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Primavera

Naquela fria manhã de Inverno, o casal e o filho pequeno foram surpreendidos por um singelo prodígio, no jardim desolado de árvores despidas e relva anémica, soavam trinados alegres. Procuraram a fonte daquela melodia e descobriram um casal de canários a espreitar da janela do sótão, com a plumagem colorida dos rituais de acasalamento. Talvez quisessem ficar por ali e fizessem ninho numa das árvores do jardim. O certo é que os canários não pareciam ter pressa em partir. Sob os rogos do filho, o pai levou-o ao colo até ao sótão onde os poderiam ver melhor. Aí, o rapaz parecia maravilhado com a presença daquelas criaturas pequenas a saltitar em cima da pedra, e quis dar-lhes de comer. O pai mostrou-se relutante, pesavam-lhe muito os anos de gente crescida. Tinha imensos motivos imbricados uns nos outros para não dar muita confiança àquelas aves, existia a gripe das aves, e germes e moléstias várias que os pássaros acumulam nas penas ou, simplesmente, a possibilidade trabalhosa daquelas aves aproveitarem a janela entreaberta e esvoaçarem para o interior, onde poderiam sujar tudo até os conseguirem convencer a sair. Mas ante a insistência do rapaz, acedeu e foi à cozinha buscar pão. Procurou pão duro, que o outro fazia falta à sua família, não encontrando, esvaziou o saco do pão e levou-o até o sótão: as migalhas do fundo constituíam uma iguaria insuperável para aquelas aves com cérebro de minhoca. No sótão, permitiu ao filho abrir uma frestazinha da janela, suficiente para passarem migalhas e não canários, e por aí ele foi candongando pequenas migalhas que os canários devoravam com apetite. À primeira suspeita de que eles queriam entrar na casa, o pai fechou a janela e trancou-a ante os protestos do rapaz e, para tirá-las da vista, cerrou a cortina espessa. O filho teve uma birra e, do outro lado, desenrolou-se uma birra semelhante assinalada por bicadas no vidro e farfalhar de asas. Acabou a passarada. Na manhã seguinte, ao sair para o telheiro para ir para o trabalho, ouviu à mesma os trinados dos canários no alto da casa. Sorriu cinicamente. Eles eram como algumas pessoas, tão estúpidas que nem sequer percebiam quando não eram desejadas. Meteu a chave na fechadura do carro e só então constatou a evidência: o seu carro que, na véspera, fora objecto de uma exaustiva limpeza domingueira, estava todo enxameado de caganitas de pássaro. Além de estúpidos, eram porcos.

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