Rick Deckard

Um fugaz solavanco foi o sinal de que o ascensor chegara ao destino. Os dois saíram para o corredor, ele mais desembaraçado, com a agilidade da rotina de todos os dias, ela em câmera-lenta, com o torpor das suas hesitações. Eram colegas de trabalho e haviam concordado passar a tarde juntos, comer uma pizza e ir ao cinema. Primeiro tenho de ir a casa, dissera ele com um tom muito sério, mudar de sapatos e dar comida aos bichos. Chegaram à porta do apartamento.
- Espero aqui...
- Não queres entrar, bebes um drink enquanto esperas, porque vais ter de esperar um bocado
Apercebeu-se da ténue tensão no rosto dela, aquele não-sei-se-fico-não-sei-se-fujo.
"Não precisas ter medo. Conheces-me há anos e eu não te vou drogar nem violar. Podes beber uma cerveja ou um licor de uísque e, num momento, estamos despachados. Se quiseres um pouco de clorofórmio, também se arranja" - a piada para aligeirar o ambiente não surtiu efeito. Ele sorriu e entrou, deixando a porta entreaberta.
Ela encostou-se à parede do corredor. Sentiu que estava a fazer uma triste figura, não tinha motivos para o recear mas, ao mesmo tempo, já tivera algumas experiências desagradáveis com pessoas em quem julgara poder confiar por inteiro. Como ele se demorasse, esqueceu os receios e entrou. Um cheiro intenso e desagradável agrediu-lhe as narinas. O colega estava de gatas no chão da sala, a espreitar para baixo de um sofá.
- Qual é o perfume-ambiente que usas? Aroma de bosta de cavalo?
Ele riu-se com gosto.
- Animais de estimação...quando se tem, vive-se em função deles.
Ouviram um fragor contra uma das portas e ela assustou-se a valer.
- É o meu bichinho predilecto - explicou e, acto imediato, abriu a porta e deu passagem a um enorme cão São Bernardo.
Ela ficou incrédula e boquiaberta.
- Um São Bernardo...num apartamento. Isto é de loucos!
- Porquê?
- O teu apartamento é um apartamento, não interessa o tamanho. Um cão destes precisa de muito chão debaixo das patas, de espaços abertos e de correr e sentir o vento no focinho. Manteres aqui um animal destes é como se te obrigassem a viver dentro dum armário ou duma gaveta.
- Meu anjo - murmurou ele - eu também sou um animal e tenho na minha natureza a paixão contida pela vastidão e pela liberdade, também gostava de viver numa cabana nas montanhas como o avô da Heidi, ou ser marinheiro ou beduíno. Não vivo neste apartamento por prazer ou chamamento divino.
- Mesmo assim, acho isto muito bizarro - disse ela, afagando o pêlo do cão - sei que não tenho o direito de te dizer isto, mas não acho certo teres um animal destes aqui...
Ouviram um novo som vindo do interior da casa, o som de algo pesado a cair. Ele envergou uma expressão comprometida.
- O que é que foi agora? - perguntou ela - É um Grand Danois? Um elefante bebé?
- Não, nem por sombras. Além do cão, só tenho, à solta, uma osga e dois ouriços-cacheiro. A estes, já não os vejo há três dias e era o que eu procurava há pouco...
- E este barulho foi provocado pelos ouriços? Devem estar com o cio.
- Não propriamente. Também tenho uma cabra, desactivei a despensa e fiz um curral para ela. Não imaginas o bem que me faz à alma ter estes animais por perto...

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