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A geração de ouro



Desde os meus primeiros tempos naquela firma de representações, que uma das pessoas mais afáveis e simpáticas que aí encontrei foi um contabilista chamado Mário. Ele era um quarentão bem entrado, calvo e bonacheirão, de patilhas compridas e bigode fino bem aparado. Sempre de bom-humor, passava a vida a pregar partidas aos outros, a brincar e a contar anedotas, e mesmo os eventos do quotidiano tornavam-se diferentes quando ele os interpretava com a sua ironia oportuna e mordaz. Devido ao seu feitio a minha amizade pelo contabilista foi-se desenvolvendo naturalmente, e a boa disposição tornou-se o liame que nos aproximava, anulando os vinte anos que nos separavam na idade. Uma ou duas vezes por mês passamos a dedicar umas horas ao bilhar. Depois de comer qualquer coisa à saída do serviço, íamos até uma sala de jogos próxima onde disputávamos um mini-torneio de bilhar às três tabelas, sob uma nuvem de fumo de tabaco e rodeados de conhecidos de ocasião.
À medida que o nosso convívio se foi tornando mais aberto, Mário fazia por vezes alusões à sua vida pessoal com um certo sarcasmo. Quando lhe perguntei se tinha filhos, negou atribuindo as culpas à esposa, afirmando que ela era tão estéril como o leito seco de um rio, e tão feia que seria assustador ter dela alguma descendência e, noutra altura, chegou a classificá-la como uma máquina de cozinhar e lavar de baixo consumo de electricidade. Como nunca senti pelas pessoas aquele tipo de curiosidade patológica que consome metade da humanidade, nunca dei muita importância a essas piadas do Mário, que acolhia com naturalidade, ainda que de uma forma prudente.
A princípio os nossos serões de bilhar foram francamente divertidos, uma evasão descontraída à rotina diária, mas com o correr do tempo surgiu uma rotina subsequente, mais desgastante - eu e Mário passamos a discutir de cada vez que desaguavamos na sala de jogos, e essas discussões partiam sempre dele e motivadas pelo mesmo tema: Mário considerava inflexivelmente que a geração à qual eu pertencia não tinha ponta que se lhe pegasse, nenhum entusiasmo, ideal, herói ou valor. Tudo o que surgia no momento actual emanava de pessoas de gerações anteriores, ou resultava de uma pobre reciclagem de antigas obras e descobertas. Aquele era um preconceito que eu não conseguia desfazer, contrapunha argumentos, nomes, exemplos, mas Mário não cedia. A sua geração é que fora notável e original, desenvolvera a literatura, as artes e as ciências a uma escala tal que permitia a sobrevivência nos nossos dias de um exército de continuadores desavergonhados que recorriam ao plágio para compensarem a sua completa ausência de talento e imaginação.
"A culpa não é vossa, vocês estão mentalmente embotados. É a carne com hormonas, os produtos químicos, a poluição, e o buraco no ozono. Estão a ficar de tal maneira contaminados que começaram já a regredir para a total extinção do pensamento. Vocês são já a geração da mediocridade e do consumismo, vivem para estar saciados e cheios de certezas, nem que isso signifique dançarem como fantoches ao som da publicidade e das modas. De uma ponta à outra agem como mansos animais domésticos, sem vontade própria nem chama interior ".
De todas as vezes que discutíamos, Mário expunha novos argumentos, colhidos na leitura dos jornais ou nos noticiários da televisão. Debatíamos o tema até nos sentirmos cansados, e então a nossa conversa derivava para terra-de-ninguém, entretecendo-se com casualidades e histórias pessoais. Aquelas discussões, se não tinham nenhum desenlace positivo, tinham pelo menos o mérito de nos fazer jogar bilhar de uma forma aguerrida, procurando nós na arena verde, um diferente ascendente para o conflito de gerações.
Aquelas breves discussões com Mário ficavam-me sempre atravessadas, e prolongavam os seus efeitos para fora da sala de jogos. De cada vez que me punha a pensar nisso, irritava-me que ele pudesse ser tão estreito de pensamento, arrogando-se de pertencer a uma geração de heróis e de génios que condensava toda a cultura de séculos e na qual se tinha detido a marcha da humanidade. Decidido a desfazer aquela generalização abusiva, consegui impingir-lhe um livro de poemas e uma peça de teatro escritas por autores da minha geração e que eu conhecia pessoalmente, e ainda me dei ao trabalho de lhe alugar um filme vídeo que fora realizado por uma muito jovem cineasta francesa. Mário, um tanto admirado com o gesto, prometeu que ia estudar cuidadosamente aqueles exemplares, não se coibindo no entanto de afirmar que eram livros como aqueles que estavam a destruir desnecessariamente a Amazónia.
Esperei com uma certa impaciência pela reacção dele, mas como ela não surgisse, tive de ser eu a perguntar-lhe a opinião. Mário pediu-me calma, porque estava a formulá-la criteriosamente, e referiu-me a propósito que a esposa mostrara um vivo interesse pelas obras emprestadas, e que insistira com Mário para que ele me convidasse para jantar em casa deles.
Aceitei o convite, e no dia combinado, seguindo o croquis que ele fizera e consegui chega ao seu apartamento, situado num prédio antigo da periferia. Mário abriu-me a porta e fez-me entrar na sala, enquanto chamava pela mulher, que andava atarefada na cozinha. Ela apareceu de seguida e estendeu-me a mão, enquanto o marido se encarregava das apresentações. Era muito mais nova do que ele, magra e alta, com uma cara estreita e cabelos castanhos soltos. A primeira impressão que tive dela foi a de uma pessoa calma e segura com gestos comedidos e estudados, era muito atraente e na sua fisionomia transparecia uma altivez natural. Não havia maneira de a associar às alusões depreciativas do marido.
Ela regressou à cozinha mas manteve-se no nosso campo de visão, porque a parede entre os dois compartimentos era aberta toda ao comprido como uma janela. Mário serviu-me um uísque, e adiantou-me que já descobrira traços seguros do " Sentimento de um Ocidental " de Cesário Verde num dos poemas do livro que lhe emprestara. "Se eu tivesse uma equipa de trabalho sob as minhas ordens, iria desencantar a matriz de todos os outros poemas. São só plágios, meu amigo, tudo plágios. Embrulham os textos originais com umas coisitas modernas e um vocabulário actualizado, mas a raiz vem sempre ao de cima, e essa raiz não há ervas-daninhas que a consigam esconder".
Ela chamou-nos, e sentamo-nos os três à mesa da cozinha. A comida bem confeccionada e o vinho serviram de suporte para uma conversa amena e despreocupada, que girou em torno de peripécias do nosso local de trabalho. Ela assumiu espontaneamente um domínio discreto, guiando o curso da conversa, e satisfazendo a sua curiosidade sobre mim com perguntas inteligentes e quase casuais.
Quando nos levantamos da mesa, ela sugeriu ao marido que fizesse o café enquanto nós nos instalávamos. Passamos à sala contígua, e ela ligou a televisão, reduzindo um pouco a luz do candeeiro de halogéneo. Mário aparecia na abertura da parede, como se estivesse enquadrado na tela iluminada de um cinema.
- Você sente estima pelo meu marido? - Perguntou ela brandamente.
- O Mário é uma pessoa jovial e bem disposta, o tipo de carácter que marca a diferença num ambiente de trabalho. Se em vez de um, tivéssemos dez Mários, a hora de entrada ao serviço seria menos penosa.
- Ele falou-me ao de leve no vosso desacordo. O senhor parece levar isso muito a peito.
- É uma teimosia para ambos os lados, um pouco como se travássemos discussões sobre futebol. Nada de dramático.
Ela sorriu com gosto. Tinha os dedos das mãos entrelaçados sobre os joelhos, e exibia uma expressão misteriosa e divertida.
- Vou dar-lhe um conselho de amiga: você não precisa convencê-lo daquilo que ele já sabe. O Mário canta hinos à sua própria geração e esconde-se atrás deles. Porque ele tem problemas com a idade, e além do mais ele não é nenhum modelo de perfeição, e você já deve ter ouvido piadas a esse respeito.
- Não - neguei - desconheço completamente...
- Seja. Mas você vai acabar por ouvi-los, porque é uma anedota que circula por aí. O Mário possui uma tara peculiar, ele gosta de se exibir completamente nu para mulheres desconhecidas. É como uma figura de cartoon, anda com uma gabardina ou um sobretudo a exibir o seu órgão precioso nas escadas e elevadores dos prédios, só assim é que ele se sente sexualmente excitado.
Eu devo ter parecido muito incrédulo, porque ela aproximou-se mais e insistiu.
- O que eu lhe estou a contar é a pura verdade. O azar do meu marido começou quando se lembrou de se exibir para uma amiga minha de muitos anos. Eu e ele discutimos bastante, e acabamos por estabelecer um pacto, eu não me oporia às suas brincadeiras, mas ele teria que deslocar-se a outros lugares e cidades para as pôr em prática. Quando vocês iniciaram as partidas de bilhar, eu estava convencida de que era mais um álibi para as viagenzinhas do Mário. Só passei a acreditar nele, depois de ver os livros e o filme que você lhe emprestou.
- E foi aí que pediu ao Mário para me convidar...
- Foi a curiosidade - admitiu - eu admirava-me que ainda existisse alguém que conseguisse sentir amizade ou admiração por ele, porque nós os dois já há muito que perdemos o respeito um pelo outro, e depois desse incidente com a minha amiga passei a sentir um verdadeiro asco pela sua presença.
Ouvimos o tilintar das peças de louça e Mário entrou com o tabuleiro com o açucareiro e as chávenas. Dobrara um guardanapo de linho sobre o braço, e movia-se com gestos rígidos e teatrais. Regressou à cozinha para ir buscar o café, e a esposa murmurou-me:
- Telefone-me, o senhor é um encanto de pessoa e eu gostava de ir para a cama consigo.
Quando Mário voltou, vinha a cofiar o bigode, trauteando alegremente o que pretendia ser o trecho duma ária. Não pareceu ter reparado na mão dela, ainda pousada no meu joelho, ou na minha expressão de pasmo.
- Então, de que falavam? - Perguntou, enquanto enchia as chávenas.
- Estava a explicar ao teu amigo que tu tens razão nalgumas coisas, marido, os jovens na casa dos vinte perderam muitas coisas preciosas que mesmo a mim me foi dado conhecer, como o romantismo e o sentido do lar.
- É o que eu lhe tenho andado a dizer todos os dias - troou Mário com entusiasmo - a juventude de hoje constitui família como quem subscreve uma revista, e constrói lares que parecem albergues. Já nem mesmo existe paixão, sangue nas veias, a geração que se seguir à deles só se deve conseguir reproduzir por inseminação artificial.

ouroborus

Há quem se lamente por lhe faltar um pai, a Teresa teve-os de sobra. Quando o pai, o seu, o de sangue, morreu, ela só guardou dele uma impressão vaga, que se dissipou nos anos seguintes, reduzida a episódios nebulosos que podiam ser reais ou meras ficções da sua memória, construídas sobre outras figuras masculinas desse ontem distante. À medida que crescia, a mãe tratou de substitui-lo. Foi trazendo outros homens para casa. Ficavam aí uma noite ou uma semana, por vezes meses. Ouvia-os no quarto ou cruzava-se com eles pela casa, conheceu-os de todas as idades e figuras, arrastando-se em tronco nu a fumar, comendo na cozinha ou esparramados no sofá grande da sala. Quando chegavam, se chegavam cedo, a mãe trazia a menina à presença do novo namorado e apresentava-o: este é o fulano de tal, podes chamar-lhe pai, se quiseres. Foram muitos pais e muitos nomes, às vezes, nem a mãe lhes conhecia o nome e apresentava-os como um amigo da mãe, recomendando-lhe a treta do pai antes de se enfiar com ele a correr no quarto para a foda da ordem. Com tantos pais, houve um que a magoou, magoou a sério e continuadamente. Apoderava-se dela mal a mãe saía de casa e brutalizava o seu corpo de menina, pisando-a e rasgando-a sem que ela conseguisse fazer outra coisa senão sofrer e chorar, aprendendo na sua impotência a ter nojo e ódio daquele homem que a sujeitava pela força aos seus jogos, tresandando a perfume de lavanda mesclado com suor. De todos os pais que lhe foram apresentados, foi aquele que a marcou para sempre. Nunca mais se sentiu segura e nunca confiou em mais homem algum. Era na amizade e no afecto das mulheres que se refugiava e foi em torno delas que a sua sexualidade desabrochou, sem ameaças nem violência. Por coerência, a sua primeira grande relação heterossexual foi com um homem ruivo de aspecto frágil, que tinha algo de graça feminil. Começou como uma mera amizade, mas ela sentiu-se cativada pela sua doçura e meiguice, parecia-lhe surreal que um homem pudesse ser assim, e ser-lhe devotada com tanta paixão. Foram viver juntos, e ela sempre com aquela reserva íntima que ele pudesse mudar para pior; mas todos os seus receios se revelaram infundados. A dedicação e o amor dele só pareciam poder crescer, e à medida que começavam a fazer planos para o futuro, foi ele que decidiu que o futuro comum tinha de passar por um grande passo, solene e definitivo. Comprou-lhe um anel e levou-a a jantar fora, tudo muito cinematográfico e romântico, com flores e música ambiente. A meio do jantar, ela percebeu que não era apenas mais um jantar a dois, que ali havia coisa. Ele parecia um pouco tenso, inseguro, mas arrepiou caminho. Tirou da algibeira do casaco a caixa do anel e estendeu-lhe, com uma dedicatória: "Gostava que fosses minha mulher, quero ser teu marido e pai dos teus filhos. Casas-te comigo?". A resposta foi súbita e inesperada, ela empunhou o garfo e espetou-o com força na sua mão aberta, cravando-a ao tampo da mesa. "Cheiras a lavanda" - disse ela, e repetiu uma e outra vez - "Cheiras a lavanda". Como se isso explicasse tudo e pudesse anular a dor na expressão dele.

Ampulheta

Esperou sempre por algo de novo numa arenosa melancolia, algo que surgisse na linha de água, que irrompesse na sua vida chã - uma aparição, uma ilha, milagre, tesouro, galeão. Na praia, foi sempre esperando, e na orla das ondas foi construindo coisas para o receber, castelos de areia e ancoradouros, labirintos e orbes. Quando a espera se transformou numa profunda tristeza mineral, ensandeceu.

os pássaros cantam

O misantropo revela um tropismo próprio: sente vontade de hibernar aos primeiros sinais de Primavera.

Para celebrar a Primavera...



...o pastor evangelista pediu a uma jovem obreira que usasse um soutien com flores, para que pudesse sentir nas mãos a milagrosa Primavera do Senhor.



...o sexagésimo sub-secretário do Ministro das Finanças trouxe uma gravata com andorinhas para o trabalho, para que ninguém dissesse que não acrescentava nada de novo ao executivo.



...decidiu rejuvenescer-se um pouco mais e foi submetida à sua quadragésima quinta operação plástica, precisamente aquela que teve o condão de a converter num produto oficial da Tupperware.



...levou a cabo as limpezas anuais da sua casa, enterrando mais fundo o cocó dos cães em volta e puxando o lustro ao banco de jardim.



...comeu um quarto de pizza Quatro Estações ao som da Primavera de Vivaldi. Como lhe parecesse muito pouco e muito fútil, oferendou umas gotas do seu sangue às raízes dum velho freixo para ajudar a sua seiva a fluir.

Timing








Há questões que se resolvem por elas mesmas. Quando o romance que viviam tornou impensável continuarem separados por muito mais tempo, decidiram casar-se, e quando planearam o casamento e pensaram num destino para a viagem de núpcias, o Algarve pareceu-lhes a hipótese mais natural, a boda iria calhar no pino do Verão e até tinham um familiar que lhes cedia um apartamento. A viagem de núpcias foi uma viagem idílica, dois seres jovens e apaixonados respirando saúde e transpirando desejo, longos e despreocupados passeios pela noite amena, os lugares de diversão para se perderem um pouco sob a égide da Lua e o recolhimento no apartamento para se redescobrirem calidamente. Num fim de tarde langoroso na Praia da Falésia, ele cansou-se do torpor que sentia e disse à amada que ia escalar a falésia. Sob o olhar preocupado e os cuidados dela, seguiu um trilho curvilíneo e subiu o mais que conseguiu, com o auxílio de um pau que lhe servia de bordão. Extenuado, sentou-se a contemplar a praia e, num impulso, decidiu deixar uma marca do feito. Num recôncavo da parede de pedra aglomerada, gravou os dizeres: "Estive Aqui!" e acrescentou o seu nome e a data.
Nunca mais pensou no episódio. Cerca de dez anos depois, deslocou-se ao Algarve em trabalho, para tentar aumentar a sua carteira de clientes. Estacionou o carro no topo da rampa que conduz à Praia da Falésia, e sentiu uma ponta de melancolia. Tudo estava diferente, e nada havia de comum com o tempo dos sonhos da sua viagem de núpcias. Estava divorciado há um par de anos, um divórcio que coroou longos meses de hostilidade e mágoa. Para mais era Inverno e fazia frio, não havia em redor um centésimo das pessoas com que se cruzavam todos os dias e estacionara o carro no lugar onde costumava existir uma banca de frutas onde compravam sempre algumas laranjas ou pêssegos para comer a meio da tarde.
Tirou a gravata e o casaco e escondeu a sua pasta de caixeiro-viajante. Acendendo um cigarro, desceu lentamente até à praia. Foi só quando se viu diante do areal que se lembrou da sua inscrição na falésia. Ainda existiria? Era pouco provável. O tempo e a erosão apagam todos os sinais, mesmo os cinzelados em granito, e a sua frase ficara gravada numa matéria arenosa e friável. Decidiu verificar. Localizou o lugar da praia onde costumavam ficar, reconheceu a linha do trilho e subiu novamente a falésia, arfando e tossicando devido ao tabaco nos pulmões. Ao fim de quinze minutos de escalada, alcançou com esforço o final do trilho. Lá estava a reentrância da parede e ainda lá estava a sua frase de há uma década. Por baixo, haviam gravado outra: "Não nos encontramos. As nossas vidas podiam ser diferentes". Estava assinada: "Ana" e, a data, era um dia posterior à sua. Sentou-se pesadamente, a olhar o mar escurecido pelas nuvens. E ficou a pensar.




Socialmente correcto

As nossas referências evoluem, e já não faz sentido dizer uma coisa brutal como esta:
"És muit'a feia! Pareces um aborto!"
É menos lesivo, se for reformulada assim:
"Tens a beleza rara de uma IVG!".

aprender

"Já tive dias diferentes, límpidos e sem angústia. E isso foi quando? Numa outra vida? Não, é verdade! Tive dias fáceis e leves. Quando tinha uns vinte e dois anos, não existia antes nem depois, a vida presente chegava-me e era plena como uma noite bem dormida, as pessoas e as coisas estavam nos lugares devidos e nada parecia ter o poder de acabar ou morrer sem o meu consentimento. O que é que aconteceu? Em dois ou três dias de dor, aprendi que nada é estável ou seguro e as coisas acontecem apesar de nós e mesmo as nossas estruturas íntimas, onde víamos arquitecturas sólidas em ferro e betão, revelam ser frágeis e perecíveis como um fio de seda. Nós e os nossos sonhos, somos meras fantasias quânticas que se desvanecem. Em dois ou três dias de dor, a morte ensinou-me tudo isso de uma só vez".

Rick Deckard

Um fugaz solavanco foi o sinal de que o ascensor chegara ao destino. Os dois saíram para o corredor, ele mais desembaraçado, com a agilidade da rotina de todos os dias, ela em câmera-lenta, com o torpor das suas hesitações. Eram colegas de trabalho e haviam concordado passar a tarde juntos, comer uma pizza e ir ao cinema. Primeiro tenho de ir a casa, dissera ele com um tom muito sério, mudar de sapatos e dar comida aos bichos. Chegaram à porta do apartamento.
- Espero aqui...
- Não queres entrar, bebes um drink enquanto esperas, porque vais ter de esperar um bocado
Apercebeu-se da ténue tensão no rosto dela, aquele não-sei-se-fico-não-sei-se-fujo.
"Não precisas ter medo. Conheces-me há anos e eu não te vou drogar nem violar. Podes beber uma cerveja ou um licor de uísque e, num momento, estamos despachados. Se quiseres um pouco de clorofórmio, também se arranja" - a piada para aligeirar o ambiente não surtiu efeito. Ele sorriu e entrou, deixando a porta entreaberta.
Ela encostou-se à parede do corredor. Sentiu que estava a fazer uma triste figura, não tinha motivos para o recear mas, ao mesmo tempo, já tivera algumas experiências desagradáveis com pessoas em quem julgara poder confiar por inteiro. Como ele se demorasse, esqueceu os receios e entrou. Um cheiro intenso e desagradável agrediu-lhe as narinas. O colega estava de gatas no chão da sala, a espreitar para baixo de um sofá.
- Qual é o perfume-ambiente que usas? Aroma de bosta de cavalo?
Ele riu-se com gosto.
- Animais de estimação...quando se tem, vive-se em função deles.
Ouviram um fragor contra uma das portas e ela assustou-se a valer.
- É o meu bichinho predilecto - explicou e, acto imediato, abriu a porta e deu passagem a um enorme cão São Bernardo.
Ela ficou incrédula e boquiaberta.
- Um São Bernardo...num apartamento. Isto é de loucos!
- Porquê?
- O teu apartamento é um apartamento, não interessa o tamanho. Um cão destes precisa de muito chão debaixo das patas, de espaços abertos e de correr e sentir o vento no focinho. Manteres aqui um animal destes é como se te obrigassem a viver dentro dum armário ou duma gaveta.
- Meu anjo - murmurou ele - eu também sou um animal e tenho na minha natureza a paixão contida pela vastidão e pela liberdade, também gostava de viver numa cabana nas montanhas como o avô da Heidi, ou ser marinheiro ou beduíno. Não vivo neste apartamento por prazer ou chamamento divino.
- Mesmo assim, acho isto muito bizarro - disse ela, afagando o pêlo do cão - sei que não tenho o direito de te dizer isto, mas não acho certo teres um animal destes aqui...
Ouviram um novo som vindo do interior da casa, o som de algo pesado a cair. Ele envergou uma expressão comprometida.
- O que é que foi agora? - perguntou ela - É um Grand Danois? Um elefante bebé?
- Não, nem por sombras. Além do cão, só tenho, à solta, uma osga e dois ouriços-cacheiro. A estes, já não os vejo há três dias e era o que eu procurava há pouco...
- E este barulho foi provocado pelos ouriços? Devem estar com o cio.
- Não propriamente. Também tenho uma cabra, desactivei a despensa e fiz um curral para ela. Não imaginas o bem que me faz à alma ter estes animais por perto...

Poço

(imagem daqui)

O sono tem veredas e caídas, desce-se por ele como por uma escadaria dantesca em espiral, e só nos refazemos realmente quando atravessamos o âmnio do onirismo tumultuado. A descida tem assomos de suspeitas e visões proféticas dos sonhos lá de baixo e nada é estável ou linear, mas, uma vez que lá se chega, mergulhamos em lagos densos onde divagam as nossas raízes mais fundas, e os dias futuros têm tanta consistência e nitidez como os dias que vivemos na semana anterior ou no alvorecer da nossa primeira infância.


desoras



Não há lugar para nostalgias, não há antes nem dias incompletos, o presente pinga como as gotas d'água duma clepsidra, mas é o relógio digital, electrónico e ergomaníaco, que regista nos gráficos o desempenho e a produtividade das pessoas.
Oito minutos de paragem não-justificada em oito horas de trabalho!! O que esteve a fazer? A olhar o ontem? A pensar na morte da bezerra e na matança do porco? A conversar por conversar? A inventar palavras?
Não há lugar para nostalgias e sonhos. Não é isso que a fábrica produz, embala ou vende.

luas



A sua vida conhecera muitas fases, tivera uma longa fase tardo-infantil com vestidinhos rosa e tranças no cabelo, uma fase beldade anoréctica, uma fase gótica, e uma fase balzaquiana com distúrbios nervosos e graves crises de depressão, que assinala o inicio da fase minguante, que durou até ao eclipse total.

excerto



Do conto "Quando eu morrer" de F. Cristóvão Ricardo:

"Quando eu morrer, quero que ponham a minha rua na minha caixa de fósforos.
Não cabe, senhor João!
Então, não ponham a palmeira, fica para a próxima vez.
Ponham a casa toda em que nasci na minha caixa de pinho ou de cartão e, atenção, não esqueçam a cisterna de se beber pelo balde ou com a mão.
(...) Ponham a mesa de cear para o pai cortar, solenemente, a melancia ou o melão.
Ponham aquela pedra da calçada que me feria o dedo do pé, sempre o mesmo dedo, sempre na mesma ferida.
Não ponham a coelheira da frente, não quero ver o dia em que, pela primeira vez, vi a morte no corpo dum coelho (...)"

(F. Cristóvão Ricardo, "Lendas Legendas - Contos", edição do autor, 2004, ISBN: 972-99104-1-3)

Água-viva (parábola light)



- O seu cansaço pode ter muitas causas – disse-lhe o psicólogo – vamos fazer um pequeno jogo que me vai ajudar a interpretar o problema, não é nenhum teste e, por isso, não precisa estar nervoso. Tenho aqui estas cartas e cada uma delas tem um desenho ou motivo diferente. Só preciso que o senhor me diga o que vê em cada uma delas e o mais rápido que conseguir.
- De acordo!
Primeira carta: “Uma alforreca!!”, segunda carta: “Alforreca!”, terceira: “Alforreca!”…undécima carta: “Alforreca!”.
- É estranho. O senhor vê sempre uma alforreca, em todas. Podia ver um pano, pónei, pudim, uma ave, uma cave, um alarve, um abutre, uma vulva, um vulcão, uma mancha, um estreito, um gargalo, a penca do sogro, a espinha do congro ou a curva do ombro. Mas o senhor vê sempre uma alforreca. É previsível ao extremo e, vendo sempre a mesma coisa, não admira que ande sempre muito cansado, por mais que durma.
- E vai recomendar algum tratamento? Tenho de ser medicado?
- Sim, mas essas coisas levam tempo e o senhor só pensa em alforrecas. A curto prazo, ainda antes que qualquer tratamento surta efeito, é provável que desenvolva uma disfunção eréctil à conta disso. Isto é, se o senhor não for dado a fantasias...
Nuco Xavier arranjou namorada, uma moça de família guardada e resguardada. O namoro foi à vista em horas contadas, ao lado da tia quarento-solteirona que não cochilava e do fedelho ranhoso que jogava Playstation entre os dois. O jeito era casar e Nuco Xavier ajeitou-se. Prendas para a família da noiva, prendas da família da noiva para os dois, e Nuco Xavier se viu de joelhos no altar ao lado da sua noiva inocente. Chegara a hora de se consagrarem ao matrimónio e Nuco Xavier tomou o missal nas mãos e começou: "Eu, Nuco..." e logo a noiva lhe foi arrancada do altar pelos sogros, que a arrastaram aos gritos pela nave da igreja para que não cometesse o erro da sua vida.

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O silêncio na casa é real e corpóreo, como os móveis e os objectos. Vem ataviado de adornos, como vagos pretextos, sons dormentes e imagens de televisão. Tomou o lugar das palavras e instalou-se no seu ninho, devorando-lhe as crias trémulas. Instalou-se, simplesmente. Move os membros deles nos gestos rotineiros e óbvios que não necessitam de explicação, alimenta distâncias com o magoado cansaço que os insulariza quando vagueiam pela casa como se ela não tivesse paredes nem fim, e quando andam com o ser e o corpo à deriva numa cama pequena demais para a solidão que sentem
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"Kathy, I'm lost", I said, though I knew she was sleeping.
(Paul Simon, "America")

Proustituta

Era tudo virtual, o nome e o nick, a foto e o currículo, as preferências e outras íntimas minudências. Conheceram-se num chat, e ronronaram como gatos, felizes por se terem descoberto. Ao fim de semanas de devassa e partilha, marcaram um encontro numa esplanada inocente a dois passos do Mosteiro dos Jerónimos. Iriam informalmente vestidos, vinculados por uma marca secreta para se reconhecerem. No dia agendado, sentaram-se os dois na esplanada, cada um por seu canto, dissimulados e estudando. Nenhum dos dois revelou o adereço com o óbvio arroba, porque se conheciam tão intimamente que não precisavam de artifícios. E, cada um à vez, lançou o isco. Ele, torto e tolhido, saiu da esplanada com uma loura altarrona, que até era prostituta, mas tinha cara de quem gostava de Proust. A sua amiga virtual, pequena e bailarina, saiu com o proxeneta da loura, que era o retrato vivo de quem procurava: alto, elegante e bem perfumado, e com uns olhinhos melosos de quem vive para amar os versos do mundo.
Entrados na quadra natalícia, a Inspecção-geral de Actividades Económicas pensa desenvolver a nível nacional uma mega-operação denominada "Peru Legítimo", que irá fiscalizar os centros de criação e abate de perus, para apreender os perus genéricos e de contrafacção. Os agentes fiscalizadores, especialmente treinados e formados para esta operação, terão particular atenção em isolar todos os ditos perus que grasnem, chilreiem, cacarejem ou zurrem. Isolados esses perus, os agentes irão então tentar comprovar a legalidade da sua proveniência e as suas condições de saúde. Os que passarem nesse exame serão devolvidos aos seus criadores para estes poderem encaminhá-los para o mercado de distribuição de carne de peru.

Descobrimentos

Mapeou o seu corpo com mãos e os lábios, traçou a curva da garganta, o vale atrofiado entre os seios, a topografia táctil das suas coxas e nádegas, tirou o azimute do seu sexo oculto, destrinçou nas curvas de relevo a silhueta preciosa e delicada das suas orelhas e o ponto nevrálgico nas costas onde ela encordoava meridianos quando os lábios dele o atingiam. Quando os seus corpos se uniram como dois continentes dançantes de Wegener, ele afiançava com a segurança dos seus cálculos e angulações: «És o meu mapa-mundo».

She

Ela sonhou que era uma borboleta, e que o namorado a espetava em cima dum veludo azul.

He

Sonhava que estava no meio duma orgia sexual, com corpos de membros entrelaçados. Até acordar dentro duma vala colectiva.

iniciação

Um desconto, nunca se despreza. Achando que chegara a hora de explicar ao filho os factos da vida, levou-o a uma casa de meninas de que o filho era sócio-gerente.

simetria

A matrona já levava vinte e dois anos de trabalho na fábrica, e sempre a desempenhar a mesma tarefa: sentada defronte duma banda rolante duma linha de montagem, recebia os frascos que lhe chegavam da direita, e com uma ligeira pressão do dedo polegar da mão direita, fazia capsular a tampa plástica. Uma ligeira pressão multiplicada por milhares de horas de trabalho. Começou a sentir dores agudas no dedo polegar, que se tornaram insuportáveis. A mão estava deformada. Foi a uma junta médica e colocaram-na de baixa, para descansar a mão. Uns meses depois voltou ao activo e à mesma tarefa e, ao fim duma semana, as dores voltaram, ainda mais intensas do que antes.
O gerente da fábrica chamou-a ao gabinete, para tentar resolver o problema. Começou por tentar explicar-lhe as coisas com o recurso a uma parábola: "Tente imaginar um homem na rua que tenha só um braço. Todos reparam que ele só tem um braço porque o outro braço se agita com frenesi como se tivesse concentrada nele a energia dos dois. Ora, se esse homem, porventura, não tivesse nenhum dos dois braços, as pessoas quase nem reparariam naquela figura discreta com um casaco por cima dos ombros".
A sua proposta era a seguinte: iam sentá-la na margem oposta da banda rolante e, em vez de usar a mão direita, empregaria o dedo polegar da mão sinistra. Eventualmente, essa mão também se poderia deformar, mas, quanto mais essa mão ficasse deformada, mais equilibrada e harmoniosa ela se sentiria. E assim tudo ficaria solucionado, para contentamento de todos.

Coisa pouca

«Não preciso que precises de mim, que me ames ou sintas paixão» confessou ela, a cara junto a si no leito «Não preciso que a minha presença faça nascer versos em ti ou te dê tusa. Preciso apenas que estejas por aqui, que existas, sólido e concreto, como um ferro no cais onde atar as amarras, uma fechadura ou uma maçaneta de porta que se toque e se abra, um bico de gás onde cozinhar. Preciso que estejas por perto, suportando sobre os ombros os céus que, de outro modo, desabariam sobre mim».

terra

É certo e sabido que cada pessoa traz consigo o seu anjo-da-guarda. Não é uma imagem ou uma fábula, o anjo-da-guarda existe e acompanha-nos. A Rafael, haviam-lhe ensinado isso logo em pequeno, na mesma época em que lhe explicaram como se limpava o rabo e o proibíram de dar ao cu em cima da irmã. Para Rafael, não era um conceito transcendente, ele conseguia imaginar o anjo-da-guarda, visualizava-o como um ser pequeno alado pousado sobre si com a leveza de uma nuvem, devia ter um pé em cada um dos seus ombros com as asinhas a agitarem-se no ar como as de um colibri, nas mãos talvez erguesse uma espada ou um escudo para o defender das forças do mal. Quando andava na rua, olhava com atenção a sua própria sombra, tentando descortinar a silhueta do seu defensor, e lembrava-se de, com oito ou nove anos, procurar dormir de barriga para baixo para não o esmagar sem querer.
Depois, veio a adolescência tempestuosa, e abjurou do anjo-da-guarda como negou tantas outras coisas na ânsia de se afirmar, mas a maturidade trouxe-lhe o fim da apostasia. Irene, a loura e mística Irene, fê-lo reconciliar-se com o seu anjo-da-guarda. Irene, sua amante, sibila e vidente, garantiu-lhe que conseguia ver o anjo-da-guarda de Rafael. Tinha um ar débil porque ele não o alimentara com a sua fé e o seu amor, e tinha as asas atrofiadas pelo desuso e pesava-lhe mais sobre os ombros, e que era por isso que ele se sentia sempre tão cansado. Ela ensinou-lhe que as pessoas têm o destino dos seus anjos pessoais, e nem imaginam o mal que causam a si mesmas ao maltratá-los. É um erro atirar sal para trás das costas, porque o anjo de quem o faz ostenta sempre uma face e um corpo corroidos e em chaga, também é um erro cultivar inimizades, porque os olhares de ódio dos outros, ferem e enfraquecem em primeiro lugar o anjo defensor, desguarnecendo-nos. Rafael voltou a sentir a presença do seu anjo, e começou a comunicar com ele através de Irene, que lhe dizia o que o anjo lhe aconselhava, e como se sentia. Mas a sua relação com Irene azedou quando Rafael decidiu aproveitar uma vaga de trabalho nas minas. Irene exaltou-se, revoltada, e acabou com tudo. Não queria ser testemunha do seu fim porque uma mina era o pior que podiam dar a um anjo, ele ficava confinado a um meio contrário à sua natureza etérea e celeste, e era muito ferido ao ser arrastado pelas galerias estreitas das minas. Rafael não podia fazer nada, não tinha outro remédio, senão, trabalhar nas minas. Sem Irene, ficou sem maneira de comunicar com o seu anjo pessoal, emudeceu, e sofria calado, imaginando a dor que lhe infligia enquanto trabalhava nas minas, rastejando por buracos estreitos para instalar os explosivos para detonação. E como, um dia, toda a relação tem o seu fim, também a relação de Rafael com o seu anjo teve o seu termo. Prescindiram um do outro, separaram-se, porque Rafael enfiou-se por um buraco ainda mais pequeno e regressou ao ventre da sua mãe.

author

É só isto que eu gosto de fazer: escrever umas merdas. Não tenho gosto nem jeito para muitas mais coisas, sou um ser social eminentemente desastrado e não tenho aptidão para o comércio de influências ou para as feiras de simpatia. Sou um bronco, e escrevo umas merdas, e até nem sou muito mal pago por isso. Dão-me dinheiro e alojamento e, por vezes, subsídio de risco.
Os meus clientes são, quase sempre, políticos. Andei muitos anos em comitivas presidenciais, arranjavam-me um lugarzinho na bagageira de uma limusina ou no assento detrás duma carrinha SportWagon, munia-me do meu portátil e, todo encolhido, ia escrevendo uns discursos para o momento. Estes eram quase sempre iguais, um pouco de retórica e umas achegas suaves aos temas quentes do momento, tudo numa linguagem acessível onde as figuras de estilo eram substituídas por citações de figuras com estilo que toda a gente conhecia, como Rimbaud e Diderot, Montesquieu e Dideu.
Mas não era um emprego bem pago, pelo que troquei o Presidente da República por um embaixador e segui-o para várias partes do mundo. No Dubai, entrei no primeiro hotel de sete estrelas do mundo, não só entrei, passeei garboso pelo átrio e fui ao bar beber um café por setenta dólares, que eram bem empregues porque o café sabia a nafta. Na Turquia, mandava-me comprar droga para as suas festas, que eu cumpria com diligência porque era um trabalho de tanta responsabilidade, que nenhum dos outros elementos do corpo diplomático queria cumprir. Escrevia os seus discursos e intervenções, mas também fazia de sósia dele quando era preciso sair à rua em Bilbau ou Sarajevo. Depois de anos de serviço leal, estacionamos em Paris. Tinha decidido que aquela era a minha última comissão fora do meu país, e o embaixador, para me homenagear, convidou-me a ir com ele a uma festa de beneficiência que reunia os diplomatas de todas as embaixadas e consulados sediados em Paris, e era uma festa ao estilo Versailles, com roupas e comida da época. Ainda estive para perguntar se lá também ia haver belas mulheres nuas, como no filme com o Tom Cruise, mas não quis que ele pensasse que estava a desdenhar o seu generoso oferecimento, e aceitei. Tinha o dever de aceitar, o diplomata ia providenciar-me a tal roupa da época, e confidenciou-me que eu ia trabalhar por uma boa causa. Sim, porque, não sendo diplomata, só podia garantir a minha presença na festa se eu estivesse disposto a trabalhar um pouco.
A noite da festa foi uma coisa impressionante, parecia um regresso ao passado, um palácio com salões de lustres gigantescos, e as pessoas pavoneando-se nas suas roupas brilhantes e rendilhadas, transpirando sob perucas brancas de rolos. A minha aparência também não estava muito má, uma roupa de criado de libré, peruca e maquilhagem. Estava outro. Quando começaram a destinar tarefas, colocaram-me um avental à frente. Um avental? Cozinha? Serviço às mesas? Não! Ainda me faltava um adereço: um escarrador. A minha função era fazer circular um escarrador por entre os convivas, que aliviavam nele a gosma com aroma de vinhos generosos e tabaco ácido. Foi a homenagem mais linda que alguém me fez.

quasímodo

É espantoso o que os adereços de teatro conseguem fazer por um homem. Quem o visse na rua, certamente que se impressionaria com o seu triste aspecto mas, no palco, deixava ao Sol a sua pele de barata e metamorfoseava-se. Uma cinta apertadíssima disfarçava a barriga e endireitava um pouco a corcova, quatro ou cinco camadas de maquilhagem ocultavam as bexigas e as cicatrizes nas orelhas e nas maçãs do rosto, outras tantas, a costura na maçã de Adão. O nariz torto ficava bem sobre uma máscara para os olhos, e roupas largas e enfunadas não deixavam suspeitar das suas pernas atrofiadas e do seu ventre com as tripas a quererem romper uma pele finíssima como um véu. Quando subia para o palco, tornava-se o rei-Sol, e a sua alegria era tanta que voava sobre a cena, suspenso de um cabo oculto. Enquanto a peça se manteve em cena, foi feliz, não obstante uma ou duas cargas de pancada com que o mimaram quando tentava fugir do teatro com a sua nova pele em cima.

Onde mora o Wally


Berloque Holmes

O arqueólogo chegou à aldeia. Era Verão, época de caça dos arqueólogos. Esperava-o o padre, o presidente da Junta e o senhor professor, que nas terras perdidas no cu de Judas, são eles que detém a tutela do conhecimento. Ao que vinha? Um achado, doutor, clamava cada um à vez, acharam um achado e era bom o senhor doutor ver. E lá o mostraram, briosos do tesouro que a sua aldeia esquecida possuía agora: sob o chão levantado duma casa antiga, um túmulo, um esqueleto de quase dois metros rodeado de artefactos: pedaços de louça, duas achas de pedra polida, uma garrafa vazia de Coca-Cola entre os dedos da mão, restos de corda entrançada preservados pela lama. O homem calçou luvas, para não contaminar o esqueleto, que podia ser de fraca saúde. Estudou os artefactos, pôs um dedo no ar para ver de que lado vinha o vento, esgravatou a terra, colheu amostras. Depois, muito pesaroso, anunciou: este achado é uma fraude, não é do Neolítico, não pode ser, a minha extensa experiência diz-me que estes cacos são modernos, vou precisar de provas laboratoriais de termoluminescência, mas estou convencido de que é louça das Caldas.

>

O teu pai partiu. Quando volta ele? Em que voltas se perdeu?
Perdeste a fortuna e o teu pai partiu, não te pode valer,
cegaste de raiva, feriste por despeito, apunhalaste o peito,
mas o teu pai partiu, não te pode defender.
(Ele não está em lado algum)
Estúpida freira e estúpidos catequistas, que te encheram

a moleirinha
de patranhas
sobre o teu pai do céu, que
te protegeria na adversidade e te guiaria
na confusão.
Estúpidos, que não sabiam,

que o teu pai partiu.

8 de Março



















Receita de mulher
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.





Imagem: "A Parisense", cerâmica minóica, Creta
Nota tuga: saboneteira, gíria para seios
Post post: há mais versos nos comentários
A D.Henriqueta recebeu nos seus domínios de solteirona incondicional, um catálogo de venda postal. Entre utensílios de jardim e artigos de taparoeira, vinha uma foto de uma loura platinada com um vibrador encostado à face: "massajador facial", lia-se. A D. Henriqueta encomendou-o e não fez disso segredo a ninguém. A encomenda tem sido motivo de gracejos nestes últimos meses, uma ironia insatisfeita, porque ninguém conseguiu saber se ela o usa como vibrador ou como massajador facial. O que todos concordam, é que a D. Henriqueta, por estes dias, anda com muito boa cara.

onde está?


Aparcaram o carro no miradouro, á noite.
"O amor é como um Tamagochi - instruiu ela, com o tom pedante das professoras primárias do antigamente - Temos de zelar por ele todos os dias, ver o que lhe falta, nutrir e cuidar dele".
"Está bem! - concordou ele - deixa-me foder-te e eu tamagocho tudo o que quiseres!"
Dito e feito. Com o nível de sémen muito alto, já no amarelo, ele queimou todas as etapas, deitou-a no banco e começou a penetrá-la. Nesse momento, o corpo dele estremeceu, ouviu-se um som sibilino de fuga de ar comprimido e imobilizou-se como uma estátua, dentro e em cima dela.
"Deve ter saído do sítio" - ciciou ela, tacteando o seu pescoço e costas - "Se ao menos eu soubesse onde costumam esconder a pilha do Tamagochi..."

I, Human

«Sim, doem-me as costas, vergadas de tantos trabalhos e cansaços, e tenho as mãos deformadas de manusear brinquedos numa linha de montagem, os meus ouvidos foram matraquilhados pelo barulho das máquinas e já não são o que eram - só consigo ouvir a música e os noticiários em altos berros. Ainda assim, faltam-me, pelo menos quarenta e três anos para a idade da reforma. Nessa altura, vai haver robots para estas tarefas repetitivas e massacrantes, e a nós, humanos, calharão os trabalhos menos rotineiros e mecânicos, como trazer os robots nas palminhas e carregá-los ao colo de um lado para o outro, e contar-lhes anedotas sobre pessoas estúpidas e fazer-lhes companhia no refeitório, porque serão demasiado preciosos para se deteriorarem e seria um prejuízo enorme para o país se entrassem de baixa ou ficassem deprimidos».

tempos difíceis

Depois da OPA dos financeiros, a OPA dos tesos: esgravata-se os bolsos, revira-se a carteira no ar, e surge a exclamação: "OPA! Já não tenho dinheiro para o café!".

conversa parva

- Para onde foste? - perguntou a vizinha.
- A Paris - respondeu - só em Paris se encontram pessoas como deve ser.
- Ah, eu não acho! – ripostou – o nosso Fernando ficava-se pelo Martinho da Arcada

casa junto à linha férrea

Sabes, as casas vazias, quando os donos vão de férias ou não voltam nunca, tem aqueles móveis cobertos por aquelas mortalhas brancas para os proteger do pó e da humidade. As casas vazias… queria dizer qualquer coisa com as casas vazias. Que estão vazias? Não, absurdo. As mortalhas! Acho que eram as mortalhas, mas não me alongo nisso, que fazem lembrar-me cigarros e aquelas caixinhas de madeira com cinta onde se arrumava o tabaco continental. As casas vazias, não gosto quando as casas estão vazias, e não gosto dos lençóis sobre os móveis, que torna tudo tão opressivo e intimidante. Até as ratazanas evitam guinchar e, com este silêncio, o espírito fica feito em água e torna-se difícil morar nelas.

espiral

Era um miúdo andrajoso, calções velhos, uma camisa aberta com as abas atadas abaixo do umbigo saliente, sandálias nos pés e palhinha de capim ao canto da boca. Olhava vagamente o alcatrão e o movimento dos aviões, com os dedos duma mão na rede, e acenando vagamente com a outra. Foi uma imagem nítida, surpreendida quando o avião manobrou na pista antes de levantar voo. Foi a sua última memória de Moçambique. Tem voado em círculos desde então.

aprender

Foi com o Braille, que o amor se fez luz. Quando começaram a namorar, ela queixava-se de que ele era só vaidade e não a compreendia, que era insensível e egoísta, que tinha tesão a mais e sentimentos a menos, e só procurava não perder muito tempo com ela. Foi por sugestão dela que experimentaram o Braille, um encontro após outro, os dois confiaram-se a uma intimidade cumulativa onde ele, como se fosse cego, percorria-a com as mãos tentando decifrar a linguagem da sua pele. Num labor paciente e apaixonado, foi desvendando os recantos e formas dos seu corpo, descobrindo versos que beijava e lambia, textos sudando desejo que encerrava nos braços. Foi com o Braille que tirou os olhos de si e aprendeu a vê-la.

ele

Sempre sentiu que do outro lado - do mundo, do muro ou da consciência - havia quatro ou cinco palavras elementares onde se umbilicavam todas as outras. Começou a descartar as palavras excedentárias para isolar as que interessavam. Não as encontrando, foi devorado pelo silêncio.

tempo

Trinta e cinco pessoas num pavilhão a fazer horas, esculpindo, moldando e costurando horas, com expressão ansiosa. E, à porta, o cliente, rejeitando sempre a mercadoria.

poupando palavras

Desde a infância habituou-se a ter amigos imaginários que tornavam inimaginável a solidão. Quando fez cinquenta anos, convidou-os a todos para a festa de aniversário e lotou um salão de banquetes.


Habituou-se a engolir as palavras, a não manifestar revolta ou desacordo, a não dizer nada de que se pudesse arrepender, ou criar inimigos que não conseguisse enfrentar. Sofria agressões e insultos, mas em silêncio, com as palavras sufocadas no seu estômago a agudizar a náusea que tudo lhe despertava.


Foi deixando gradualmente de escrever para poupar palavras, entesourando-as com desvelo no porquinho-mealheiro. Queria escrever com elas um romance, uma obra maior. Quando, finalmente, o romance conheceu a luz do dia, os editores contactados consideraram-no uma porcaria.

manhã

A meia-noite era o cabo da Boa Esperança, do outro lado esperava-o a Índia ígnea e solar de Surya e Xiva. Dobrou a meia-noite e ficou a espreguiçar-se nas margens do Índico, a comer caril de galinha e a beber cerveja Laurentina.

Carisma

“Venham, vamos fumar um cigarro enquanto as cervejas ainda estão frescas” - exortou um dos companheiros. Deixou-se ficar enquanto eles se encaminhavam para o topo da carruagem do comboio. Até era bom ficar sozinho, os outros estavam a fazer muito barulho e isso podia não cair bem. Desde o início da viagem que ele convergia toda a sua atenção para uma passageira isolada que lia atentamente um jornal, sublinhando nele passagens com uma caneta. Não deveria ter mais de vinte anos, trajava uma blusa de veludo negro e umas calças roxas de Lycra. Os cabelos, de um castanho brilhante, caíam-lhe sobre o peito. Apreciava sobretudo nela o recorte firme dos seios que se adivinhava sobre a blusa e os lábios carnudos e perfeitos.
Levantou-se com um propósito fixo. Aproximou-se lentamente dela até conseguir espiolhar o jornal por cima do seu ombro. As folhas em que ela tanto escrevia, eram de um suplemento de Economia de um semanário.
- Viva - exclamou ao seu lado, fazendo-a sobressaltar-se - como é que estão as tuas cotações hoje?
Ela arregalou os olhos, como se não soubesse que atitude tomar perante aquele rosto sardento, rasgado por um sorriso sardónico.
- Não possuo acções - elucidou ela com enfado - estou a tirar Economia e é como se estivesse a estudar.
- Jura?! - Exclamou, sentando-se depressa à sua frente - você sabe que eu sempre quis encontrar alguém que percebesse de Economia para lhe fazer umas perguntas. Até te podem servir para fazeres revisões... por exemplo...tu sabes o que é um take-over ?
- Sei o que é um take-over...
- Prontos, acertaste nessa! - Interrompeu-a - e agora, és capaz de me explicar como é que tu fazes para especular com acções.

- Não é fácil de explicar assim à primeira. Seria muito demorado e você não ficaria a perceber nada.
- Eu tenho tempo - protestou - este comboio ainda tem umas quatro horas de viagem pela frente.
- Eu prefiro continuar a estudar como antes - insistiu ela.
Calaram-se os dois. Ela fingiu-se concentrada no teor do jornal, na esperança dele ir-se embora. Aquele homem metia-lhe nojo, tinha o lábio inferior fendido a meio e a saliva ia-se acumulando ali como na face côncava de uma folha - quando ele abria e fechava a boca para falar espalhava pelo ar miríades de perdigotos reluzentes.
- Não me disseste ainda o teu nome. Eu chamo-me Armando.
- Rosa - retribuiu ela.
Ele levantou-se num repente e foi até ao seu lugar na carruagem. Pegou em três jornais que os seus companheiros tinham comprado e foi entregar-lhos.
- Dou-tos todos - disse a cuspinhar, com uma expressão alegre - já os li e têm informações sobre Economia que davam para escreveres uma tese. Não me agradeças, Rosa - continuou - eu quero que vás em frente, ouviste, vai em força. Eu sei que tu és capaz e que no futuro vais ser uma grande economista, com Nobel e tudo.
- Obrigado - agradeceu ela, tentando ignorar a saliva que continuava a cair à sua volta.
Armando bateu em retirada e juntou-se aos companheiros. A indiferença de Rosa desarmara-o por completo e já não tinha nada para falar. Aquela conversa fora-se desfazendo à medida que avançava como se estivesse minada pela lepra.
Os amigos estavam animados, a conversar e a beber pelas latas de cerveja. Tirou também uma da mochila, com os olhos fixos na cabeleira da jovem que emergia da cabeceira do banco
- O Armando está apanhado – disparou um deles - porque é que não vais lá e dás uma tanga bem dada à gaja ? - e prosseguiu, explicando aos outros - o Armando é um perito, não há como ele para dar a volta a uma mulher, um bocado de conversa, umas piadas e elas ficam logo todas maradas”.
Naquele momento Armando não estava muito seguro dos seus atributos mas a pressão dos outros associada à sua vaidade ferida deu o empurrão definitivo.
Vou ter com ela - anunciou - vou preparar o terreno, vai ser como aquecer o forno para em seguida meter o pão - os outros riram-se da imagem e Armando lançou-se destemido pela carruagem, carregado de energia como um dínamo - Oi ! - Cumprimentou, sentando-se novamente diante dela - já estudaste muito ?.
Ela meneou a cabeça, sem olhar para ele. Tinha a perna esquerda traçada sobre a outra, com o sapato a baloiçar com as oscilações da carruagem. Determinado, ele segurou-lhe o jornal com dois dedos, tirou-o da frente dos olhos e prendeu uma das suas mãos com firmeza, enquanto cravava nela um dos seus olhares irresistíveis. Ainda ela não estava refeita da surpresa, já ele afagava a sua coxa com a mão aberta e pesada.
- A tua teimosia magoa-me - queixou-se ele, originando um novo chuveirinho de perdigotos - para que é que vamos continuar a viagem como dois estranhos se podemos passar o resto do tempo no mel e no romance ?
Ele levantou-se para se sentar ao seu lado e naquele instante ela flectiu com raiva o joelho e enterrou a biqueira do sapato no meio das suas pernas. Armando abriu muito a boca e caiu para trás com as mãos agarradas às partes. Uma dor aguda trespassava-o e fez um esforço enorme para não gritar, com o rosto transformado numa máscara de dor. A jovem aproximou-se dele e murmurou: “Se quiseres mais desse mel, é só pedires”. Armando fulminou-a com um olhar de ódio mas continuou a contorcer-se de dor, até esta diminuir um pouco. Ela retomara a leitura do jornal, com um ricto trocista nos lábios. Armando levantou-se e arrastou-se com dificuldade até ao seu lugar. Dava pequenos passinhos titubeantes com o pescoço e a cabeça esticados para a janela do comboio, como se a lentidão dos seus movimentos se devesse a algum pormenor insólito na noite cerrada do exterior.
Acomodou-se na posição que lhe pareceu menos dolorosa, com as pernas esticadas e o corpo torcido assente nos quadris. Os companheiros não tardaram a reunir-se a ele. Sentaram-se à sua volta na expectativa de um relato.
- Estou com uma moleza dos diabos. Acho que vou ficar assim e tentar dormir um bocado - explicou-se para tentar justificar a sua pose acrobática.
- A gente quer é saber da fêmea. Como é que correram as coisas?
Armando pigarreou, enquanto tentava avaliar se ela conseguia ouvir as suas palavras.
- A miúda é uma reprimida - sentenciou num quase-sussurro - aquele tipo de mulher que mata-se a pensar nas coisas que sente necessidade de fazer. Vocês deveriam ter visto. Ela estava a arder de desejo por mim, mas preferiu andar a fugir com desculpas estúpidas. Este tipo de mulher é um desperdício de tempo, nem merece a saliva que um homem gasta com elas.

um acaso

Os homens franceses defendem a noção de que uma mulher fumar depois do sexo, é sinal de insatisfação.
Também defendem a proibição de fumar nos quartos de hotel.

Mito rural

No lugar onde queria construir a casa nova, havia um poço. Um poço era um caso sério para se conseguir autorização para construir. Os tipos implicavam, mas o Moreira não desistiu. Estava reformado, trabalhara a vida toda nos States, e decidiu investir umas centenas de dólas para conseguir a licença. E assim foi. Para prosperidade dalguns incorruptíveis funcionários da autarquia, construiu a sua casa mesmo por cima do poço. Uma cave larga semi-subterrânea com janelinhas pequenas para a rua, e dois pisos por cima. O poço ficou no meio da cave. A mulher queria que ele o tapasse, mas qual quê! Mandou fazer uma estrutura em ferro forjado para o embelezar, de onde pendia uma roldana com balde. Ao topo da cave, mandou carpinteirar um bar em estilo rústico, e junto a ele, instalou uma garrafeira e uma mesa de jogo onde reunir os amigos. Estava tudo perfeito, uns quadros de cenas de caça completavam o cenário. Quando a sua casa e a sua acarinhada cave estavam prontas, ocorreram as cheias. Um Inverno demasiado pluvioso, levou os rios a galgarem as margens e inundar os campos. A casa estava construída num cômoro no meio dos campos, mas aquele poço era uma artéria do lençol freático subterrâneo. Para desespero do casal, viram a cave ser inundada. Desligaram os comutadores de electricidade e assistiram angustiados à subida do nível da água, que avaliavam pelos degraus da escada. Felizmente, que a cave não era estanque e, atingida a altura das janelinhas, a água suplementar escoou-se para a rua. Menos mal. A cave permaneceu cheia de água durante quase uma semana e quando viram que a água começava a baixar, o Moreira fez passar os tubos de polietileno pelas janelas da cave e drenou-a com electro-bombas. Depois de horas de trabalho intenso, e ainda com o som dos motores a ressoar-lhe no ouvido, o Moreira decidiu descer para avaliar os estragos. Instalou um projector de halogéneo no topo das escadas e desceu-as cautelosamente. Mas o que o chocou em primeiro lugar não foi os estragos causados pela água: por toda a cave, brilhando sob a luz do projector, havia dezenas de ossos humanos emergindo da água rasa como alvas aparições, costelas, tíbias, crânios, largas e espalmadas bacias - dramas antigos reavivados pela água.

aplicações

"Este é o melhor plano que o Banco tem para lhe oferecer" - garantiu o funcionário - "Um plano de poupança activa. Você aplica um dinheiro certo todos os meses, e não lhe faltará o guarda-chuva para os dias chuvosos".

"Não sei..." - hesitou - "Tenho de pensar...consultar a mulher...".

"Então fazemos assim. Eu parto do princípio que o senhor aceita a sugestão e vou adiantando os pormenores. O senhor conversa com os seus botões e depois diz-me alguma coisa. Vou ter de manter captivo na sua conta cem euros para avançar, se o senhor não quiser, diz-me alguma coisa e eu descaptivo o dinheiro".

"De acordo".

Dias depois, arranjou um instante para ir ao Banco e avisar o bancário que, afinal, não estava interessado no PPA. O homem encaixou com polidez. Abriu um largo sorriso, apertou-lhe calorosamente a mão e combinaram um outro dia para discutirem outras alternativas. Quando se dirigia à saída ouviu-o sussurrar a uma colega: "Dá-me a chave das algemas. Tenho de ir ao cofre descaptivar os cem euros".

Bichanos

Recebi um mail alusivo ao meu post anterior, no qual a remetente, um pouco irritada, faz uma apologia dos gatos, que considera e cito: "o gato é o verdadeiro animal de companhia, são ternos, dedicados, e ajudam-nos a reencontrar o equilíbrio...". Nada a opor. O texto que motivou esta reacção era uma historiazita e não o princípio duma guerra santa contra os gatos. Pessoalmente, acho que as pessoas, em geral, são mais pessoas de gatos ou mais pessoas de cães, e isso tem a ver com a sua natureza e com aquilo que lidaram enquanto cresciam. Eu talvez seja mais pessoa de cães e nisso pesa a circunstância de, na minha infância e princípio da adolescência, a minha família chegar a ter quatro e cinco cães de uma só vez, entre eles o Lord e o Vinte-e-Sete referidos no post anterior. O primeiro era um cão vadio que ficou connosco e já devia ter trazer a sua dose de pancada, porque tinha tanto medo que dava pena, a mim, no entanto, não estranhava e seguia-me por todo o lado, o que era um problema quando brincávamos à cóboiada com os rapazes das vizinhanças, porque todos ficavam a saber onde eu andava escondido. O Vinte-e-Sete foi um caso aparte, a minha família conta que eu, com três e quatro anos, subia para a garupa dele como de um pónei e ele vagueava pelo quintal comigo abraçado ao pescoço. Quando morreu, eu e os meus irmãos choramos a sua morte como se tivesse desaparecido uma pessoa de família.
Dos gatos, tenho impressões vagas e distantes. O único com quem lidei de perto, era uma gata, o tal Bichano e pertencia à minha avó paterna. Recordo que saía abruptamente de debaixo de móveis para cruzar os nossos passos e roçar-se pelas pernas, o que quase nos fazia tropeçar. Era uma gata gorda e com humores. A um tio meu, talvez em resposta a alguns mimos antigos, assanhava-se mal o via: aproximava as patas traseiras e dianteiras com o corpo em arco e o pêlo eriçado, chiando enquanto ele estivesse por perto. O que eu achava piada nela era o entendimento que mantinha com a minha avó. A minha avó tinha uma cozinha das antigas, com uma chaminé larga alpendrada, sob a qual, num balcão à altura da cintura, coberto de mosaicos, se podia cozinhar com lenha. Era ali que ela preparava a comida para os animais, em tachos velhos e negros assentes numa grelha apoiada em duas pedras que saíam da parede. Enquanto ela cozinhava, a gata andava por ali, rondando impaciente, esperando a sua hora, por vezes, saltando para cima do balcão, donde a minha avó a enxotava. Quando o tacho era retirado, a minha avó deixava o brasido a arder. A gata subia então para o balcão, procurava um lugar o mais próximo possível das brasas e procedia a uma operação de limpeza, afastando com a pata, em movimentos rápidos, uma ou outra brasa que ali tivesse ficado. Quando se dava por satisfeita, enroscava-se na pedra aquecida e não saía dali enquanto sentisse calor. A minha avó, numa cúmplice colaboração, levava-lhe a comida que deixava ao pé da sua cabeça, e assim seguiam as duas, felizes por se terem uma à outra.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...