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poupando palavras

Desde a infância habituou-se a ter amigos imaginários que tornavam inimaginável a solidão. Quando fez cinquenta anos, convidou-os a todos para a festa de aniversário e lotou um salão de banquetes.


Habituou-se a engolir as palavras, a não manifestar revolta ou desacordo, a não dizer nada de que se pudesse arrepender, ou criar inimigos que não conseguisse enfrentar. Sofria agressões e insultos, mas em silêncio, com as palavras sufocadas no seu estômago a agudizar a náusea que tudo lhe despertava.


Foi deixando gradualmente de escrever para poupar palavras, entesourando-as com desvelo no porquinho-mealheiro. Queria escrever com elas um romance, uma obra maior. Quando, finalmente, o romance conheceu a luz do dia, os editores contactados consideraram-no uma porcaria.

1 comentário:

  1. Anónimo13:40:00

    Isto, tinha de escrever. Já vivi assim, engolindo um sapo atrás doutro até arrebentar. Mas as merdas que vivemos, vivemos por medo ou estupidez. Pode-se,sempre,escolher

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