INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

teoria da conspiração

(Sei de fonte segura que já foi inventado um motor de explosão que usa a água como combustível, e as vacinas para todas as doenças infecto-contagiosas, e métodos fiáveis para fazer florir desertos e travar o aquecimento global. Esse conhecimento só não é divulgado porque iria minar interesses e poderios. Sei-o por quem não posso nomear, porque só o conheço pelo pseudónimo. Mas é de fonte segura, porque mo afirmou pessoalmente, por mail, um mail do Hotmail com um endereço acima de toda a suspeita: deus@hotmail.com)

Mais uns

A realidade ultrapassa a ficção, pela faixa da direita, sobre o risco contínuo, num acesso em contramão para a auto-estrada.
Só para ludibriar a Via Verde.

Isolar

Quando era pequena, os pais achavam que a dor não podia ser presenciada pelas crianças. Quando o vizinho morreu, soterrado na mina de carvão, não quiseram que ela visse ou ouvisse o cortejo fúnebre. Fecharam as cortinas das janelas, espalharam cânfora para que não lhe chegasse o cheiro da morte, e colocaram no gira-discos um álbum de Nilton César, cantando baixinho os seus temas românticos. O féretro saiu da casa ao lado, com o seu séquito de prantos, e a menina alheia a tudo aquilo, brincando com um guizo na segurança do berço.

vaidade

Não tinha sangue azul, nem títulos herdados ou forjados, pergaminhos de família ou uma ilustre árvore genealógica. Tinha, isso sim, a satisfação algo pedante de se prostituir em horário nobre.

Antes de morrer

Lugares para visitar, um dia:
Mesa Verde, Teotihuacán, Uxmal, Tiahuanaco, Machu-Pichu, Ilha da Páscoa, Delfos, Creta, Petra, Çatal Huyuk, Hissarlik, Vale dos Reis, Gizé, Meroé, Harappa, Angkor Vat, o Jardim do Vizinho, Haleakala, Borobudur, Lassa, Katmandu.

parábola

O pavão deixou de ordenar com o bico as suas penas iridescentes de vaidade, e achou que era altura de lançar-se ao trabalho. Despiu os seus atavios coloridos e vestiu o seu fato-de-macaco de penas de cores pobres, preparado para bulir. Azar o seu, que não vendo nele nada que o distinguisse, mataram-no e assaram-no no espeto como a um vulgar galináceo.

promessas

"Palavras, leva-as o vento" - redemoinhava ela nas suas cogitações, enrolando e desenrolando com os dedos o remoinho de cabelos do cocuruto do seu amado - "E a música, o pó, as vigas de ferro e as carrancas esculpidas na pedra. Somos madeixas de feno no olho de um tornado, um sonho soprado da memória no instante em que se acorda. Não me devias ter prometido nada, porque as palavras, por vezes, pousam em nós". Levantou-se da cabeceira do seu amado, sentindo-se asfixiar com o cheiro das flores e das velas, e olhou com um secreto desprezo a seita dele a velá-lo, a mulher chorosa e os familiares de negro. Eles nunca imaginariam a ternura que sentira ao acariciar-lhe os cabelos enquanto ele definhava aos seus pés, enroscado como uma cobra, tossindo e babando-se sob o efeito do veneno.

expediente

Tenho de dar um jeito na minha vida, pensou, alargá-la um pouco mais. Ajustou a sua vida à forma torneada de uma forma de sapateiro, com mil cuidados para não a puir ou descoser, e rodou a rosca do engenho, forçando-a a dar-se um pouco mais. Fez uma pausa para humedecê-la com álcool, e voltou a rodá-la novamente, com a palma da mão transpirada em volta do grampo de punho, só se detendo com medo de perder a obra. Com o coração aos pulos, pegou na forma vestida com a sua vida, e depositou-a em cima duma mesa num canto escuro. Tinha de esperar, esperançoso, até estar seca. Talvez assim - quem sabe? - deixasse de ser uma criatura acuada e presa, e se sentisse caber dentro da sua própria vida.

Thinking Blogger Award




À Angi, o meu obrigado pela escolha.
E cá vão cinco:

Almas Recicladas

A Vida Escrita

O Regabofe

Last Breath

Cadernos - AMF

25 Abriu

O Sol da consciência

Não foi apenas uma revolução, um caso casado de cravos e G3's, estilhaçou redomas e revirou tudo de dentro para fora. Foi uma revolução coperniciana, na qual se desalojou do centro do universo um conjunto fóssil de valores e ideias empedernidas e se colocou no seu justo lugar a pujança do espírito e a liberdade de expressão. O nosso mundo não é o mesmo, não é o mesmo o mundo que legaremos aos nossos filhos. Podem não gostar dele e acharem-no insuficiente, pindérico ou atrasado, mas ninguém será preso, torturado, ou extraditado por afirmá-lo.

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Uma sala de espera de consultório, apinhada, gente grande que se sente pequena quando está à espera, tricotando ansiedades e olhares. Entra uma mulher de idade carregada com sacos de mercearia e, naquele instante, como se tivesse uma mola, um jovem salta da cadeira onde estava sentado para lhe ceder o lugar.
"Sente-se aqui, minha senhora, tenha a bondade!".
Mas a senhora sentiu-se constrangida:
"Não, deixe estar, o senhor é capaz de estar cansado, e eu já estou habituada...".
"Não! - exclamou - Por amor de Deus. Nem me ficava bem, o lugar é seu, seria uma falta de respeito se fosse de outra forma" - e reforçou o oferecimento, ajudando-a com os sacos. A mulher, de pernas grossas e cheias de varizes, lá tomou posse do lugar, com o suor a escorrer-lhe pelas têmporas. O cavalheiro foi-lhe buscar um copo de água à máquina, que ela aceitou, comovida com o gesto. E o homem continuou na sua simpatia missionária, ofereceu a sua vez a um velhote que tossia a nicotina dos pulmões, e envolveu os presentes em conversas de circunstância onde exibia a sua boa-educação e a rica colecção de lugares-comuns do seu discurso. Lá foi atendido, e quando entrou para o consultório, já todos o tratavam familiarmente como um amigo de muitos anos. Á saída, despediram-se dele com a mesma simpatia e reconhecimento, e a senhora a quem oferecera o lugar, acompanhou-o à rua, insistindo com ele para que aceitasse uma maçã ou uma notita pequena. Ele aceitou a nota, só para fazer o jeito, e agradeceu, emocionado.
- Encontrar gente como o senhor é um achado nos dias de hoje - disse-lhe ela - diga-me uma coisa, a sua mãe ainda é viva?
- É sim, minha senhora, graças a Deus!
- Ela deve ser uma mãe muito feliz por ter um filho como você.
- Estou certo que sim. A senhora devia ver a felicidade na cara dela quando a obriguei a ir para um Lar.

Novos projectos

Depois de dois ou três dias de Sol, bateu-me na cabeça que era mesmo Primavera, e decidi arejar. Tirei do cabeçalho do blog uma citação macambúzia de Homero, tenho andado no jardim a cuidar do ervado, e decidi escrever uma ode à bondade e fraternidade dos homens. É uma modestíssima obra ainda no seu estado germinal, mas já tem um título, cândido e primaveril. Vai chamar-se: "Em Dachau".

Bordalada

7 Maravilhas do Mundo - 7 Votações Afectuosas

Lucrécia votou em Vladimir, que achava belo como Zeus e por quem ardia de amores.

João Casqueiro votou na sua cadela Diana, que não havia como ela para apanhar uma lebre.

O Rui votou sem hesitar na namorada, que tinha um par de mamas que era um colosso.

A Camila votou no marido por ter uma coluna sã - tinha mais galhos na cabeça do que todos os galhos das árvores dos Jardins Suspensos.

Por razões paralelas, a Alexandra votou no amante, porque o marido tinha o farol apagado.

O Nestor votou em si mesmo, era pugilista e achava-se parecido com a esfinge de Gizé por ter o nariz quebrado.

O Décio votou na mulher, a quem amava como sua rainha, apesar de ser fria como um mausoléu.

evolução semântica

Evoluiu com o tempo. Começou por escrever contos puxa-lágrimas para revistas femininas, e hoje é um autor de argumentos puxa-vómitos para telenovelas portuguesas.

while she sleeps

Dorme, aparentemente, dorme num mar opiáceo de aparências, venerando as divindades do star-system e das revistas cor-de-rosa, entes que suspenderam as suas funções orgânicas para não excretar suor ou merda. Vive para as aparências, ocultando sob demãos de creme o tom doentio e bilioso da sua pele, e acumula sobre si roupas de marca de lojas conceituadas para que ninguém repare no alto que o tumor faz nas suas costas, como se estivesse a expelir uma bola de râguebi.

definição científica

«O nosso Sol é uma estrela amarela do tipo G2, de luz desassombrada»

A PROSA DOS NOVE

Quando o "Estrada de Santiago" transitou do MSN para o Blogger, em Janeiro deste ano, o seu primeiro avatar no MSN deixou de fazer sentido: tornou-se um destroço à deriva, um weblog interrompido que eu não pretendia reactivar.
Decidi reciclá-lo (fica bem, reciclar).
Não foi nenhum delito, mas delitei todos os posts com fotos, com citações e excertos de prosa de diversos autores, e os posts que viviam duma alusão vincada ao momento ou actualidade em que foram escritos e que, por isso, foram também à vida (poupei meia-dúzia deles).
O restante material, organizei-o segundo o tipo e extensão dos textos num site de título decorativo, A Prosa dos Nove, que agora edito online. As páginas desse site estão dispostas como se segue:

O náufrago Ulisses

A sereia passeia-se pelas ruas, desmamando cordeiros, deita-se no escuro das vielas e enrola a cauda num doce amplexo, imprimindo nos núbeis quadris o desenho salgado das escamas, canta baixinho enquanto arfa e explode o marinheiro de primeira água que amolece a sua quilha no mar uterino. Navega, marinheiro, mas não bebas nos mamilos o leite do amor, que esse já tem um senhor. Rema, marinheiro, mas não te convenças que são teus os tesouros que alcanças, que esses palpitam no seio de um mar sem ouvidos que te expulsa sem prurido para uma praia agreste.

traiçoeiro

Estava ali há horas com o seu diário no regaço. Tentava (d)escrever coisas vagas ou importantes, sentimentos, versos, tiradas filosóficas, sensações, coçeira no nariz, qualquer coisa. Não lhe ocorria nada. Exasperada, refundiu o seu diário numa gaveta funda e fechou-a com força. No instante em que o fez, o tempo retomou a sua marcha nos relógios e nos dias.

biografia breve

Quando era pequeno, gostava de imaginar que era um faquir, cravando no seu próprio corpo lâminas e agulhas, ou a fingir que dormia numa cama de pregos quando se deitava no tapete de cerdas rijas. As opções e os acasos da vida fizeram dele um seringuir.

Excerto

De "Marfins", um texto de Armando Silva Carvalho:

Em pelota. Rubicundos como velhos gansos. Já fastidiosos. Empolam a membrana onde esgalham versos. Empifarados. Que rilkas coisas estas crianças enfolam no amor pelos livros.
Começam com um lago, um poente, uma flor. A sua mousseline pende das líricas videiras do silêncio.
Sobem ao monte mais próximo onde descobrem um cágado. Deitam-no de costas e põem-se a chorar porque ele não anda.
Começam com um Deus. Uma forma obscuríssima de vida. Depois, a meio caminho, enxotam animais e homens e cotejam essa agreste solidão com extractos de cultura.
Os poetinhas desdenham um teclado sujo.
Enfiam-se em casa, polindo os seus marfins. Despedem a misericórdia dessa vida ingrata de reclusos e dão grandes passeios uterinos. Cansados dos avós, das palmadas no rabo, com olho fito em bibliotecas, esgueiram-se pelos corredores onde os papões os esperam, afeitos à brincadeira. Então a mousseline estica como leite azedado de bambinos.
(...)
Andam aos bandos como um poema antigo. Aonde esta escolástica precoce que lhes antolha os membros? Deserdados de músculos, com utensílios ineficazes ao pescoço, os poetinhas marujam na versátil confusão dos versos. Vêem-se penosamente nas tardes baças, onde piam pássaros de modo lúgubre, nas noites rígidas e calafetadas. Quando o aquecimento ao rubro já não dá mais margem ao desespero, os poetinhas sobem às cadeiras, retiram as molduras e põem-se ao espelho como prostitutas.
Besuntam-se de tédio, colocam no rosto esses cremes nefastos que retiram dos armários culturais, desse arsenal de espólios que as famílias do espírito entesouraram para os descendentes.
Conhecem eles a guerra? O instante que se joga no gatilho? A cobiça dos bens? O mar de soluços que sobe pelas pernas podres dos que vão morrendo?
Arremedam o Instante, a Cobiça, o Soluço.
Fogem quando o pavor é real e a máquina uma força indomável que não cede a biografias nem a deuses.
E cantam
Cantamos.


(Armando Silva Carvalho, "O Alicate - Textos fisiológicos", Editorial Presença, 1972)

cinefilia

Admirei a pequena cinemateca que o homem tinha, era impressionante, centenas de filmes de acção e terror, todos com imagens fortes na capa e títulos muito parecidos.
- Este é que é um bom filme - rugiu o meu vizinho, entregando-me uma cassete – Tenho-o em VHS e DVD. É um filme dos que a gente gosta cá em casa, muitos tiros, sangue, enredo, mortes, histórias assustadoras. Gosto particularmente deste, porque é a vingança que engatilha o trama. O actor é um bocado paspalhão, mas o filme mostra como é a vida real. Nada como um filme de acção ou terror para uma pessoa ficar entretida. A mim só me chateia que tenham pervertido um bom actor de acção como o Clint Eastwood do Dirty Harry ou o Scwarzenegger do Massacre e os tenham transformado em actores sonolentos de historiazinhas dramáticas e comédias. É de vómitos!
- Não conheço o Massacre
- Gansgsters! Tem uma cena que é um clássico, ele entra numa cave cheia de gangsters armados de metralhadoras, e consegue limpar os gajos sem sofrer um arranhão, uma coisa poderosa, bíblica, o herói armado até aos dentes, a distribuir chumbo pela escumalha enquanto as balas silvam à volta.
- Tal como na vida real.
- Podes crer. Levas este filme e diz-me o que achas dele. Se gostares tenho mais, muitos e muito diferentes desse. É só escolheres..
Agradeci e tomei o caminho da porta mas, antes de a alcançar, fui barrado pelo filho dele, um adolescente com uma máscara de Freddy Kruger.
- Ó Lopes! – interviu – antes de ir, não quer espreitar a nossa colecção de lápides tumulares?

convicção

(somos refugiados, ancestralmente refugiados, fugindo de lugares que não são nossos em busca de uma nova pátria que nunca chegamos a alcançar. Somos refugiados, mesmo quando chamamos nossa e muito nossa a terra exterior e ingrata onde a nossa vida se demora - estéril a terra, e estéril a semente)

pesquisas


As pesquisas nos browsers que trazem gente a este blog, quase sempre em erro, tem os temas habituais: putedo das Caldas, chicote de cabedal, remédio para a pedra, rituais satânicos com caveiras, jardins de reflexão, veneno mata-ratos, suicídio assistido, etc, etc. Esta semana, houve duas nuances, uma pessoa veio cá à procura do rosto do Arcanjo Gabriel, enquanto outra, talvez por inspiração do dito Arcanjo, procurou por algo que eu nem sabia que pudesse existir: cadeiras de rodas para cachorros para as patas da frente.

pelota

O gato brincava com o novelo de lã no extremo do pátio de cimento, dava-lhe pequenas tacadas com a sua garra, saltava e saltitava alegremente à volta daquela bola de lã. Com filamentos de lã na boca e nas unhas, não conseguiu dominar o final de um salto, resvalou e caiu redondamente numa poça de água, saindo de lá todo enlãmeado.

welcome

Apanhou uma carraça nas ervas altas, pequena e de carapaça. Enquanto prosseguia a caminhada, a carraça foi passeando pelo seu corpo à procura de um esconderijo seguro e tranquilo onde se pudesse alimentar. Encontrou uma comunidade de carraças como ela, partilhando um condomínio no deserto do seu cérebro.

armazém


Arranjou um marco de correio, alto e vermelho, muito londrino. Colocou-o no seu escritório, ao lado do computador, um cabo ligava-os. (O seu serviço de mail não bloqueava o Spam).

Imobilidade

Todos os Domingos, arranjava um tempo antes do almoço e saía das Caldas da Rainha para ir espreitar a Lagoa de Óbidos. Renegava os seus sofás, a sua cama e a cama de rede no jardim, e trocava-os pelo assento do seu carro, tão confortável e macio como eles. Era um sedentário incondicional. Ia no carro e no carro ficava, olhando pelo vidro aberto as águas da Lagoa refulgindo ao Sol, enquanto mastigava uma sandocha que preparara para a ocasião. Da cidade para a Lagoa, olhava com alguma curiosidade as dezenas de burgueses em desenvolta peregrinação, os grupos de amigos ou familiares conversando e rindo com os filhos no carrinho de bebé ou montados em triciclos e bicicletas, os obesos determinados derretendo as banhas em suor, os brancaças a correr atrás do elixir da eterna juventude, e os inevitáveis e irritantes exibicionistas, homens e mulheres de ventre liso correndo com sobranceiro desdém pela ralé patética. Um dia, decidiu ir também fazer exercício para a estrada para a Lagoa. Tirou do roupeiro o seu apertado e mofento fato-de-treino e vestiu-o. Mas antes de vestir as calças, teve de puxar pelas pontas das raízes que lhe saíam das nádegas e da planta dos pés e enrolá-las em volta das pernas.

Conhecidos

- Porque me visitas? Ou antes, porque ainda me visitas? Penso muitas vezes nisso e não encontro respostas…
- Porque fomos amigos em tempos, trocámos ideias e pontos de vista, já nos conhecemos há muitos anos.
- Brincas, claro! A tua namorada era minha prima, e nós só bebemos umas cervejas numa esplanada em Agosto. Não respondes à minha pergunta?
- Está bem! Visito-te porque não me sinto bem comigo mesmo. Fui eu que matei a tua prima, sou eu o culpado pela morte que te colocou aqui a cumprir uma pena de vinte anos.
- Sempre a brincar. O que é que vais dizer a seguir? Que mataste o JFK?

Faca

“Ninguém me dá ouvidos. Tenho de continuar em lista de espera”

Calculismo

O urologista descobriu-lhe uma pedra nos rins, era demasiado grande para ser expelida pelas vias urinárias. Ainda lhe receitou medicamentos para dissolver o cálcio na esperança de fragmentar esse cálculo, e propôs-lhe uma cirurgia a laser mas, de súbito, começou a falar-lhe insistentemente em remover a pedra com uma pequena cirurgia. A operação não lhe iria custar um cêntimo - havia uma proposta de patrocínio da famosa joalharia Tiffany, de Nova Iorque. Era uma pedra preciosa.

Quizumba

Na noite profunda ecoa o riso da hiena, da quizumba, matando a sede no balde sob o pingo-pingo da torneira do quintal. Vejo que é mais do que uma, figuras peludas rodando sob a sombra das árvores enluaradas, os olhos chamejam de encontro à luz. Ouço novamente aquela risada arrepiante, como de uma velha louca, depois vejo surgir das trevas a silhueta enorme do nosso mainato, António, que grita para as hienas enquanto brande uma vara, sem qualquer assomo de medo. As hienas retiram-se, confusas. Pensei que estivéssemos livres delas, mas vejo a silhueta duma recortar-se das trevas e aproximar-se de António com passos curtos até se imobilizar à sua frente, a uns dois metros, como se medisse forças, mas bate em retirada logo que ele faz a vara flagelar o balde. António vê-me de rosto colado ao vidro da janela e acena alegremente antes de se eclipsar nas sombras. Cessou o riso das hienas, e o silêncio repleto da noite africana toma o seu lugar.

Efeito

(Foto daqui)

Habituara-se a viver com o seu animal de estimação. As pessoas não gostavam, diziam que tinha um ar ameaçador, mas para ela era uma coisa muito importante. Alimentava-o com desvelo e levava-o para todo o lado, era implícito a si. Apesar de por vezes balir ou rugir mais do que a conta, até se revelava um animal dócil e carinhoso. À noite, deitava-o aos pés da cama, onde se refugiava dentro dos seus anéis ofídicos e adormecia, mas havia uma ou outra noite em que não ficava sossegado, irmanava-se dos seus sonhos e deitava-se consigo na cama, tasquinhando sem pudor nos seus pêlos púbicos ou bebericando nos seus róseos mamilos. Já se excedera uma ou outra vez, dando largas à sua lubricidade ou, simplesmente, mordendo-a: duma vez devorou-lhe dois dedinhos do pé, doutra o lóbulo duma orelha e, numa outra, cravara-lhe um dente no rosto, alargando ainda mais a sua cova no queixo. Tinha noção de que o seu aspecto não era o mesmo e as pessoas também lhe diziam que, junto com isso, perdera muita da sua alegria interior. Mas o que havia de fazer? Supunha que era isso que acontecia a todas as pessoas que conservam, durante muito tempo, a mesma Quimera.

No imediato


-Quero aprender, quero muito aprender, conhecer, viajar, quero ser instruído e duvidar, quero discutir e ressarcir, receber firmes ensinamentos e apostatar sem lamentos.

- Seja, mas a seu tempo, vais aprender com a experiência. Primeiro é mister que tenhas um mester, que sejas útil e actual, que trabalhes e pagues os impostos, que enchas a tua vida de filhos e bens, de promissórias e PPR’S, seguros, hipotecas e compras a prazo. Depois, se tiveres tempo e ânimo, podes mergulhar de cabeça na filosofia.

madraço

Aos primeiros instantes da manhã, estende e distende os braços e as pernas, os nervos das pálpebras, as abas das narinas, inspira uma grande golfada de ar e espreguiça-se como um frade empanturrado. Depois, o minuto depois, os sons da rua, o cão a ladrar estupidamente, a buzina da carrinha do peixe, o vozear das vizinhas na rua, o tique-taque do relógio-metrónomo desejoso de marcar o compasso da sua vida produtiva. No minuto depois do minuto depois, regressa aos lençóis tépidos. É bom ser Domingo e poder mandar à fava toda a civilização ocidental.

amarar

Mar de Sargaços, mar de calmaria, mar das tormentas, mar amargo, mar negro, maré negra – disputado entre tantas marés, pergunta-se: "Irei amar-te até quando?"

Frases periféricas

"Andas sempre com a cabeça das nuvens" - condenou a mãe, sacudindo com um espanador o pólen que se fixara aos seus cabelos louros.
*
Mesmo nus, sentimo-nos vestidos com demasiadas coisas.
*
Ardem-me fogos antigos nos olhos, as minhas mãos esfarelam cinzas mortas.
*
É facil levar uma vida tranquila, apascentando rotinas lanígeras nas abas de um vulcão pouco-adormecido.
*
Guardo uns bolbos de tulipa holandesa, em sacos translúcidos, que trouxe da loja. Devia enterrá-los na terra do jardim, mas fica muito longe, do outro lado da minha inércia espalmada em planícies sem fim, onde não há vento nem brisa - aí, os moinhos não moem a farinha nem o trigo se agita nas searas.
*
Afogou as mágoas, em lágrimas salgadas como o mar.
*
Separamo-nos das coisas e cismamos nisso, rebanho órfão vagueando na noite povoada de ravinas e lobos.
*
A única amnésia que nos dói é a ausência do carinho na memória da pele.
*
Busco o instante e o fugaz, quero-me brusco e bruto como um riso inopinado ou um insulto mordaz.

Talvez

Inspirou fundo, e agachou-se no cadeirão, o rosto encostado ao tampo da secretária. Estava abafado, sufocante, sentia-se confinado, encerrado com as suas preocupações. Quase não se podia respirar ali, uma divisão repleta de gente, gente que respirava e expirava calor, pessoas sentadas pelos cantos, encostados às paredes decoradas com diplomas e circulares. Todos fingiam trabalhar, sentadas em grupos de três ou quatro, consumiam o seu tempo nalguma tarefa absurdamente inútil, como dobrar e desdobrar páginas soltas de listas telefónicas, ou a armar e desarmar fiadas de clipes metálicos coloridos. Apenas uma pessoa estava na sorna, acocorado diante dum televisor apagado, afagava o ecrã com as mãos sonhadoras. Tinha de sair dali, do edifício com as suas salas idênticas onde as pessoas cumpriam rotinas semelhantes. Levantou-se e esgueirou-se pelo corredor, tentando não pisar as pessoas atarefadas, e alcançou a porta de saída dos Paços do Concelho.
Nas escadarias, sentiu-a aproximar-se, como uma lebre sente o esvoaçar duma águia. Ela apanhou-o antes que chegasse ao alcatrão, a mão como uma garra, fincada no seu ombro, obrigando-o a virar-se e enfrentá-la. Sustentou o seu olhar, tentando aparentar domínio, autoridade. A mulher era mais baixa do que ele, rubicunda e de carnes fartas, os olhos pequenos, mas determinados:
- Senhor Presidente - começou ela, naquela arenga que já ouvira dezenas de vezes - os munícipes precisam de si.
Aquela mulher fora a sua secretária, antes da guerra e das bombas. Agora era uma fanática pelo bem comum, uma missionária dos necessitados. Ele não tinha argumentos, ou força, era ela que dominava, que guardava os trunfos todos e dava as cartas.
«Há mais três pessoas que precisam da sua ajuda, senhor Presidente, precisam de emprego, para estarem ocupados e não pensar no pior. São todas de confiança, dois são filhos da D. Rosa, a que foi para a capital e morreu na explosão, a outra é a Firmina, era uma menina mas agora já está uma mulher e faz muitas perguntas que incomodam os outros. É gente de bem, vai ser um regalo vê-los trabalhar, tão cheios de virtudes e boa-vontade».
- Seja, seja, mas a fazerem o quê?
- Nos armazéns há latas de verniz, dois podiam lixar as escadarias da Câmara, e outro dava uma ou duas demãos, quando acabassem passavam aos aros das portas e janelas e, finalizados estes, voltavam à escadaria.
"Mais gente à volta" - pensou com pesar, mas não foi isso que disse. Concordou com aparente entusiasmo e tentou afastar-se, mas ela ainda não estava satisfeita.
- Senhor Presidente!
- Sim...?
- É uma tristeza olhar para esta cidade, as ervas a romperem por todo o lado, nenhum carro a andar. Eu estava aqui a pensar...O que vai ser de nós depois? Isto é, quando acabarem as reservas de comida das lojas e armazéns. As bombas H limparam a vida, não há pessoas nem animais num raio de centenas de quilómetros. O que vamos fazer quando a comida acabar?
- Vamos comer-nos uns aos outros!
- Céus! Não há outra solução?
- Não é uma solução, mas é previsível que aconteça. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que as coisas se passem de forma ordeira, que seja escolhido por todos quem vai morrer, quem vai matar e quem fica encarregue dos cozinhados. Enfim, minorar o impacto...
- Eu não temo, senhor Presidente, não acredito que alguém me marque para morrer, arranjei emprego e ocupação para todos eles, devem-me isso!
O Presidente exprimiu a sua concordância e ficou a vê-la afastar-se, com as nádegas gordas a balançarem-se como dois odres cheios de água, e pensou: "Talvez, talvez a gratidão seja maior do que a fome".

Eudorensis

"Uma incongruência fitobiológica", foi logo assim, nesses termos, que Eudoro, o mestre-escola, caracterizou o aparecimento duma misteriosa planta junto às muralhas do castelo em ruínas, no topo da colina. Não a reconhecia, do alto da sua erudição desenvolvida em livros imensos lidos e compulsados. A planta tinha um talo fibroso como alguns cogumelos mas, na parte superior, desenvolvia-se em ramificações encordoadas de cores diferentes, num desenho irregular como o da couve-flor. Nalguns desses ramos verificavam-se tímidas inflorescências de cores vivas. Colheu uma amostra dum ramo, e refugiou-se na biblioteca. Consultou todas as fontes onde podia beber conhecimento, tomos de taxonomia e botânica, enciclopédias, canhenhos de campo, monografias. Não encontrou nada de semelhante. Seccionou o ramo, analisou-o ao microscópio e compôs uma descrição exaustiva, da qual fez cópias e enviou para diversas sumidades científicas. As respostas foram todas negativas, talvez fosse uma nova espécie vegetal, ou uma mutação caprichosa.
Enfurnado no seu gabinete, rescreveu aquela memória descritiva umas quantas vezes, acrescentando-lhe sempre algum elemento, que lhe poderia ser útil para posterior identificação. Agora, estava preparado para lhe atribuir um nome, em latim, claro. As coisas só existem se tiverem um nome. Quando Deus criou o primeiro homem, a tarefa inadiável dele foi nomear todos os elementos e objectos da criação porque, só assim, eles passaram a existir efectivamente. O encargo de classificar a planta foi tão árdua como o seu estudo, porque tinha de obedecer a critérios rigorosos e científicos. Enquanto tentava situar a planta no seu lugar exacto no reino vegetal, lembrou-se que a sua descrição não estava completa: não a estudara no seu meio natural, e assim, em plena noite, desarvorou para o alto da colina em passadas largas e enérgicas. Quando chegou ao lugar onde vira a planta, notou mais uma incongruência, a planta soltava pequenas chispas de luz colorida: era uma inflorescência fluorescente. Talvez se devesse a algum elemento gasoso libertado pela planta, como os fogo-fátuos das campas, raciocínio confirmado por uma espécie de névoa tenuamente iluminada a coroá-la. Quando anotava mentalmente esses elementos, apareceu uma nova incongruência - da massa escura da muralha destacaram-se duas formas humanas esbatidas, altas e esguias, de silhueta feminina. Deviam ser espectros. Não conseguiu isolar mais detalhes, porque as figuras eram baças e leitosas como o luar que as envolvia. Agachou-se atrás dum arbusto para não ser visto, e prosseguiu a observação. As duas figuras agacharam-se junto à planta, talvez estivessem a comer as flores, ou só a cheirá-las. Por alguns instantes, pareceu-lhe que elas se fundiam uma na outra, que se enrolavam como as fibras dos ramos da planta, e quando o fizeram, a planta deixou de emitir luz. O luar permitiu que descortinasse que aqueles dois seres regressavam à muralha, entrando pelas pedras adentro como se ali existisse alguma porta.
Ficou sozinho ao luar, diante da planta apagada. Aquilo era uma chatice pegada. Uma planta, mais dois espectros. Agora tinha de compor mais uma ou duas memórias descritivas e puxar do seu latim para classificar aqueles espectros com um nome erudito irrepreensível. Caso contrário, não poderiam existir no nosso mundo.

Minguel

MINGUEL Nº5 - O Perfume da Ausência

Já está disponível o MINGUANTE n.º5, sob o tema "A Ausência".
Textos, entrevistas, imagens, links. Para se tomar o aroma.

2 frases

De todos os bares do mundo de todas as cidades da Terra, e ela tinha logo de vir ao seu pregar-lhe um calote por conta do passado. Não o podia permitir. Propôs-lhe casamento para não lhe pedir o dinheiro ou ter de cortar com uma bela amizade.

*

Devido a um corte de energia, o Metro imobilizou-se a escassos metros da Estação. Foi uma curta-metragem.

Boa-Nova

Mal as viu, junto à porta da sua casa, suspeitou ao que vinham. Duas mulheres muito compostas, blusa fechada até ao pescoço, saia quase até aos pés, não podiam estar ali por muitas razões. Reparou que usavam botins, mantendo ocultos os tornozelos, opção sábia, porque o tornozelo é das partes mais libidinosas duma mulher, capazes só por si, de despertar a mais desregrada lascívia. Enquanto se aproximava, tentava adivinhar qual seria o seu mote de conversa, se o desemprego, a violência urbana ou o insucesso escolar. Enganou-se redondamente. Mal chegou junto delas, entraram a matar, dizendo-lhe com voz branda e generosa que estavam ali para falar d'O Livro sagrado, a Bíblia, o único livro sagrado, porque todos os outros, como o Talmude ou o Alcorão, tinham sido ditados pelo demónio, disfarçado de Deus. Pediu-lhes um pouco de calma.
- Sou agnóstico - explicou - ou, pelo menos, é aquilo que se aproxima mais do que sinto. Não acredito que se possa ser detentor da verdade sobre Deus, acredita-se, e deve-se fazê-lo em nome pessoal, sem conversões ou religiões organizadas. Nesse sentido, o Alcorão, a Bíblia ou o Talmude fazem parte da mesma tradição espiritual e tem o mesmo valor perante as minhas opções e procuras.
- Está a dizer-nos que também poderia ser muçulmano ou hindu - perguntou uma delas - ou que não se preocupa com o destino da sua alma?
- A minha alma está bem entregue, porque há milhões de pessoas a querer garantir-lhe um futuro próspero, já depois da morte ou daqui a um tempo indeterminado, quando soar a trombeta do Juízo Final.
- O senhor é um ateu disfarçado!
- Não, não sou, mas o ateísmo poderá ser outra conclusão para a minha peregrinação pessoal. Acredito que as pessoas precisam menos do Além ou do mundo depois do Juízo Final, do que precisam de alimento para o corpo e para o espírito. As pessoas precisam de oportunidades de vingar e dar o seu melhor e o melhor do seu trabalho, precisam de dignidade, precisam que lhes permitam explorar as suas potencialidades e assim ser mais valiosos e mais pessoas, de ser gente.
- Diga-nos uma coisa, o senhor é agnóstico há muito tempo?
- Há anos sem conta, acho que sempre me senti assim...
- E já fez alguma coisa por isso? Já foi operado?
- Já! No I.P.O., em Lisboa, há pouco tempo...
- E está a fazer quimioterapia...
- Sim, uma vez por semana...
- Uma vez por semana! Então foi há muito pouco tempo! Ainda vai fazer quimioterapia com a periodicidade de um mês, e só depois lhe vão fazer novos exames para ver se o seu agnosticismo já foi erradicado.
- Com efeito!
- Então voltamos noutra altura para lhe falar do livro sagrado, talvez então o seu organismo já esteja limpo, e se consiga ter uma conversa normal.

Segunda pele

Era Primavera, mas fazia um frio tremendo à noite, como se o planeta tivesse oscilado no eixo e estivessem mais próximas as paragens Árcticas. Para se sentir bem, vestiu roupa de Inverno para sair: calças de bombazina, camisola interior, camisa de flanela tipo escocês, uma camisola grossa de lã, e um casaco comprido e grosso sobre-tudo isso.

Da minha janela

"Caldas da Rainha é uma cidade em crescimento" - Este podia ser o título dum artigo de jornal ou uma frase propangandista das autoridades camarárias. Como não crescer? Com a A8 e Lisboa a um passo, antes viver em Caldas, com as praias por perto. Mas crescer? Por todo o lado se vêem gruas e prédios novos, máquinas a fazer o desaterro de antigos baldios, cresce o ferro e o betão, orquestrado por arquitectos e construtores. Gente sem princípios nem gosto, obcecada pelo lucro. Esta é uma opinião pessoal, claro. Fazem-se urbanizações novas com trinta e quarenta vivendas (caríssimas), quase sem um metro de terreno em volta, e nada de espaços verdes ou de lazer. As crianças que joguem à bola na rua, como todas as crianças do mundo que jogam à bola na rua. Nos prédios, a mesma tacanhice. Um apartamento vale mais se tiver mais assoalhadas. Visitei alguns que teriam o espaço justo para três bons quartos mas, como se torna mais lucrativo se tiver mais divisões, levantam uma parede no meio dum quarto e criam dois quartos minúsculos, quase celas, ou fazem o mesmo à sala de estar para inventar um pequeno escritório, muito útil nos dias de hoje em que todas as pessoas tem computador e internet (e só lá cabe o computador se tiver um monitor LCD).
Por acasos da vida, tive a sorte de ficar a morar numa zona sobrelevada da periferia da cidade. Da minha varanda vejo os prédios novos a crescer dia após dia. Mas sou um afortunado. Lá ao longe, esbatida numa linha-de-água quase imperceptível, ainda consigo avistar as Ilhas Berlengas. São a agradável nota de contraste da paisagem citadina, o meu haicai visual. Por vezes, a sua silhueta faz-me lembrar o morro do Pão-de-Açúcar do Rio de Janeiro (que só conheço das telenovelas). A noite passada, fui até à varanda a roer uma amêndoa torrada e distingui nessa direcção uma luzinha tímida a piscar na noite. Concluí que essa luz pertence ao farol das Berlengas. Acho que vou mudar o computador de sítio e colocá-lo diante da janela. Para me guiar por aquela luz quando vier para aqui navegar à noite.

Explicação

No apartamento do quinto esquerdo do prédio, o menino teve uma visão fugaz: um esquilo. Estava na sala grande e viu um esquilo. Os pais e os irmãos mostraram-se incrédulos mas decidiram apurar os factos. Revolveram todas as divisões à procura do esquilo, espiolharam por baixo dos móveis, espreitaram roupeiros e gavetas, e nada de esquilo. O menino insistia, vira um esquilo, como aqueles do parque, e também tinha uma árvore. “Foi uma recordação” - afirmou o pai - “E pára de fazer isso com os olhos!”. O menino obedeceu, rodou para fora as pupilas que enfiara para dentro, e o esquilo evaporou-se.


Parábola macaca



Tese: Três macacos, o primeiro tapa a boca, o segundo os olhos, o terceiro as orelhas.
Antítese: O primeiro macaco não tem boca, ao segundo vazaram-lhe os olhos, ao terceiro tinham-lhe cortado as orelhas.
Síntese: Os três macacos são estúpidos, porque não é assim que se afasta o cheiro da merda.

Raridade

(A rarefacção é uma palavra rara, usamo-la de forma avara e sem variar muito de sentido. Empregamo-la quase sempre em “ar rarefeito”: quando sufocamos, sem ar num lugar fechado, um submarino encalhado no fundo, um ascensor avariado comprimindo a nossa claustrofobia, as botijas de oxigénio esgotando-se enquanto perseguimos a luz da superfície das águas. Há quem se atreva e use a palavra num sentido figurado ou alegórico, mas também aí a divergência não é muita, e todos os novos e inventivos sentidos que se dão à palavra parecem escassos, como se inspirassem com largas narinas o ar rarefeito dum espaço exíguo).


Em-trevas



- Queres alguma coisa da rua?
- Traz-me um dia de Sol, e a brisa complacente das tardes de Abril, traz-me flores ou a imagem das flores na tua retina, o cheiro do húmus nos teus dedos, o sabor das laranjas nos teus lábios.
- E da rua? Fizeste a lista das compras?
- Está aí aos pés da cama, ao lado da cadeira de rodas...
- Então vou...não precisas de ir à casa-de-banho nem nada? Ficas bem?
- Fico...se souber que me trazes o que te pedi primeiro!

Vida depois da morte

- Doutor, o senhor quer saber tudo sobre a minha experiência de vida depois da morte?
- Sim, conte-me tudo...
- Aconteceu depois de uma boa dose de estimulantes...
- À base de vitamina C? Tipo sumo de laranja com anfetaminas?
- Não! Sem o sumo de laranja...posso continuar?
- Decerto.
- Estava a ficar deprimida, morta de tédio, e então morri mesmo. Senti-me sair do meu próprio corpo como uma cobra que larga a pele. Reparei que o meu corpo etéreo estava ligado ao meu corpo físico por um cordão umbilical de prata. Não sei se era mesmo prata ou só casquinha. O certo é que me vi num túnel muito escuro, como se estivesse dentro do túnel da Crel durante um apagão...
- E ouvia música celestial, acordes de harpa ou lira?
- Não...sons...só me recordo do ronronar dos ventiladores do túnel. Depois avistei uma luz ao fundo, era uma luz muito ténue como um pirilampo e, à medida que me aproximava, continuou a ser uma luz muito ténue como um pirilampo. Afinal, era um ser celestial luminoso, que estava de guarda às portas do Céu. Não cheguei a saber se era Cristo, S.Pedro, o Arcanjo Gabriel, o Querubim Atanásio, ou se era mesmo um pirilampo.
"Fez-me várias perguntas enigmáticas enquanto, diante dos meus olhos, passava um trailer do que fora a minha vida. Devo ter passado no teste, para variar, e ele deixou-me entrar no Céu. Uma odalisca guiou-me. Levou-me a tomar um banho etéreo com espuma de banho etéreo, depois, catou-me os etéreos piolhos e, no final, ambos cheiramos éter. Quando íamos passar para o estágio seguinte, senti-me a ser puxada para baixo. Eu disse-lhe que o meu corpo etéreo estava ligado ao corpo físico por um cordão?
- Sim, disse-me...
- Pois eu senti a puxarem-me pelo cordão, e fiz o caminho inverso. Passei pelo pirilampo, pelo túnel escuro e voltei a realojar-me no corpo. Quando abri os olhos tinha diante de mim o meu marido. Tinha sido ele quem puxara pelo cordão, foi em desespero, disse-me, tinha-se lembrado que não tinha mais ninguém para cozinhar para ele".

Luisismo

Luís XIV, citado por um Etarra:
"L'ETA c'est moi"

Micronarrativa



Quando o tempo disponível me permite, gosto de esquadrinhar weblogs e sites pelo simples e desprendido prazer de ler. Folheio arquivos, vinco páginas, tiro notas, sempre com este odor de papel nos dedos. Esta semana, de forma intermitente, tenho vindo a explorar o "Veredas" revista online de micronarrativa. Foram muitos os textos que me agradaram. Deixo apenas alguns links, como exemplo:
- "
Mais Nada" de Cândido Tertuliano; "O Pacto" de Carlos Herculano Lopes; uma "Sem Título" de Cíntia Moscovich e, por último, mas não em último, este "Vento" de Bárbara Helena.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...