reconhecimento

Não fosse dar-se o caso de um dia cegar, e ficar sem saber o que fazer, de tempos a tempos repetia um exercício de orientação na sua própria casa. Era a sua casa, chamavam-lhe barraco, mas era a sua casa, e o exercício era elementar: percorria-a de olhos fechados rememorando o lugar e a disposição de cada coisa. Cerrou com força os olhos e entrou, ao seu lado direito tacteou um móvel de cozinha em madeira prensada que resgatara do lixo, tinha encastrado um lava-louça enferrujado e, em cima do escorredor, podia encontrar a meia-dúzia de louças e talheres que usava. Tinha de ter cuidado para não tropeçar no jarrricão azul com água do fontanário encostado ao móvel. A seguir, e cortando o canto da casa, o banco improvisado, uma porta de frigorífico apoiada em dois caixotes de madeira. No canto oposto, a sua pequena cama e, aos pés, uma escrivaninha de madeira com tampo e tudo (as coisas que as pessoas deitam fora). Não podia esquecer-se de que no eixo da sua casa tinha uma mesinha de centro, da qual já pensara desfazer-se por poder cair nela quando a luz se apagasse. Conferiu os sítios onde costumava largar os óculos e os comprimidos, e era tudo. Não! Ainda faltava o anexo. Voltou a sair da casa de olhos fechados, flectiu à direita, e entrou nos sanitários. Partira o canto de uma tampa de esgoto e fixara aí uma pia turca, em volta erguera a casa-de-banho e, encostado a ela, a casa. Entrou cuidadosamente. Com o pé encontrou o rebordo saído da pia, depois, achou o norte à sua reserva de papel, à bacia de plástico e ao balde com água a um canto. Satisfeito com o teste, abriu os olhos. Ficava sempre mais tranquilo. Sempre tivera aquele medo antigo de se achar cego e desorientado e cair por umas escadas abaixo ou por um poço de elevador.
(Foto, como é bom de ver, do site Portugal no Seu Melhor)

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