Mito rural

No lugar onde queria construir a casa nova, havia um poço. Um poço era um caso sério para se conseguir autorização para construir. Os tipos implicavam, mas o Moreira não desistiu. Estava reformado, trabalhara a vida toda nos States, e decidiu investir umas centenas de dólas para conseguir a licença. E assim foi. Para prosperidade dalguns incorruptíveis funcionários da autarquia, construiu a sua casa mesmo por cima do poço. Uma cave larga semi-subterrânea com janelinhas pequenas para a rua, e dois pisos por cima. O poço ficou no meio da cave. A mulher queria que ele o tapasse, mas qual quê! Mandou fazer uma estrutura em ferro forjado para o embelezar, de onde pendia uma roldana com balde. Ao topo da cave, mandou carpinteirar um bar em estilo rústico, e junto a ele, instalou uma garrafeira e uma mesa de jogo onde reunir os amigos. Estava tudo perfeito, uns quadros de cenas de caça completavam o cenário. Quando a sua casa e a sua acarinhada cave estavam prontas, ocorreram as cheias. Um Inverno demasiado pluvioso, levou os rios a galgarem as margens e inundar os campos. A casa estava construída num cômoro no meio dos campos, mas aquele poço era uma artéria do lençol freático subterrâneo. Para desespero do casal, viram a cave ser inundada. Desligaram os comutadores de electricidade e assistiram angustiados à subida do nível da água, que avaliavam pelos degraus da escada. Felizmente, que a cave não era estanque e, atingida a altura das janelinhas, a água suplementar escoou-se para a rua. Menos mal. A cave permaneceu cheia de água durante quase uma semana e quando viram que a água começava a baixar, o Moreira fez passar os tubos de polietileno pelas janelas da cave e drenou-a com electro-bombas. Depois de horas de trabalho intenso, e ainda com o som dos motores a ressoar-lhe no ouvido, o Moreira decidiu descer para avaliar os estragos. Instalou um projector de halogéneo no topo das escadas e desceu-as cautelosamente. Mas o que o chocou em primeiro lugar não foi os estragos causados pela água: por toda a cave, brilhando sob a luz do projector, havia dezenas de ossos humanos emergindo da água rasa como alvas aparições, costelas, tíbias, crânios, largas e espalmadas bacias - dramas antigos reavivados pela água.

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