Efeito

(Foto daqui)

Habituara-se a viver com o seu animal de estimação. As pessoas não gostavam, diziam que tinha um ar ameaçador, mas para ela era uma coisa muito importante. Alimentava-o com desvelo e levava-o para todo o lado, era implícito a si. Apesar de por vezes balir ou rugir mais do que a conta, até se revelava um animal dócil e carinhoso. À noite, deitava-o aos pés da cama, onde se refugiava dentro dos seus anéis ofídicos e adormecia, mas havia uma ou outra noite em que não ficava sossegado, irmanava-se dos seus sonhos e deitava-se consigo na cama, tasquinhando sem pudor nos seus pêlos púbicos ou bebericando nos seus róseos mamilos. Já se excedera uma ou outra vez, dando largas à sua lubricidade ou, simplesmente, mordendo-a: duma vez devorou-lhe dois dedinhos do pé, doutra o lóbulo duma orelha e, numa outra, cravara-lhe um dente no rosto, alargando ainda mais a sua cova no queixo. Tinha noção de que o seu aspecto não era o mesmo e as pessoas também lhe diziam que, junto com isso, perdera muita da sua alegria interior. Mas o que havia de fazer? Supunha que era isso que acontecia a todas as pessoas que conservam, durante muito tempo, a mesma Quimera.

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