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A geração de ouro



Desde os meus primeiros tempos naquela firma de representações, que uma das pessoas mais afáveis e simpáticas que aí encontrei foi um contabilista chamado Mário. Ele era um quarentão bem entrado, calvo e bonacheirão, de patilhas compridas e bigode fino bem aparado. Sempre de bom-humor, passava a vida a pregar partidas aos outros, a brincar e a contar anedotas, e mesmo os eventos do quotidiano tornavam-se diferentes quando ele os interpretava com a sua ironia oportuna e mordaz. Devido ao seu feitio a minha amizade pelo contabilista foi-se desenvolvendo naturalmente, e a boa disposição tornou-se o liame que nos aproximava, anulando os vinte anos que nos separavam na idade. Uma ou duas vezes por mês passamos a dedicar umas horas ao bilhar. Depois de comer qualquer coisa à saída do serviço, íamos até uma sala de jogos próxima onde disputávamos um mini-torneio de bilhar às três tabelas, sob uma nuvem de fumo de tabaco e rodeados de conhecidos de ocasião.
À medida que o nosso convívio se foi tornando mais aberto, Mário fazia por vezes alusões à sua vida pessoal com um certo sarcasmo. Quando lhe perguntei se tinha filhos, negou atribuindo as culpas à esposa, afirmando que ela era tão estéril como o leito seco de um rio, e tão feia que seria assustador ter dela alguma descendência e, noutra altura, chegou a classificá-la como uma máquina de cozinhar e lavar de baixo consumo de electricidade. Como nunca senti pelas pessoas aquele tipo de curiosidade patológica que consome metade da humanidade, nunca dei muita importância a essas piadas do Mário, que acolhia com naturalidade, ainda que de uma forma prudente.
A princípio os nossos serões de bilhar foram francamente divertidos, uma evasão descontraída à rotina diária, mas com o correr do tempo surgiu uma rotina subsequente, mais desgastante - eu e Mário passamos a discutir de cada vez que desaguavamos na sala de jogos, e essas discussões partiam sempre dele e motivadas pelo mesmo tema: Mário considerava inflexivelmente que a geração à qual eu pertencia não tinha ponta que se lhe pegasse, nenhum entusiasmo, ideal, herói ou valor. Tudo o que surgia no momento actual emanava de pessoas de gerações anteriores, ou resultava de uma pobre reciclagem de antigas obras e descobertas. Aquele era um preconceito que eu não conseguia desfazer, contrapunha argumentos, nomes, exemplos, mas Mário não cedia. A sua geração é que fora notável e original, desenvolvera a literatura, as artes e as ciências a uma escala tal que permitia a sobrevivência nos nossos dias de um exército de continuadores desavergonhados que recorriam ao plágio para compensarem a sua completa ausência de talento e imaginação.
"A culpa não é vossa, vocês estão mentalmente embotados. É a carne com hormonas, os produtos químicos, a poluição, e o buraco no ozono. Estão a ficar de tal maneira contaminados que começaram já a regredir para a total extinção do pensamento. Vocês são já a geração da mediocridade e do consumismo, vivem para estar saciados e cheios de certezas, nem que isso signifique dançarem como fantoches ao som da publicidade e das modas. De uma ponta à outra agem como mansos animais domésticos, sem vontade própria nem chama interior ".
De todas as vezes que discutíamos, Mário expunha novos argumentos, colhidos na leitura dos jornais ou nos noticiários da televisão. Debatíamos o tema até nos sentirmos cansados, e então a nossa conversa derivava para terra-de-ninguém, entretecendo-se com casualidades e histórias pessoais. Aquelas discussões, se não tinham nenhum desenlace positivo, tinham pelo menos o mérito de nos fazer jogar bilhar de uma forma aguerrida, procurando nós na arena verde, um diferente ascendente para o conflito de gerações.
Aquelas breves discussões com Mário ficavam-me sempre atravessadas, e prolongavam os seus efeitos para fora da sala de jogos. De cada vez que me punha a pensar nisso, irritava-me que ele pudesse ser tão estreito de pensamento, arrogando-se de pertencer a uma geração de heróis e de génios que condensava toda a cultura de séculos e na qual se tinha detido a marcha da humanidade. Decidido a desfazer aquela generalização abusiva, consegui impingir-lhe um livro de poemas e uma peça de teatro escritas por autores da minha geração e que eu conhecia pessoalmente, e ainda me dei ao trabalho de lhe alugar um filme vídeo que fora realizado por uma muito jovem cineasta francesa. Mário, um tanto admirado com o gesto, prometeu que ia estudar cuidadosamente aqueles exemplares, não se coibindo no entanto de afirmar que eram livros como aqueles que estavam a destruir desnecessariamente a Amazónia.
Esperei com uma certa impaciência pela reacção dele, mas como ela não surgisse, tive de ser eu a perguntar-lhe a opinião. Mário pediu-me calma, porque estava a formulá-la criteriosamente, e referiu-me a propósito que a esposa mostrara um vivo interesse pelas obras emprestadas, e que insistira com Mário para que ele me convidasse para jantar em casa deles.
Aceitei o convite, e no dia combinado, seguindo o croquis que ele fizera e consegui chega ao seu apartamento, situado num prédio antigo da periferia. Mário abriu-me a porta e fez-me entrar na sala, enquanto chamava pela mulher, que andava atarefada na cozinha. Ela apareceu de seguida e estendeu-me a mão, enquanto o marido se encarregava das apresentações. Era muito mais nova do que ele, magra e alta, com uma cara estreita e cabelos castanhos soltos. A primeira impressão que tive dela foi a de uma pessoa calma e segura com gestos comedidos e estudados, era muito atraente e na sua fisionomia transparecia uma altivez natural. Não havia maneira de a associar às alusões depreciativas do marido.
Ela regressou à cozinha mas manteve-se no nosso campo de visão, porque a parede entre os dois compartimentos era aberta toda ao comprido como uma janela. Mário serviu-me um uísque, e adiantou-me que já descobrira traços seguros do " Sentimento de um Ocidental " de Cesário Verde num dos poemas do livro que lhe emprestara. "Se eu tivesse uma equipa de trabalho sob as minhas ordens, iria desencantar a matriz de todos os outros poemas. São só plágios, meu amigo, tudo plágios. Embrulham os textos originais com umas coisitas modernas e um vocabulário actualizado, mas a raiz vem sempre ao de cima, e essa raiz não há ervas-daninhas que a consigam esconder".
Ela chamou-nos, e sentamo-nos os três à mesa da cozinha. A comida bem confeccionada e o vinho serviram de suporte para uma conversa amena e despreocupada, que girou em torno de peripécias do nosso local de trabalho. Ela assumiu espontaneamente um domínio discreto, guiando o curso da conversa, e satisfazendo a sua curiosidade sobre mim com perguntas inteligentes e quase casuais.
Quando nos levantamos da mesa, ela sugeriu ao marido que fizesse o café enquanto nós nos instalávamos. Passamos à sala contígua, e ela ligou a televisão, reduzindo um pouco a luz do candeeiro de halogéneo. Mário aparecia na abertura da parede, como se estivesse enquadrado na tela iluminada de um cinema.
- Você sente estima pelo meu marido? - Perguntou ela brandamente.
- O Mário é uma pessoa jovial e bem disposta, o tipo de carácter que marca a diferença num ambiente de trabalho. Se em vez de um, tivéssemos dez Mários, a hora de entrada ao serviço seria menos penosa.
- Ele falou-me ao de leve no vosso desacordo. O senhor parece levar isso muito a peito.
- É uma teimosia para ambos os lados, um pouco como se travássemos discussões sobre futebol. Nada de dramático.
Ela sorriu com gosto. Tinha os dedos das mãos entrelaçados sobre os joelhos, e exibia uma expressão misteriosa e divertida.
- Vou dar-lhe um conselho de amiga: você não precisa convencê-lo daquilo que ele já sabe. O Mário canta hinos à sua própria geração e esconde-se atrás deles. Porque ele tem problemas com a idade, e além do mais ele não é nenhum modelo de perfeição, e você já deve ter ouvido piadas a esse respeito.
- Não - neguei - desconheço completamente...
- Seja. Mas você vai acabar por ouvi-los, porque é uma anedota que circula por aí. O Mário possui uma tara peculiar, ele gosta de se exibir completamente nu para mulheres desconhecidas. É como uma figura de cartoon, anda com uma gabardina ou um sobretudo a exibir o seu órgão precioso nas escadas e elevadores dos prédios, só assim é que ele se sente sexualmente excitado.
Eu devo ter parecido muito incrédulo, porque ela aproximou-se mais e insistiu.
- O que eu lhe estou a contar é a pura verdade. O azar do meu marido começou quando se lembrou de se exibir para uma amiga minha de muitos anos. Eu e ele discutimos bastante, e acabamos por estabelecer um pacto, eu não me oporia às suas brincadeiras, mas ele teria que deslocar-se a outros lugares e cidades para as pôr em prática. Quando vocês iniciaram as partidas de bilhar, eu estava convencida de que era mais um álibi para as viagenzinhas do Mário. Só passei a acreditar nele, depois de ver os livros e o filme que você lhe emprestou.
- E foi aí que pediu ao Mário para me convidar...
- Foi a curiosidade - admitiu - eu admirava-me que ainda existisse alguém que conseguisse sentir amizade ou admiração por ele, porque nós os dois já há muito que perdemos o respeito um pelo outro, e depois desse incidente com a minha amiga passei a sentir um verdadeiro asco pela sua presença.
Ouvimos o tilintar das peças de louça e Mário entrou com o tabuleiro com o açucareiro e as chávenas. Dobrara um guardanapo de linho sobre o braço, e movia-se com gestos rígidos e teatrais. Regressou à cozinha para ir buscar o café, e a esposa murmurou-me:
- Telefone-me, o senhor é um encanto de pessoa e eu gostava de ir para a cama consigo.
Quando Mário voltou, vinha a cofiar o bigode, trauteando alegremente o que pretendia ser o trecho duma ária. Não pareceu ter reparado na mão dela, ainda pousada no meu joelho, ou na minha expressão de pasmo.
- Então, de que falavam? - Perguntou, enquanto enchia as chávenas.
- Estava a explicar ao teu amigo que tu tens razão nalgumas coisas, marido, os jovens na casa dos vinte perderam muitas coisas preciosas que mesmo a mim me foi dado conhecer, como o romantismo e o sentido do lar.
- É o que eu lhe tenho andado a dizer todos os dias - troou Mário com entusiasmo - a juventude de hoje constitui família como quem subscreve uma revista, e constrói lares que parecem albergues. Já nem mesmo existe paixão, sangue nas veias, a geração que se seguir à deles só se deve conseguir reproduzir por inseminação artificial.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...