Proustituta

Era tudo virtual, o nome e o nick, a foto e o currículo, as preferências e outras íntimas minudências. Conheceram-se num chat, e ronronaram como gatos, felizes por se terem descoberto. Ao fim de semanas de devassa e partilha, marcaram um encontro numa esplanada inocente a dois passos do Mosteiro dos Jerónimos. Iriam informalmente vestidos, vinculados por uma marca secreta para se reconhecerem. No dia agendado, sentaram-se os dois na esplanada, cada um por seu canto, dissimulados e estudando. Nenhum dos dois revelou o adereço com o óbvio arroba, porque se conheciam tão intimamente que não precisavam de artifícios. E, cada um à vez, lançou o isco. Ele, torto e tolhido, saiu da esplanada com uma loura altarrona, que até era prostituta, mas tinha cara de quem gostava de Proust. A sua amiga virtual, pequena e bailarina, saiu com o proxeneta da loura, que era o retrato vivo de quem procurava: alto, elegante e bem perfumado, e com uns olhinhos melosos de quem vive para amar os versos do mundo.

1 comentário:

  1. Anónimo09:41:00

    Virtualidades ...
    Um mundo onde cada um se diz como gostaria de ser, sem o ser realmente.
    Até onde nos leva a fantasia...

    ResponderEliminar

arenga sobre o amor

«Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza /Corrói minha carne como um ácido! Teu signo / É o da destruição! Nada resta / Depois de ti ...