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A mostrar mensagens de Março, 2007

A geração de ouro

Desde os meus primeiros tempos naquela firma de representações, que uma das pessoas mais afáveis e simpáticas que aí encontrei foi um contabilista chamado Mário. Ele era um quarentão bem entrado, calvo e bonacheirão, de patilhas compridas e bigode fino bem aparado. Sempre de bom-humor, passava a vida a pregar partidas aos outros, a brincar e a contar anedotas, e mesmo os eventos do quotidiano tornavam-se diferentes quando ele os interpretava com a sua ironia oportuna e mordaz. Devido ao seu feitio a minha amizade pelo contabilista foi-se desenvolvendo naturalmente, e a boa disposição tornou-se o liame que nos aproximava, anulando os vinte anos que nos separavam na idade. Uma ou duas vezes por mês passamos a dedicar umas horas ao bilhar. Depois de comer qualquer coisa à saída do serviço, íamos até uma sala de jogos próxima onde disputávamos um mini-torneio de bilhar às três tabelas, sob uma nuvem de fumo de tabaco e rodeados de conhecidos de ocasião.
À medida que o nosso convívio se foi…

ouroborus

Há quem se lamente por lhe faltar um pai, a Teresa teve-os de sobra. Quando o pai, o seu, o de sangue, morreu, ela só guardou dele uma impressão vaga, que se dissipou nos anos seguintes, reduzida a episódios nebulosos que podiam ser reais ou meras ficções da sua memória, construídas sobre outras figuras masculinas desse ontem distante. À medida que crescia, a mãe tratou de substitui-lo. Foi trazendo outros homens para casa. Ficavam aí uma noite ou uma semana, por vezes meses. Ouvia-os no quarto ou cruzava-se com eles pela casa, conheceu-os de todas as idades e figuras, arrastando-se em tronco nu a fumar, comendo na cozinha ou esparramados no sofá grande da sala. Quando chegavam, se chegavam cedo, a mãe trazia a menina à presença do novo namorado e apresentava-o: este é o fulano de tal, podes chamar-lhe pai, se quiseres. Foram muitos pais e muitos nomes, às vezes, nem a mãe lhes conhecia o nome e apresentava-os como um amigo da mãe, recomendando-lhe a treta do pai antes de se enfiar co…

Ampulheta

Esperou sempre por algo de novo numa arenosa melancolia, algo que surgisse na linha de água, que irrompesse na sua vida chã - uma aparição, uma ilha, milagre, tesouro, galeão. Na praia, foi sempre esperando, e na orla das ondas foi construindo coisas para o receber, castelos de areia e ancoradouros, labirintos e orbes. Quando a espera se transformou numa profunda tristeza mineral, ensandeceu.

os pássaros cantam

O misantropo revela um tropismo próprio: sente vontade de hibernar aos primeiros sinais de Primavera.

Para celebrar a Primavera...

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...o pastor evangelista pediu a uma jovem obreira que usasse um soutien com flores, para que pudesse sentir nas mãos a milagrosa Primavera do Senhor.



...o sexagésimo sub-secretário do Ministro das Finanças trouxe uma gravata com andorinhas para o trabalho, para que ninguém dissesse que não acrescentava nada de novo ao executivo.



...decidiu rejuvenescer-se um pouco mais e foi submetida à sua quadragésima quinta operação plástica, precisamente aquela que teve o condão de a converter num produto oficial da Tupperware.



...levou a cabo as limpezas anuais da sua casa, enterrando mais fundo o cocó dos cães em volta e puxando o lustro ao banco de jardim.



...comeu um quarto de pizza Quatro Estações ao som da Primavera de Vivaldi. Como lhe parecesse muito pouco e muito fútil, oferendou umas gotas do seu sangue às raízes dum velho freixo para ajudar a sua seiva a fluir.

Timing

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Há questões que se resolvem por elas mesmas. Quando o romance que viviam tornou impensável continuarem separados por muito mais tempo, decidiram casar-se, e quando planearam o casamento e pensaram num destino para a viagem de núpcias, o Algarve pareceu-lhes a hipótese mais natural, a boda iria calhar no pino do Verão e até tinham um familiar que lhes cedia um apartamento. A viagem de núpcias foi uma viagem idílica, dois seres jovens e apaixonados respirando saúde e transpirando desejo, longos e despreocupados passeios pela noite amena, os lugares de diversão para se perderem um pouco sob a égide da Lua e o recolhimento no apartamento para se redescobrirem calidamente. Num fim de tarde langoroso na Praia da Falésia, ele cansou-se do torpor que sentia e disse à amada que ia escalar a falésia. Sob o olhar preocupado e os cuidados dela, seguiu um trilho curvilíneo e subiu o mais que conseguiu, com o auxílio de um pau que lhe servia de bordão. Extenuado, sentou-se a contemplar a praia e, n…

Socialmente correcto

As nossas referências evoluem, e já não faz sentido dizer uma coisa brutal como esta: "És muit'a feia! Pareces um aborto!" É menos lesivo, se for reformulada assim: "Tens a beleza rara de uma IVG!".

aprender

"Já tive dias diferentes, límpidos e sem angústia. E isso foi quando? Numa outra vida? Não, é verdade! Tive dias fáceis e leves. Quando tinha uns vinte e dois anos, não existia antes nem depois, a vida presente chegava-me e era plena como uma noite bem dormida, as pessoas e as coisas estavam nos lugares devidos e nada parecia ter o poder de acabar ou morrer sem o meu consentimento. O que é que aconteceu? Em dois ou três dias de dor, aprendi que nada é estável ou seguro e as coisas acontecem apesar de nós e mesmo as nossas estruturas íntimas, onde víamos arquitecturas sólidas em ferro e betão, revelam ser frágeis e perecíveis como um fio de seda. Nós e os nossos sonhos, somos meras fantasias quânticas que se desvanecem. Em dois ou três dias de dor, a morte ensinou-me tudo isso de uma só vez".

Rick Deckard

Um fugaz solavanco foi o sinal de que o ascensor chegara ao destino. Os dois saíram para o corredor, ele mais desembaraçado, com a agilidade da rotina de todos os dias, ela em câmera-lenta, com o torpor das suas hesitações. Eram colegas de trabalho e haviam concordado passar a tarde juntos, comer uma pizza e ir ao cinema. Primeiro tenho de ir a casa, dissera ele com um tom muito sério, mudar de sapatos e dar comida aos bichos. Chegaram à porta do apartamento.
- Espero aqui...
- Não queres entrar, bebes um drink enquanto esperas, porque vais ter de esperar um bocado
Apercebeu-se da ténue tensão no rosto dela, aquele não-sei-se-fico-não-sei-se-fujo.
"Não precisas ter medo. Conheces-me há anos e eu não te vou drogar nem violar. Podes beber uma cerveja ou um licor de uísque e, num momento, estamos despachados. Se quiseres um pouco de clorofórmio, também se arranja" - a piada para aligeirar o ambiente não surtiu efeito. Ele sorriu e entrou, deixando a porta entreaberta.
Ela encostou-s…

Poço

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(imagem daqui)
O sono tem veredas e caídas, desce-se por ele como por uma escadaria dantesca em espiral, e só nos refazemos realmente quando atravessamos o âmnio do onirismo tumultuado. A descida tem assomos de suspeitas e visões proféticas dos sonhos lá de baixo e nada é estável ou linear, mas, uma vez que lá se chega, mergulhamos em lagos densos onde divagam as nossas raízes mais fundas, e os dias futuros têm tanta consistência e nitidez como os dias que vivemos na semana anterior ou no alvorecer da nossa primeira infância.

desoras

Não há lugar para nostalgias, não há antes nem dias incompletos, o presente pinga como as gotas d'água duma clepsidra, mas é o relógio digital, electrónico e ergomaníaco, que regista nos gráficos o desempenho e a produtividade das pessoas.
Oito minutos de paragem não-justificada em oito horas de trabalho!! O que esteve a fazer? A olhar o ontem? A pensar na morte da bezerra e na matança do porco? A conversar por conversar? A inventar palavras?
Não há lugar para nostalgias e sonhos. Não é isso que a fábrica produz, embala ou vende.

luas

A sua vida conhecera muitas fases, tivera uma longa fase tardo-infantil com vestidinhos rosa e tranças no cabelo, uma fase beldade anoréctica, uma fase gótica, e uma fase balzaquiana com distúrbios nervosos e graves crises de depressão, que assinala o inicio da fase minguante, que durou até ao eclipse total.

excerto

Do conto "Quando eu morrer" de F. Cristóvão Ricardo:

"Quando eu morrer, quero que ponham a minha rua na minha caixa de fósforos.
Não cabe, senhor João!
Então, não ponham a palmeira, fica para a próxima vez.
Ponham a casa toda em que nasci na minha caixa de pinho ou de cartão e, atenção, não esqueçam a cisterna de se beber pelo balde ou com a mão.
(...) Ponham a mesa de cear para o pai cortar, solenemente, a melancia ou o melão.
Ponham aquela pedra da calçada que me feria o dedo do pé, sempre o mesmo dedo, sempre na mesma ferida.
Não ponham a coelheira da frente, não quero ver o dia em que, pela primeira vez, vi a morte no corpo dum coelho (...)"

(F. Cristóvão Ricardo, "Lendas Legendas - Contos", edição do autor, 2004, ISBN: 972-99104-1-3)

Água-viva (parábola light)

- O seu cansaço pode ter muitas causas – disse-lhe o psicólogo – vamos fazer um pequeno jogo que me vai ajudar a interpretar o problema, não é nenhum teste e, por isso, não precisa estar nervoso. Tenho aqui estas cartas e cada uma delas tem um desenho ou motivo diferente. Só preciso que o senhor me diga o que vê em cada uma delas e o mais rápido que conseguir.
- De acordo!
Primeira carta: “Uma alforreca!!”, segunda carta: “Alforreca!”, terceira: “Alforreca!”…undécima carta: “Alforreca!”.
- É estranho. O senhor vê sempre uma alforreca, em todas. Podia ver um pano, pónei, pudim, uma ave, uma cave, um alarve, um abutre, uma vulva, um vulcão, uma mancha, um estreito, um gargalo, a penca do sogro, a espinha do congro ou a curva do ombro. Mas o senhor vê sempre uma alforreca. É previsível ao extremo e, vendo sempre a mesma coisa, não admira que ande sempre muito cansado, por mais que durma.
- E vai recomendar algum tratamento? Tenho de ser medicado?
- Sim, mas essas coisas levam tempo e o senhor…
Nuco Xavier arranjou namorada, uma moça de família guardada e resguardada. O namoro foi à vista em horas contadas, ao lado da tia quarento-solteirona que não cochilava e do fedelho ranhoso que jogava Playstation entre os dois. O jeito era casar e Nuco Xavier ajeitou-se. Prendas para a família da noiva, prendas da família da noiva para os dois, e Nuco Xavier se viu de joelhos no altar ao lado da sua noiva inocente. Chegara a hora de se consagrarem ao matrimónio e Nuco Xavier tomou o missal nas mãos e começou: "Eu, Nuco..." e logo a noiva lhe foi arrancada do altar pelos sogros, que a arrastaram aos gritos pela nave da igreja para que não cometesse o erro da sua vida.

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O silêncio na casa é real e corpóreo, como os móveis e os objectos. Vem ataviado de adornos, como vagos pretextos, sons dormentes e imagens de televisão. Tomou o lugar das palavras e instalou-se no seu ninho, devorando-lhe as crias trémulas. Instalou-se, simplesmente. Move os membros deles nos gestos rotineiros e óbvios que não necessitam de explicação, alimenta distâncias com o magoado cansaço que os insulariza quando vagueiam pela casa como se ela não tivesse paredes nem fim, e quando andam com o ser e o corpo à deriva numa cama pequena demais para a solidão que sentem * "Kathy, I'm lost", I said, though I knew she was sleeping. (Paul Simon, "America")

Proustituta

Era tudo virtual, o nome e o nick, a foto e o currículo, as preferências e outras íntimas minudências. Conheceram-se num chat, e ronronaram como gatos, felizes por se terem descoberto. Ao fim de semanas de devassa e partilha, marcaram um encontro numa esplanada inocente a dois passos do Mosteiro dos Jerónimos. Iriam informalmente vestidos, vinculados por uma marca secreta para se reconhecerem. No dia agendado, sentaram-se os dois na esplanada, cada um por seu canto, dissimulados e estudando. Nenhum dos dois revelou o adereço com o óbvio arroba, porque se conheciam tão intimamente que não precisavam de artifícios. E, cada um à vez, lançou o isco. Ele, torto e tolhido, saiu da esplanada com uma loura altarrona, que até era prostituta, mas tinha cara de quem gostava de Proust. A sua amiga virtual, pequena e bailarina, saiu com o proxeneta da loura, que era o retrato vivo de quem procurava: alto, elegante e bem perfumado, e com uns olhinhos melosos de quem vive para amar os versos do mund…
Entrados na quadra natalícia, a Inspecção-geral de Actividades Económicas pensa desenvolver a nível nacional uma mega-operação denominada "Peru Legítimo", que irá fiscalizar os centros de criação e abate de perus, para apreender os perus genéricos e de contrafacção. Os agentes fiscalizadores, especialmente treinados e formados para esta operação, terão particular atenção em isolar todos os ditos perus que grasnem, chilreiem, cacarejem ou zurrem. Isolados esses perus, os agentes irão então tentar comprovar a legalidade da sua proveniência e as suas condições de saúde. Os que passarem nesse exame serão devolvidos aos seus criadores para estes poderem encaminhá-los para o mercado de distribuição de carne de peru.

Descobrimentos

Mapeou o seu corpo com mãos e os lábios, traçou a curva da garganta, o vale atrofiado entre os seios, a topografia táctil das suas coxas e nádegas, tirou o azimute do seu sexo oculto, destrinçou nas curvas de relevo a silhueta preciosa e delicada das suas orelhas e o ponto nevrálgico nas costas onde ela encordoava meridianos quando os lábios dele o atingiam. Quando os seus corpos se uniram como dois continentes dançantes de Wegener, ele afiançava com a segurança dos seus cálculos e angulações: «És o meu mapa-mundo».

She

Ela sonhou que era uma borboleta, e que o namorado a espetava em cima dum veludo azul.

He

Sonhava que estava no meio duma orgia sexual, com corpos de membros entrelaçados. Até acordar dentro duma vala colectiva.

iniciação

Um desconto, nunca se despreza. Achando que chegara a hora de explicar ao filho os factos da vida, levou-o a uma casa de meninas de que o filho era sócio-gerente.

simetria

A matrona já levava vinte e dois anos de trabalho na fábrica, e sempre a desempenhar a mesma tarefa: sentada defronte duma banda rolante duma linha de montagem, recebia os frascos que lhe chegavam da direita, e com uma ligeira pressão do dedo polegar da mão direita, fazia capsular a tampa plástica. Uma ligeira pressão multiplicada por milhares de horas de trabalho. Começou a sentir dores agudas no dedo polegar, que se tornaram insuportáveis. A mão estava deformada. Foi a uma junta médica e colocaram-na de baixa, para descansar a mão. Uns meses depois voltou ao activo e à mesma tarefa e, ao fim duma semana, as dores voltaram, ainda mais intensas do que antes.
O gerente da fábrica chamou-a ao gabinete, para tentar resolver o problema. Começou por tentar explicar-lhe as coisas com o recurso a uma parábola: "Tente imaginar um homem na rua que tenha só um braço. Todos reparam que ele só tem um braço porque o outro braço se agita com frenesi como se tivesse concentrada nele a energia d…

Coisa pouca

«Não preciso que precises de mim, que me ames ou sintas paixão» confessou ela, a cara junto a si no leito «Não preciso que a minha presença faça nascer versos em ti ou te dê tusa. Preciso apenas que estejas por aqui, que existas, sólido e concreto, como um ferro no cais onde atar as amarras, uma fechadura ou uma maçaneta de porta que se toque e se abra, um bico de gás onde cozinhar. Preciso que estejas por perto, suportando sobre os ombros os céus que, de outro modo, desabariam sobre mim».

terra

É certo e sabido que cada pessoa traz consigo o seu anjo-da-guarda. Não é uma imagem ou uma fábula, o anjo-da-guarda existe e acompanha-nos. A Rafael, haviam-lhe ensinado isso logo em pequeno, na mesma época em que lhe explicaram como se limpava o rabo e o proibíram de dar ao cu em cima da irmã. Para Rafael, não era um conceito transcendente, ele conseguia imaginar o anjo-da-guarda, visualizava-o como um ser pequeno alado pousado sobre si com a leveza de uma nuvem, devia ter um pé em cada um dos seus ombros com as asinhas a agitarem-se no ar como as de um colibri, nas mãos talvez erguesse uma espada ou um escudo para o defender das forças do mal. Quando andava na rua, olhava com atenção a sua própria sombra, tentando descortinar a silhueta do seu defensor, e lembrava-se de, com oito ou nove anos, procurar dormir de barriga para baixo para não o esmagar sem querer.
Depois, veio a adolescência tempestuosa, e abjurou do anjo-da-guarda como negou tantas outras coisas na ânsia de se afirmar…

author

É só isto que eu gosto de fazer: escrever umas merdas. Não tenho gosto nem jeito para muitas mais coisas, sou um ser social eminentemente desastrado e não tenho aptidão para o comércio de influências ou para as feiras de simpatia. Sou um bronco, e escrevo umas merdas, e até nem sou muito mal pago por isso. Dão-me dinheiro e alojamento e, por vezes, subsídio de risco.
Os meus clientes são, quase sempre, políticos. Andei muitos anos em comitivas presidenciais, arranjavam-me um lugarzinho na bagageira de uma limusina ou no assento detrás duma carrinha SportWagon, munia-me do meu portátil e, todo encolhido, ia escrevendo uns discursos para o momento. Estes eram quase sempre iguais, um pouco de retórica e umas achegas suaves aos temas quentes do momento, tudo numa linguagem acessível onde as figuras de estilo eram substituídas por citações de figuras com estilo que toda a gente conhecia, como Rimbaud e Diderot, Montesquieu e Dideu.
Mas não era um emprego bem pago, pelo que troquei o Presid…

quasímodo

É espantoso o que os adereços de teatro conseguem fazer por um homem. Quem o visse na rua, certamente que se impressionaria com o seu triste aspecto mas, no palco, deixava ao Sol a sua pele de barata e metamorfoseava-se. Uma cinta apertadíssima disfarçava a barriga e endireitava um pouco a corcova, quatro ou cinco camadas de maquilhagem ocultavam as bexigas e as cicatrizes nas orelhas e nas maçãs do rosto, outras tantas, a costura na maçã de Adão. O nariz torto ficava bem sobre uma máscara para os olhos, e roupas largas e enfunadas não deixavam suspeitar das suas pernas atrofiadas e do seu ventre com as tripas a quererem romper uma pele finíssima como um véu. Quando subia para o palco, tornava-se o rei-Sol, e a sua alegria era tanta que voava sobre a cena, suspenso de um cabo oculto. Enquanto a peça se manteve em cena, foi feliz, não obstante uma ou duas cargas de pancada com que o mimaram quando tentava fugir do teatro com a sua nova pele em cima.

À Margarida

Mulheres
As minhas três irmãs estão sentadas
sobre rochas de obsidiana preta.
Pela primeira vez, a esta luz, consigo ver quem são.

A minha primeira irmã está a coser o fato para a procissão.
Vai vestida de Senhora Transparente
e todos os seus nervos estarão à vista.

A minha segunda irmã também está a coser
sobre a ferida do peito, que nunca cicatrizou completamente.
Espera, enfim, aliviar este aperto no coração.

A minha terceira irmã está a contemplar
uma crosta vermelho-escura que a ocidente se estende ao longe sobre o mar.
Tem as meias rotas mas é formosa.

(Poema de Adrienne Rich, com tradução de Margarida Vale de Gato, colhido no Insónia)

Onde mora o Wally

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Berloque Holmes

O arqueólogo chegou à aldeia. Era Verão, época de caça dos arqueólogos. Esperava-o o padre, o presidente da Junta e o senhor professor, que nas terras perdidas no cu de Judas, são eles que detém a tutela do conhecimento. Ao que vinha? Um achado, doutor, clamava cada um à vez, acharam um achado e era bom o senhor doutor ver. E lá o mostraram, briosos do tesouro que a sua aldeia esquecida possuía agora: sob o chão levantado duma casa antiga, um túmulo, um esqueleto de quase dois metros rodeado de artefactos: pedaços de louça, duas achas de pedra polida, uma garrafa vazia de Coca-Cola entre os dedos da mão, restos de corda entrançada preservados pela lama. O homem calçou luvas, para não contaminar o esqueleto, que podia ser de fraca saúde. Estudou os artefactos, pôs um dedo no ar para ver de que lado vinha o vento, esgravatou a terra, colheu amostras. Depois, muito pesaroso, anunciou: este achado é uma fraude, não é do Neolítico, não pode ser, a minha extensa experiência diz-me que estes…

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O teu pai partiu. Quando volta ele? Em que voltas se perdeu?
Perdeste a fortuna e o teu pai partiu, não te pode valer,
cegaste de raiva, feriste por despeito, apunhalaste o peito,
mas o teu pai partiu, não te pode defender.
(Ele não está em lado algum)
Estúpida freira e estúpidos catequistas, que te encheram
a moleirinha
de patranhas
sobre o teu pai do céu, que
te protegeria na adversidade e te guiaria
na confusão.
Estúpidos, que não sabiam,
que o teu pai partiu.

8 de Março

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De Vinícius de Moraes:

Receita de mulher As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre u…
A D.Henriqueta recebeu nos seus domínios de solteirona incondicional, um catálogo de venda postal. Entre utensílios de jardim e artigos de taparoeira, vinha uma foto de uma loura platinada com um vibrador encostado à face: "massajador facial", lia-se. A D. Henriqueta encomendou-o e não fez disso segredo a ninguém. A encomenda tem sido motivo de gracejos nestes últimos meses, uma ironia insatisfeita, porque ninguém conseguiu saber se ela o usa como vibrador ou como massajador facial. O que todos concordam, é que a D. Henriqueta, por estes dias, anda com muito boa cara.

onde está?

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Aparcaram o carro no miradouro, á noite.
"O amor é como um Tamagochi - instruiu ela, com o tom pedante das professoras primárias do antigamente - Temos de zelar por ele todos os dias, ver o que lhe falta, nutrir e cuidar dele".
"Está bem! - concordou ele - deixa-me foder-te e eu tamagocho tudo o que quiseres!"
Dito e feito. Com o nível de sémen muito alto, já no amarelo, ele queimou todas as etapas, deitou-a no banco e começou a penetrá-la. Nesse momento, o corpo dele estremeceu, ouviu-se um som sibilino de fuga de ar comprimido e imobilizou-se como uma estátua, dentro e em cima dela.
"Deve ter saído do sítio" - ciciou ela, tacteando o seu pescoço e costas - "Se ao menos eu soubesse onde costumam esconder a pilha do Tamagochi..."

I, Human

«Sim, doem-me as costas, vergadas de tantos trabalhos e cansaços, e tenho as mãos deformadas de manusear brinquedos numa linha de montagem, os meus ouvidos foram matraquilhados pelo barulho das máquinas e já não são o que eram - só consigo ouvir a música e os noticiários em altos berros. Ainda assim, faltam-me, pelo menos quarenta e três anos para a idade da reforma. Nessa altura, vai haver robots para estas tarefas repetitivas e massacrantes, e a nós, humanos, calharão os trabalhos menos rotineiros e mecânicos, como trazer os robots nas palminhas e carregá-los ao colo de um lado para o outro, e contar-lhes anedotas sobre pessoas estúpidas e fazer-lhes companhia no refeitório, porque serão demasiado preciosos para se deteriorarem e seria um prejuízo enorme para o país se entrassem de baixa ou ficassem deprimidos».

tempos difíceis

Depois da OPA dos financeiros, a OPA dos tesos: esgravata-se os bolsos, revira-se a carteira no ar, e surge a exclamação: "OPA! Já não tenho dinheiro para o café!".

conversa parva

- Para onde foste? - perguntou a vizinha.
- A Paris - respondeu - só em Paris se encontram pessoas como deve ser.
- Ah, eu não acho! – ripostou – o nosso Fernando ficava-se pelo Martinho da Arcada

casa junto à linha férrea

Sabes, as casas vazias, quando os donos vão de férias ou não voltam nunca, tem aqueles móveis cobertos por aquelas mortalhas brancas para os proteger do pó e da humidade. As casas vazias… queria dizer qualquer coisa com as casas vazias. Que estão vazias? Não, absurdo. As mortalhas! Acho que eram as mortalhas, mas não me alongo nisso, que fazem lembrar-me cigarros e aquelas caixinhas de madeira com cinta onde se arrumava o tabaco continental. As casas vazias, não gosto quando as casas estão vazias, e não gosto dos lençóis sobre os móveis, que torna tudo tão opressivo e intimidante. Até as ratazanas evitam guinchar e, com este silêncio, o espírito fica feito em água e torna-se difícil morar nelas.

espiral

Era um miúdo andrajoso, calções velhos, uma camisa aberta com as abas atadas abaixo do umbigo saliente, sandálias nos pés e palhinha de capim ao canto da boca. Olhava vagamente o alcatrão e o movimento dos aviões, com os dedos duma mão na rede, e acenando vagamente com a outra. Foi uma imagem nítida, surpreendida quando o avião manobrou na pista antes de levantar voo. Foi a sua última memória de Moçambique. Tem voado em círculos desde então.

aprender

Foi com o Braille, que o amor se fez luz. Quando começaram a namorar, ela queixava-se de que ele era só vaidade e não a compreendia, que era insensível e egoísta, que tinha tesão a mais e sentimentos a menos, e só procurava não perder muito tempo com ela. Foi por sugestão dela que experimentaram o Braille, um encontro após outro, os dois confiaram-se a uma intimidade cumulativa onde ele, como se fosse cego, percorria-a com as mãos tentando decifrar a linguagem da sua pele. Num labor paciente e apaixonado, foi desvendando os recantos e formas dos seu corpo, descobrindo versos que beijava e lambia, textos sudando desejo que encerrava nos braços. Foi com o Braille que tirou os olhos de si e aprendeu a vê-la.

ele

Sempre sentiu que do outro lado - do mundo, do muro ou da consciência - havia quatro ou cinco palavras elementares onde se umbilicavam todas as outras. Começou a descartar as palavras excedentárias para isolar as que interessavam. Não as encontrando, foi devorado pelo silêncio.

tempo

Trinta e cinco pessoas num pavilhão a fazer horas, esculpindo, moldando e costurando horas, com expressão ansiosa. E, à porta, o cliente, rejeitando sempre a mercadoria.

poupando palavras

Desde a infância habituou-se a ter amigos imaginários que tornavam inimaginável a solidão. Quando fez cinquenta anos, convidou-os a todos para a festa de aniversário e lotou um salão de banquetes.


Habituou-se a engolir as palavras, a não manifestar revolta ou desacordo, a não dizer nada de que se pudesse arrepender, ou criar inimigos que não conseguisse enfrentar. Sofria agressões e insultos, mas em silêncio, com as palavras sufocadas no seu estômago a agudizar a náusea que tudo lhe despertava.


Foi deixando gradualmente de escrever para poupar palavras, entesourando-as com desvelo no porquinho-mealheiro. Queria escrever com elas um romance, uma obra maior. Quando, finalmente, o romance conheceu a luz do dia, os editores contactados consideraram-no uma porcaria.

manhã

A meia-noite era o cabo da Boa Esperança, do outro lado esperava-o a Índia ígnea e solar de Surya e Xiva. Dobrou a meia-noite e ficou a espreguiçar-se nas margens do Índico, a comer caril de galinha e a beber cerveja Laurentina.

Carisma

“Venham, vamos fumar um cigarro enquanto as cervejas ainda estão frescas” - exortou um dos companheiros. Deixou-se ficar enquanto eles se encaminhavam para o topo da carruagem do comboio. Até era bom ficar sozinho, os outros estavam a fazer muito barulho e isso podia não cair bem. Desde o início da viagem que ele convergia toda a sua atenção para uma passageira isolada que lia atentamente um jornal, sublinhando nele passagens com uma caneta. Não deveria ter mais de vinte anos, trajava uma blusa de veludo negro e umas calças roxas de Lycra. Os cabelos, de um castanho brilhante, caíam-lhe sobre o peito. Apreciava sobretudo nela o recorte firme dos seios que se adivinhava sobre a blusa e os lábios carnudos e perfeitos.
Levantou-se com um propósito fixo. Aproximou-se lentamente dela até conseguir espiolhar o jornal por cima do seu ombro. As folhas em que ela tanto escrevia, eram de um suplemento de Economia de um semanário.
- Viva - exclamou ao seu lado, fazendo-a sobressaltar-se - como é q…

um acaso

Os homens franceses defendem a noção de que uma mulher fumar depois do sexo, é sinal de insatisfação.
Também defendem a proibição de fumar nos quartos de hotel.

Mito rural

No lugar onde queria construir a casa nova, havia um poço. Um poço era um caso sério para se conseguir autorização para construir. Os tipos implicavam, mas o Moreira não desistiu. Estava reformado, trabalhara a vida toda nos States, e decidiu investir umas centenas de dólas para conseguir a licença. E assim foi. Para prosperidade dalguns incorruptíveis funcionários da autarquia, construiu a sua casa mesmo por cima do poço. Uma cave larga semi-subterrânea com janelinhas pequenas para a rua, e dois pisos por cima. O poço ficou no meio da cave. A mulher queria que ele o tapasse, mas qual quê! Mandou fazer uma estrutura em ferro forjado para o embelezar, de onde pendia uma roldana com balde. Ao topo da cave, mandou carpinteirar um bar em estilo rústico, e junto a ele, instalou uma garrafeira e uma mesa de jogo onde reunir os amigos. Estava tudo perfeito, uns quadros de cenas de caça completavam o cenário. Quando a sua casa e a sua acarinhada cave estavam prontas, ocorreram as cheias. Um I…

aplicações

"Este é o melhor plano que o Banco tem para lhe oferecer" - garantiu o funcionário - "Um plano de poupança activa. Você aplica um dinheiro certo todos os meses, e não lhe faltará o guarda-chuva para os dias chuvosos".

"Não sei..." - hesitou - "Tenho de pensar...consultar a mulher...".

"Então fazemos assim. Eu parto do princípio que o senhor aceita a sugestão e vou adiantando os pormenores. O senhor conversa com os seus botões e depois diz-me alguma coisa. Vou ter de manter captivo na sua conta cem euros para avançar, se o senhor não quiser, diz-me alguma coisa e eu descaptivo o dinheiro".

"De acordo".

Dias depois, arranjou um instante para ir ao Banco e avisar o bancário que, afinal, não estava interessado no PPA. O homem encaixou com polidez. Abriu um largo sorriso, apertou-lhe calorosamente a mão e combinaram um outro dia para discutirem outras alternativas. Quando se dirigia à saída ouviu-o sussurrar a uma colega: "Dá-me …

Bichanos

Recebi um mail alusivo ao meu post anterior, no qual a remetente, um pouco irritada, faz uma apologia dos gatos, que considera e cito: "o gato é o verdadeiro animal de companhia, são ternos, dedicados, e ajudam-nos a reencontrar o equilíbrio...". Nada a opor. O texto que motivou esta reacção era uma historiazita e não o princípio duma guerra santa contra os gatos. Pessoalmente, acho que as pessoas, em geral, são mais pessoas de gatos ou mais pessoas de cães, e isso tem a ver com a sua natureza e com aquilo que lidaram enquanto cresciam. Eu talvez seja mais pessoa de cães e nisso pesa a circunstância de, na minha infância e princípio da adolescência, a minha família chegar a ter quatro e cinco cães de uma só vez, entre eles o Lord e o Vinte-e-Sete referidos no post anterior. O primeiro era um cão vadio que ficou connosco e já devia ter trazer a sua dose de pancada, porque tinha tanto medo que dava pena, a mim, no entanto, não estranhava e seguia-me por todo o lado, o que era …