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Uma história macaca

A página em branco, a maldita página em branco, passou ao de leve o bico da caneta pela folha de papel enquanto tentava ordenar ideias, a caneca vazia de cerveja no tampo da mesa parecia uma torre de cristal, levantou-a e olhou estupidamente a circunferência líquida. Faltara ás aulas nocturnas, mas não se sentia chateado com isso. Estava ali há horas tentando escrever algo de original, e a única coisa que conseguira fora aquela cerveja marulhando no estômago e que parecia ressoar na sua cabeça como o mar no interior de um búzio.
Quando ergueu os olhos, viu a sua namorada que voltava ao café depois de mais uma aula. Tentou encolher-se por detrás da caneca para que ela não o visse, mas era tarde demais. Ela sentou-se ao seu lado com um sorriso trocista nos lábios carnudos e pintados. Quando tentou falar, arrependeu-se, o cheiro intrusivo a tostas mistas, deu-lhe a volta ao estômago e esforçou-se para não despejar tudo. Ela acendeu um cigarro e brindou-o com uma baforada de fumo para o chatear e depois foi conversar com uns colegas noutra mesa, não tirando os olhos dele.
Tinha de escrever qualquer coisa. Começou a redigir: "um macaco...dois macacos...três macacos." com um ar muito pensativo e compenetrado - "quatro macacos...cinco macacos...". O seu professor de Química passou ao lado e cumprimentou-o respeitosamente. Respeito. Mostrava respeito por um autêntico homem de letras. Começou a sentir-se eufórico e a escrever mais depressa como um poeta visionário, e já ia nos duzentos macacos quando a sua namorada fez menção de regressar ao seu tabernáculo literário. Num gesto teatral, mostrou uma expressão de profunda tristeza e rasgou em pedacinhos o seu original. Só a perfeição lhe interessava. Levantou-se a custo e reuniu-se-lhe. Ela acompanhou-o ao balcão onde ele pagou a conta levando uma eternidade para conseguir separar o dinheiro em cima do balcão pegajoso. Saíram para noite fria. Como se estivesse possuído por imperativos criadores, ele lá ia garatujando grafitis nos vidros embaciados dos carros enquanto caminhavam. Ela abraçou-se a ele como se tentasse apaziguar a sua inquietação literária, e ele começou a ficar com ideias. O corpo dela colado ao seu, aqueles peitos moldando a camisola negra de algodão, aquela boca adorada que se aproximava do seu ouvido: "Vemo-nos amanhã" - proferiu ela subitamente, e afastou-se deixando-o transido de frio e de desejo sob a luz estelar dos néons. Quando a sua consciência emergiu da caneca de vidro, lembrou-se porque é que a sua namorada se tinha ido embora, e retomou mentalmente a elaboração da sua obra-prima: "duzentos e um macacos vermelhos/ duzentos e dois macacos vermelhos/ duzentos e três macacos vermelhos..."

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