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Boa-Nova

Mal as viu, junto à porta da sua casa, suspeitou ao que vinham. Duas mulheres muito compostas, blusa fechada até ao pescoço, saia quase até aos pés, não podiam estar ali por muitas razões. Reparou que usavam botins, mantendo ocultos os tornozelos, opção sábia, porque o tornozelo é das partes mais libidinosas duma mulher, capazes só por si, de despertar a mais desregrada lascívia. Enquanto se aproximava, tentava adivinhar qual seria o seu mote de conversa, se o desemprego, a violência urbana ou o insucesso escolar. Enganou-se redondamente. Mal chegou junto delas, entraram a matar, dizendo-lhe com voz branda e generosa que estavam ali para falar d'O Livro sagrado, a Bíblia, o único livro sagrado, porque todos os outros, como o Talmude ou o Alcorão, tinham sido ditados pelo demónio, disfarçado de Deus. Pediu-lhes um pouco de calma.
- Sou agnóstico - explicou - ou, pelo menos, é aquilo que se aproxima mais do que sinto. Não acredito que se possa ser detentor da verdade sobre Deus, acredita-se, e deve-se fazê-lo em nome pessoal, sem conversões ou religiões organizadas. Nesse sentido, o Alcorão, a Bíblia ou o Talmude fazem parte da mesma tradição espiritual e tem o mesmo valor perante as minhas opções e procuras.
- Está a dizer-nos que também poderia ser muçulmano ou hindu - perguntou uma delas - ou que não se preocupa com o destino da sua alma?
- A minha alma está bem entregue, porque há milhões de pessoas a querer garantir-lhe um futuro próspero, já depois da morte ou daqui a um tempo indeterminado, quando soar a trombeta do Juízo Final.
- O senhor é um ateu disfarçado!
- Não, não sou, mas o ateísmo poderá ser outra conclusão para a minha peregrinação pessoal. Acredito que as pessoas precisam menos do Além ou do mundo depois do Juízo Final, do que precisam de alimento para o corpo e para o espírito. As pessoas precisam de oportunidades de vingar e dar o seu melhor e o melhor do seu trabalho, precisam de dignidade, precisam que lhes permitam explorar as suas potencialidades e assim ser mais valiosos e mais pessoas, de ser gente.
- Diga-nos uma coisa, o senhor é agnóstico há muito tempo?
- Há anos sem conta, acho que sempre me senti assim...
- E já fez alguma coisa por isso? Já foi operado?
- Já! No I.P.O., em Lisboa, há pouco tempo...
- E está a fazer quimioterapia...
- Sim, uma vez por semana...
- Uma vez por semana! Então foi há muito pouco tempo! Ainda vai fazer quimioterapia com a periodicidade de um mês, e só depois lhe vão fazer novos exames para ver se o seu agnosticismo já foi erradicado.
- Com efeito!
- Então voltamos noutra altura para lhe falar do livro sagrado, talvez então o seu organismo já esteja limpo, e se consiga ter uma conversa normal.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...