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Da minha janela

"Caldas da Rainha é uma cidade em crescimento" - Este podia ser o título dum artigo de jornal ou uma frase propangandista das autoridades camarárias. Como não crescer? Com a A8 e Lisboa a um passo, antes viver em Caldas, com as praias por perto. Mas crescer? Por todo o lado se vêem gruas e prédios novos, máquinas a fazer o desaterro de antigos baldios, cresce o ferro e o betão, orquestrado por arquitectos e construtores. Gente sem princípios nem gosto, obcecada pelo lucro. Esta é uma opinião pessoal, claro. Fazem-se urbanizações novas com trinta e quarenta vivendas (caríssimas), quase sem um metro de terreno em volta, e nada de espaços verdes ou de lazer. As crianças que joguem à bola na rua, como todas as crianças do mundo que jogam à bola na rua. Nos prédios, a mesma tacanhice. Um apartamento vale mais se tiver mais assoalhadas. Visitei alguns que teriam o espaço justo para três bons quartos mas, como se torna mais lucrativo se tiver mais divisões, levantam uma parede no meio dum quarto e criam dois quartos minúsculos, quase celas, ou fazem o mesmo à sala de estar para inventar um pequeno escritório, muito útil nos dias de hoje em que todas as pessoas tem computador e internet (e só lá cabe o computador se tiver um monitor LCD).
Por acasos da vida, tive a sorte de ficar a morar numa zona sobrelevada da periferia da cidade. Da minha varanda vejo os prédios novos a crescer dia após dia. Mas sou um afortunado. Lá ao longe, esbatida numa linha-de-água quase imperceptível, ainda consigo avistar as Ilhas Berlengas. São a agradável nota de contraste da paisagem citadina, o meu haicai visual. Por vezes, a sua silhueta faz-me lembrar o morro do Pão-de-Açúcar do Rio de Janeiro (que só conheço das telenovelas). A noite passada, fui até à varanda a roer uma amêndoa torrada e distingui nessa direcção uma luzinha tímida a piscar na noite. Concluí que essa luz pertence ao farol das Berlengas. Acho que vou mudar o computador de sítio e colocá-lo diante da janela. Para me guiar por aquela luz quando vier para aqui navegar à noite.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...