simetria

A matrona já levava vinte e dois anos de trabalho na fábrica, e sempre a desempenhar a mesma tarefa: sentada defronte duma banda rolante duma linha de montagem, recebia os frascos que lhe chegavam da direita, e com uma ligeira pressão do dedo polegar da mão direita, fazia capsular a tampa plástica. Uma ligeira pressão multiplicada por milhares de horas de trabalho. Começou a sentir dores agudas no dedo polegar, que se tornaram insuportáveis. A mão estava deformada. Foi a uma junta médica e colocaram-na de baixa, para descansar a mão. Uns meses depois voltou ao activo e à mesma tarefa e, ao fim duma semana, as dores voltaram, ainda mais intensas do que antes.
O gerente da fábrica chamou-a ao gabinete, para tentar resolver o problema. Começou por tentar explicar-lhe as coisas com o recurso a uma parábola: "Tente imaginar um homem na rua que tenha só um braço. Todos reparam que ele só tem um braço porque o outro braço se agita com frenesi como se tivesse concentrada nele a energia dos dois. Ora, se esse homem, porventura, não tivesse nenhum dos dois braços, as pessoas quase nem reparariam naquela figura discreta com um casaco por cima dos ombros".
A sua proposta era a seguinte: iam sentá-la na margem oposta da banda rolante e, em vez de usar a mão direita, empregaria o dedo polegar da mão sinistra. Eventualmente, essa mão também se poderia deformar, mas, quanto mais essa mão ficasse deformada, mais equilibrada e harmoniosa ela se sentiria. E assim tudo ficaria solucionado, para contentamento de todos.

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