Berloque Holmes

O arqueólogo chegou à aldeia. Era Verão, época de caça dos arqueólogos. Esperava-o o padre, o presidente da Junta e o senhor professor, que nas terras perdidas no cu de Judas, são eles que detém a tutela do conhecimento. Ao que vinha? Um achado, doutor, clamava cada um à vez, acharam um achado e era bom o senhor doutor ver. E lá o mostraram, briosos do tesouro que a sua aldeia esquecida possuía agora: sob o chão levantado duma casa antiga, um túmulo, um esqueleto de quase dois metros rodeado de artefactos: pedaços de louça, duas achas de pedra polida, uma garrafa vazia de Coca-Cola entre os dedos da mão, restos de corda entrançada preservados pela lama. O homem calçou luvas, para não contaminar o esqueleto, que podia ser de fraca saúde. Estudou os artefactos, pôs um dedo no ar para ver de que lado vinha o vento, esgravatou a terra, colheu amostras. Depois, muito pesaroso, anunciou: este achado é uma fraude, não é do Neolítico, não pode ser, a minha extensa experiência diz-me que estes cacos são modernos, vou precisar de provas laboratoriais de termoluminescência, mas estou convencido de que é louça das Caldas.

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