quasímodo

É espantoso o que os adereços de teatro conseguem fazer por um homem. Quem o visse na rua, certamente que se impressionaria com o seu triste aspecto mas, no palco, deixava ao Sol a sua pele de barata e metamorfoseava-se. Uma cinta apertadíssima disfarçava a barriga e endireitava um pouco a corcova, quatro ou cinco camadas de maquilhagem ocultavam as bexigas e as cicatrizes nas orelhas e nas maçãs do rosto, outras tantas, a costura na maçã de Adão. O nariz torto ficava bem sobre uma máscara para os olhos, e roupas largas e enfunadas não deixavam suspeitar das suas pernas atrofiadas e do seu ventre com as tripas a quererem romper uma pele finíssima como um véu. Quando subia para o palco, tornava-se o rei-Sol, e a sua alegria era tanta que voava sobre a cena, suspenso de um cabo oculto. Enquanto a peça se manteve em cena, foi feliz, não obstante uma ou duas cargas de pancada com que o mimaram quando tentava fugir do teatro com a sua nova pele em cima.

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