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Carisma

“Venham, vamos fumar um cigarro enquanto as cervejas ainda estão frescas” - exortou um dos companheiros. Deixou-se ficar enquanto eles se encaminhavam para o topo da carruagem do comboio. Até era bom ficar sozinho, os outros estavam a fazer muito barulho e isso podia não cair bem. Desde o início da viagem que ele convergia toda a sua atenção para uma passageira isolada que lia atentamente um jornal, sublinhando nele passagens com uma caneta. Não deveria ter mais de vinte anos, trajava uma blusa de veludo negro e umas calças roxas de Lycra. Os cabelos, de um castanho brilhante, caíam-lhe sobre o peito. Apreciava sobretudo nela o recorte firme dos seios que se adivinhava sobre a blusa e os lábios carnudos e perfeitos.
Levantou-se com um propósito fixo. Aproximou-se lentamente dela até conseguir espiolhar o jornal por cima do seu ombro. As folhas em que ela tanto escrevia, eram de um suplemento de Economia de um semanário.
- Viva - exclamou ao seu lado, fazendo-a sobressaltar-se - como é que estão as tuas cotações hoje?
Ela arregalou os olhos, como se não soubesse que atitude tomar perante aquele rosto sardento, rasgado por um sorriso sardónico.
- Não possuo acções - elucidou ela com enfado - estou a tirar Economia e é como se estivesse a estudar.
- Jura?! - Exclamou, sentando-se depressa à sua frente - você sabe que eu sempre quis encontrar alguém que percebesse de Economia para lhe fazer umas perguntas. Até te podem servir para fazeres revisões... por exemplo...tu sabes o que é um take-over ?
- Sei o que é um take-over...
- Prontos, acertaste nessa! - Interrompeu-a - e agora, és capaz de me explicar como é que tu fazes para especular com acções.

- Não é fácil de explicar assim à primeira. Seria muito demorado e você não ficaria a perceber nada.
- Eu tenho tempo - protestou - este comboio ainda tem umas quatro horas de viagem pela frente.
- Eu prefiro continuar a estudar como antes - insistiu ela.
Calaram-se os dois. Ela fingiu-se concentrada no teor do jornal, na esperança dele ir-se embora. Aquele homem metia-lhe nojo, tinha o lábio inferior fendido a meio e a saliva ia-se acumulando ali como na face côncava de uma folha - quando ele abria e fechava a boca para falar espalhava pelo ar miríades de perdigotos reluzentes.
- Não me disseste ainda o teu nome. Eu chamo-me Armando.
- Rosa - retribuiu ela.
Ele levantou-se num repente e foi até ao seu lugar na carruagem. Pegou em três jornais que os seus companheiros tinham comprado e foi entregar-lhos.
- Dou-tos todos - disse a cuspinhar, com uma expressão alegre - já os li e têm informações sobre Economia que davam para escreveres uma tese. Não me agradeças, Rosa - continuou - eu quero que vás em frente, ouviste, vai em força. Eu sei que tu és capaz e que no futuro vais ser uma grande economista, com Nobel e tudo.
- Obrigado - agradeceu ela, tentando ignorar a saliva que continuava a cair à sua volta.
Armando bateu em retirada e juntou-se aos companheiros. A indiferença de Rosa desarmara-o por completo e já não tinha nada para falar. Aquela conversa fora-se desfazendo à medida que avançava como se estivesse minada pela lepra.
Os amigos estavam animados, a conversar e a beber pelas latas de cerveja. Tirou também uma da mochila, com os olhos fixos na cabeleira da jovem que emergia da cabeceira do banco
- O Armando está apanhado – disparou um deles - porque é que não vais lá e dás uma tanga bem dada à gaja ? - e prosseguiu, explicando aos outros - o Armando é um perito, não há como ele para dar a volta a uma mulher, um bocado de conversa, umas piadas e elas ficam logo todas maradas”.
Naquele momento Armando não estava muito seguro dos seus atributos mas a pressão dos outros associada à sua vaidade ferida deu o empurrão definitivo.
Vou ter com ela - anunciou - vou preparar o terreno, vai ser como aquecer o forno para em seguida meter o pão - os outros riram-se da imagem e Armando lançou-se destemido pela carruagem, carregado de energia como um dínamo - Oi ! - Cumprimentou, sentando-se novamente diante dela - já estudaste muito ?.
Ela meneou a cabeça, sem olhar para ele. Tinha a perna esquerda traçada sobre a outra, com o sapato a baloiçar com as oscilações da carruagem. Determinado, ele segurou-lhe o jornal com dois dedos, tirou-o da frente dos olhos e prendeu uma das suas mãos com firmeza, enquanto cravava nela um dos seus olhares irresistíveis. Ainda ela não estava refeita da surpresa, já ele afagava a sua coxa com a mão aberta e pesada.
- A tua teimosia magoa-me - queixou-se ele, originando um novo chuveirinho de perdigotos - para que é que vamos continuar a viagem como dois estranhos se podemos passar o resto do tempo no mel e no romance ?
Ele levantou-se para se sentar ao seu lado e naquele instante ela flectiu com raiva o joelho e enterrou a biqueira do sapato no meio das suas pernas. Armando abriu muito a boca e caiu para trás com as mãos agarradas às partes. Uma dor aguda trespassava-o e fez um esforço enorme para não gritar, com o rosto transformado numa máscara de dor. A jovem aproximou-se dele e murmurou: “Se quiseres mais desse mel, é só pedires”. Armando fulminou-a com um olhar de ódio mas continuou a contorcer-se de dor, até esta diminuir um pouco. Ela retomara a leitura do jornal, com um ricto trocista nos lábios. Armando levantou-se e arrastou-se com dificuldade até ao seu lugar. Dava pequenos passinhos titubeantes com o pescoço e a cabeça esticados para a janela do comboio, como se a lentidão dos seus movimentos se devesse a algum pormenor insólito na noite cerrada do exterior.
Acomodou-se na posição que lhe pareceu menos dolorosa, com as pernas esticadas e o corpo torcido assente nos quadris. Os companheiros não tardaram a reunir-se a ele. Sentaram-se à sua volta na expectativa de um relato.
- Estou com uma moleza dos diabos. Acho que vou ficar assim e tentar dormir um bocado - explicou-se para tentar justificar a sua pose acrobática.
- A gente quer é saber da fêmea. Como é que correram as coisas?
Armando pigarreou, enquanto tentava avaliar se ela conseguia ouvir as suas palavras.
- A miúda é uma reprimida - sentenciou num quase-sussurro - aquele tipo de mulher que mata-se a pensar nas coisas que sente necessidade de fazer. Vocês deveriam ter visto. Ela estava a arder de desejo por mim, mas preferiu andar a fugir com desculpas estúpidas. Este tipo de mulher é um desperdício de tempo, nem merece a saliva que um homem gasta com elas.

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