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É só isto que eu gosto de fazer: escrever umas merdas. Não tenho gosto nem jeito para muitas mais coisas, sou um ser social eminentemente desastrado e não tenho aptidão para o comércio de influências ou para as feiras de simpatia. Sou um bronco, e escrevo umas merdas, e até nem sou muito mal pago por isso. Dão-me dinheiro e alojamento e, por vezes, subsídio de risco.
Os meus clientes são, quase sempre, políticos. Andei muitos anos em comitivas presidenciais, arranjavam-me um lugarzinho na bagageira de uma limusina ou no assento detrás duma carrinha SportWagon, munia-me do meu portátil e, todo encolhido, ia escrevendo uns discursos para o momento. Estes eram quase sempre iguais, um pouco de retórica e umas achegas suaves aos temas quentes do momento, tudo numa linguagem acessível onde as figuras de estilo eram substituídas por citações de figuras com estilo que toda a gente conhecia, como Rimbaud e Diderot, Montesquieu e Dideu.
Mas não era um emprego bem pago, pelo que troquei o Presidente da República por um embaixador e segui-o para várias partes do mundo. No Dubai, entrei no primeiro hotel de sete estrelas do mundo, não só entrei, passeei garboso pelo átrio e fui ao bar beber um café por setenta dólares, que eram bem empregues porque o café sabia a nafta. Na Turquia, mandava-me comprar droga para as suas festas, que eu cumpria com diligência porque era um trabalho de tanta responsabilidade, que nenhum dos outros elementos do corpo diplomático queria cumprir. Escrevia os seus discursos e intervenções, mas também fazia de sósia dele quando era preciso sair à rua em Bilbau ou Sarajevo. Depois de anos de serviço leal, estacionamos em Paris. Tinha decidido que aquela era a minha última comissão fora do meu país, e o embaixador, para me homenagear, convidou-me a ir com ele a uma festa de beneficiência que reunia os diplomatas de todas as embaixadas e consulados sediados em Paris, e era uma festa ao estilo Versailles, com roupas e comida da época. Ainda estive para perguntar se lá também ia haver belas mulheres nuas, como no filme com o Tom Cruise, mas não quis que ele pensasse que estava a desdenhar o seu generoso oferecimento, e aceitei. Tinha o dever de aceitar, o diplomata ia providenciar-me a tal roupa da época, e confidenciou-me que eu ia trabalhar por uma boa causa. Sim, porque, não sendo diplomata, só podia garantir a minha presença na festa se eu estivesse disposto a trabalhar um pouco.
A noite da festa foi uma coisa impressionante, parecia um regresso ao passado, um palácio com salões de lustres gigantescos, e as pessoas pavoneando-se nas suas roupas brilhantes e rendilhadas, transpirando sob perucas brancas de rolos. A minha aparência também não estava muito má, uma roupa de criado de libré, peruca e maquilhagem. Estava outro. Quando começaram a destinar tarefas, colocaram-me um avental à frente. Um avental? Cozinha? Serviço às mesas? Não! Ainda me faltava um adereço: um escarrador. A minha função era fazer circular um escarrador por entre os convivas, que aliviavam nele a gosma com aroma de vinhos generosos e tabaco ácido. Foi a homenagem mais linda que alguém me fez.

2 comentários:

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...