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É certo e sabido que cada pessoa traz consigo o seu anjo-da-guarda. Não é uma imagem ou uma fábula, o anjo-da-guarda existe e acompanha-nos. A Rafael, haviam-lhe ensinado isso logo em pequeno, na mesma época em que lhe explicaram como se limpava o rabo e o proibíram de dar ao cu em cima da irmã. Para Rafael, não era um conceito transcendente, ele conseguia imaginar o anjo-da-guarda, visualizava-o como um ser pequeno alado pousado sobre si com a leveza de uma nuvem, devia ter um pé em cada um dos seus ombros com as asinhas a agitarem-se no ar como as de um colibri, nas mãos talvez erguesse uma espada ou um escudo para o defender das forças do mal. Quando andava na rua, olhava com atenção a sua própria sombra, tentando descortinar a silhueta do seu defensor, e lembrava-se de, com oito ou nove anos, procurar dormir de barriga para baixo para não o esmagar sem querer.
Depois, veio a adolescência tempestuosa, e abjurou do anjo-da-guarda como negou tantas outras coisas na ânsia de se afirmar, mas a maturidade trouxe-lhe o fim da apostasia. Irene, a loura e mística Irene, fê-lo reconciliar-se com o seu anjo-da-guarda. Irene, sua amante, sibila e vidente, garantiu-lhe que conseguia ver o anjo-da-guarda de Rafael. Tinha um ar débil porque ele não o alimentara com a sua fé e o seu amor, e tinha as asas atrofiadas pelo desuso e pesava-lhe mais sobre os ombros, e que era por isso que ele se sentia sempre tão cansado. Ela ensinou-lhe que as pessoas têm o destino dos seus anjos pessoais, e nem imaginam o mal que causam a si mesmas ao maltratá-los. É um erro atirar sal para trás das costas, porque o anjo de quem o faz ostenta sempre uma face e um corpo corroidos e em chaga, também é um erro cultivar inimizades, porque os olhares de ódio dos outros, ferem e enfraquecem em primeiro lugar o anjo defensor, desguarnecendo-nos. Rafael voltou a sentir a presença do seu anjo, e começou a comunicar com ele através de Irene, que lhe dizia o que o anjo lhe aconselhava, e como se sentia. Mas a sua relação com Irene azedou quando Rafael decidiu aproveitar uma vaga de trabalho nas minas. Irene exaltou-se, revoltada, e acabou com tudo. Não queria ser testemunha do seu fim porque uma mina era o pior que podiam dar a um anjo, ele ficava confinado a um meio contrário à sua natureza etérea e celeste, e era muito ferido ao ser arrastado pelas galerias estreitas das minas. Rafael não podia fazer nada, não tinha outro remédio, senão, trabalhar nas minas. Sem Irene, ficou sem maneira de comunicar com o seu anjo pessoal, emudeceu, e sofria calado, imaginando a dor que lhe infligia enquanto trabalhava nas minas, rastejando por buracos estreitos para instalar os explosivos para detonação. E como, um dia, toda a relação tem o seu fim, também a relação de Rafael com o seu anjo teve o seu termo. Prescindiram um do outro, separaram-se, porque Rafael enfiou-se por um buraco ainda mais pequeno e regressou ao ventre da sua mãe.

2 comentários:

  1. Gosto muito deste texto. Tenho o mau hábito de gostar de textos onde entreveja uma sombra que seja de alegórico. É frequente ver-se tratado o lado sobre-humano do Homem, mas não o contrário, não esta pulsão de terra, este desejo de queda.

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  2. José Lopes13:01:00

    Uma queda, que é um regresso, um tema predominante dos mitos e dos ritos. Os seres primordiais eram gerados pela cópula do céu e da terra e, quase sempre, nasciam desta, eram autóctones. Mesmo os deuses viris e celestes não estavam muito longe, o da Bíblia passeava-se pelos jardins do Éden, o Atem-Ra egípcio viveu no meio dos homens e só não envelhecia como eles porque era pleno de poder mágico.

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