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Bichanos

Recebi um mail alusivo ao meu post anterior, no qual a remetente, um pouco irritada, faz uma apologia dos gatos, que considera e cito: "o gato é o verdadeiro animal de companhia, são ternos, dedicados, e ajudam-nos a reencontrar o equilíbrio...". Nada a opor. O texto que motivou esta reacção era uma historiazita e não o princípio duma guerra santa contra os gatos. Pessoalmente, acho que as pessoas, em geral, são mais pessoas de gatos ou mais pessoas de cães, e isso tem a ver com a sua natureza e com aquilo que lidaram enquanto cresciam. Eu talvez seja mais pessoa de cães e nisso pesa a circunstância de, na minha infância e princípio da adolescência, a minha família chegar a ter quatro e cinco cães de uma só vez, entre eles o Lord e o Vinte-e-Sete referidos no post anterior. O primeiro era um cão vadio que ficou connosco e já devia ter trazer a sua dose de pancada, porque tinha tanto medo que dava pena, a mim, no entanto, não estranhava e seguia-me por todo o lado, o que era um problema quando brincávamos à cóboiada com os rapazes das vizinhanças, porque todos ficavam a saber onde eu andava escondido. O Vinte-e-Sete foi um caso aparte, a minha família conta que eu, com três e quatro anos, subia para a garupa dele como de um pónei e ele vagueava pelo quintal comigo abraçado ao pescoço. Quando morreu, eu e os meus irmãos choramos a sua morte como se tivesse desaparecido uma pessoa de família.
Dos gatos, tenho impressões vagas e distantes. O único com quem lidei de perto, era uma gata, o tal Bichano e pertencia à minha avó paterna. Recordo que saía abruptamente de debaixo de móveis para cruzar os nossos passos e roçar-se pelas pernas, o que quase nos fazia tropeçar. Era uma gata gorda e com humores. A um tio meu, talvez em resposta a alguns mimos antigos, assanhava-se mal o via: aproximava as patas traseiras e dianteiras com o corpo em arco e o pêlo eriçado, chiando enquanto ele estivesse por perto. O que eu achava piada nela era o entendimento que mantinha com a minha avó. A minha avó tinha uma cozinha das antigas, com uma chaminé larga alpendrada, sob a qual, num balcão à altura da cintura, coberto de mosaicos, se podia cozinhar com lenha. Era ali que ela preparava a comida para os animais, em tachos velhos e negros assentes numa grelha apoiada em duas pedras que saíam da parede. Enquanto ela cozinhava, a gata andava por ali, rondando impaciente, esperando a sua hora, por vezes, saltando para cima do balcão, donde a minha avó a enxotava. Quando o tacho era retirado, a minha avó deixava o brasido a arder. A gata subia então para o balcão, procurava um lugar o mais próximo possível das brasas e procedia a uma operação de limpeza, afastando com a pata, em movimentos rápidos, uma ou outra brasa que ali tivesse ficado. Quando se dava por satisfeita, enroscava-se na pedra aquecida e não saía dali enquanto sentisse calor. A minha avó, numa cúmplice colaboração, levava-lhe a comida que deixava ao pé da sua cabeça, e assim seguiam as duas, felizes por se terem uma à outra.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...