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ouroborus

Há quem se lamente por lhe faltar um pai, a Teresa teve-os de sobra. Quando o pai, o seu, o de sangue, morreu, ela só guardou dele uma impressão vaga, que se dissipou nos anos seguintes, reduzida a episódios nebulosos que podiam ser reais ou meras ficções da sua memória, construídas sobre outras figuras masculinas desse ontem distante. À medida que crescia, a mãe tratou de substitui-lo. Foi trazendo outros homens para casa. Ficavam aí uma noite ou uma semana, por vezes meses. Ouvia-os no quarto ou cruzava-se com eles pela casa, conheceu-os de todas as idades e figuras, arrastando-se em tronco nu a fumar, comendo na cozinha ou esparramados no sofá grande da sala. Quando chegavam, se chegavam cedo, a mãe trazia a menina à presença do novo namorado e apresentava-o: este é o fulano de tal, podes chamar-lhe pai, se quiseres. Foram muitos pais e muitos nomes, às vezes, nem a mãe lhes conhecia o nome e apresentava-os como um amigo da mãe, recomendando-lhe a treta do pai antes de se enfiar com ele a correr no quarto para a foda da ordem. Com tantos pais, houve um que a magoou, magoou a sério e continuadamente. Apoderava-se dela mal a mãe saía de casa e brutalizava o seu corpo de menina, pisando-a e rasgando-a sem que ela conseguisse fazer outra coisa senão sofrer e chorar, aprendendo na sua impotência a ter nojo e ódio daquele homem que a sujeitava pela força aos seus jogos, tresandando a perfume de lavanda mesclado com suor. De todos os pais que lhe foram apresentados, foi aquele que a marcou para sempre. Nunca mais se sentiu segura e nunca confiou em mais homem algum. Era na amizade e no afecto das mulheres que se refugiava e foi em torno delas que a sua sexualidade desabrochou, sem ameaças nem violência. Por coerência, a sua primeira grande relação heterossexual foi com um homem ruivo de aspecto frágil, que tinha algo de graça feminil. Começou como uma mera amizade, mas ela sentiu-se cativada pela sua doçura e meiguice, parecia-lhe surreal que um homem pudesse ser assim, e ser-lhe devotada com tanta paixão. Foram viver juntos, e ela sempre com aquela reserva íntima que ele pudesse mudar para pior; mas todos os seus receios se revelaram infundados. A dedicação e o amor dele só pareciam poder crescer, e à medida que começavam a fazer planos para o futuro, foi ele que decidiu que o futuro comum tinha de passar por um grande passo, solene e definitivo. Comprou-lhe um anel e levou-a a jantar fora, tudo muito cinematográfico e romântico, com flores e música ambiente. A meio do jantar, ela percebeu que não era apenas mais um jantar a dois, que ali havia coisa. Ele parecia um pouco tenso, inseguro, mas arrepiou caminho. Tirou da algibeira do casaco a caixa do anel e estendeu-lhe, com uma dedicatória: "Gostava que fosses minha mulher, quero ser teu marido e pai dos teus filhos. Casas-te comigo?". A resposta foi súbita e inesperada, ela empunhou o garfo e espetou-o com força na sua mão aberta, cravando-a ao tampo da mesa. "Cheiras a lavanda" - disse ela, e repetiu uma e outra vez - "Cheiras a lavanda". Como se isso explicasse tudo e pudesse anular a dor na expressão dele.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...