Timing








Há questões que se resolvem por elas mesmas. Quando o romance que viviam tornou impensável continuarem separados por muito mais tempo, decidiram casar-se, e quando planearam o casamento e pensaram num destino para a viagem de núpcias, o Algarve pareceu-lhes a hipótese mais natural, a boda iria calhar no pino do Verão e até tinham um familiar que lhes cedia um apartamento. A viagem de núpcias foi uma viagem idílica, dois seres jovens e apaixonados respirando saúde e transpirando desejo, longos e despreocupados passeios pela noite amena, os lugares de diversão para se perderem um pouco sob a égide da Lua e o recolhimento no apartamento para se redescobrirem calidamente. Num fim de tarde langoroso na Praia da Falésia, ele cansou-se do torpor que sentia e disse à amada que ia escalar a falésia. Sob o olhar preocupado e os cuidados dela, seguiu um trilho curvilíneo e subiu o mais que conseguiu, com o auxílio de um pau que lhe servia de bordão. Extenuado, sentou-se a contemplar a praia e, num impulso, decidiu deixar uma marca do feito. Num recôncavo da parede de pedra aglomerada, gravou os dizeres: "Estive Aqui!" e acrescentou o seu nome e a data.
Nunca mais pensou no episódio. Cerca de dez anos depois, deslocou-se ao Algarve em trabalho, para tentar aumentar a sua carteira de clientes. Estacionou o carro no topo da rampa que conduz à Praia da Falésia, e sentiu uma ponta de melancolia. Tudo estava diferente, e nada havia de comum com o tempo dos sonhos da sua viagem de núpcias. Estava divorciado há um par de anos, um divórcio que coroou longos meses de hostilidade e mágoa. Para mais era Inverno e fazia frio, não havia em redor um centésimo das pessoas com que se cruzavam todos os dias e estacionara o carro no lugar onde costumava existir uma banca de frutas onde compravam sempre algumas laranjas ou pêssegos para comer a meio da tarde.
Tirou a gravata e o casaco e escondeu a sua pasta de caixeiro-viajante. Acendendo um cigarro, desceu lentamente até à praia. Foi só quando se viu diante do areal que se lembrou da sua inscrição na falésia. Ainda existiria? Era pouco provável. O tempo e a erosão apagam todos os sinais, mesmo os cinzelados em granito, e a sua frase ficara gravada numa matéria arenosa e friável. Decidiu verificar. Localizou o lugar da praia onde costumavam ficar, reconheceu a linha do trilho e subiu novamente a falésia, arfando e tossicando devido ao tabaco nos pulmões. Ao fim de quinze minutos de escalada, alcançou com esforço o final do trilho. Lá estava a reentrância da parede e ainda lá estava a sua frase de há uma década. Por baixo, haviam gravado outra: "Não nos encontramos. As nossas vidas podiam ser diferentes". Estava assinada: "Ana" e, a data, era um dia posterior à sua. Sentou-se pesadamente, a olhar o mar escurecido pelas nuvens. E ficou a pensar.




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