxe da loja. Devia enterrá-los na terra do jardim, mas fica muito longe, do outro lado da minha inércia espalmada em planícies sem fim, onde não há vento nem brisa - aí, os moinhos não moem a farinha nem o trigo se agita nas searas.
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Afogou as mágoas, em lágrimas salgadas como o mar.
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Separamo-nos das coisas e cismamos nisso, rebanho órfão vagueando na noite povoada de ravinas e lobos.
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A única amnésia que nos dói é a ausência do carinho na memória da pele.
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Busco o instante e o fugaz, quero-me brusco e bruto como um riso inopinado ou um insulto mordaz.

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