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Eudorensis

"Uma incongruência fitobiológica", foi logo assim, nesses termos, que Eudoro, o mestre-escola, caracterizou o aparecimento duma misteriosa planta junto às muralhas do castelo em ruínas, no topo da colina. Não a reconhecia, do alto da sua erudição desenvolvida em livros imensos lidos e compulsados. A planta tinha um talo fibroso como alguns cogumelos mas, na parte superior, desenvolvia-se em ramificações encordoadas de cores diferentes, num desenho irregular como o da couve-flor. Nalguns desses ramos verificavam-se tímidas inflorescências de cores vivas. Colheu uma amostra dum ramo, e refugiou-se na biblioteca. Consultou todas as fontes onde podia beber conhecimento, tomos de taxonomia e botânica, enciclopédias, canhenhos de campo, monografias. Não encontrou nada de semelhante. Seccionou o ramo, analisou-o ao microscópio e compôs uma descrição exaustiva, da qual fez cópias e enviou para diversas sumidades científicas. As respostas foram todas negativas, talvez fosse uma nova espécie vegetal, ou uma mutação caprichosa.
Enfurnado no seu gabinete, rescreveu aquela memória descritiva umas quantas vezes, acrescentando-lhe sempre algum elemento, que lhe poderia ser útil para posterior identificação. Agora, estava preparado para lhe atribuir um nome, em latim, claro. As coisas só existem se tiverem um nome. Quando Deus criou o primeiro homem, a tarefa inadiável dele foi nomear todos os elementos e objectos da criação porque, só assim, eles passaram a existir efectivamente. O encargo de classificar a planta foi tão árdua como o seu estudo, porque tinha de obedecer a critérios rigorosos e científicos. Enquanto tentava situar a planta no seu lugar exacto no reino vegetal, lembrou-se que a sua descrição não estava completa: não a estudara no seu meio natural, e assim, em plena noite, desarvorou para o alto da colina em passadas largas e enérgicas. Quando chegou ao lugar onde vira a planta, notou mais uma incongruência, a planta soltava pequenas chispas de luz colorida: era uma inflorescência fluorescente. Talvez se devesse a algum elemento gasoso libertado pela planta, como os fogo-fátuos das campas, raciocínio confirmado por uma espécie de névoa tenuamente iluminada a coroá-la. Quando anotava mentalmente esses elementos, apareceu uma nova incongruência - da massa escura da muralha destacaram-se duas formas humanas esbatidas, altas e esguias, de silhueta feminina. Deviam ser espectros. Não conseguiu isolar mais detalhes, porque as figuras eram baças e leitosas como o luar que as envolvia. Agachou-se atrás dum arbusto para não ser visto, e prosseguiu a observação. As duas figuras agacharam-se junto à planta, talvez estivessem a comer as flores, ou só a cheirá-las. Por alguns instantes, pareceu-lhe que elas se fundiam uma na outra, que se enrolavam como as fibras dos ramos da planta, e quando o fizeram, a planta deixou de emitir luz. O luar permitiu que descortinasse que aqueles dois seres regressavam à muralha, entrando pelas pedras adentro como se ali existisse alguma porta.
Ficou sozinho ao luar, diante da planta apagada. Aquilo era uma chatice pegada. Uma planta, mais dois espectros. Agora tinha de compor mais uma ou duas memórias descritivas e puxar do seu latim para classificar aqueles espectros com um nome erudito irrepreensível. Caso contrário, não poderiam existir no nosso mundo.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...