Paleco

O turista saiu do seu carro com um câmera fotográfica a tiracolo, e a primeira coisa que viu foi o nazareno sentado no murete do promontório do Sítio, a uns cinco metros da capela do milagre. Trajava o fato típico, barrete de lã com borla, camisa de escocês, calças pardas de surrobeco com uma faixa de lã preta na cintura, e nos pés, dois tamancos, dentro dos quais vestira grossas meias de lã por causa da invernia. Aproximou-se do murete e o nazareno interpelou-o:
- Não me quer tirar uma fotografia? Ficava muito bem no seu fotolog. Se subir para cima daquela caixa de madeira, consegue enquadrar-me com o casario branco da Praia...
- Você é da Nazaré? Não tem pronúncia nenhuma!
- Sou da Amadora, mas vivo aqui desde que me reformei.
- A explorar os turistas...
- Não exploro ninguém, poso, e as pessoas dão o que querem, três, cinco euros. Tenho o que se chama a cor local, e com este rosto curtido e as patilhas brancas passo bem por um velho lobo do mar, e as pessoas dão o dinheiro por bem gasto. Quando você se reformar e se a sua reforma for igual à minha, eu arranjo-lhe um lugarzinho aqui ao pé para ganhar umas massas.
- Em todo o caso, você não é um nazareno genuíno e isto é um logro.
- Logro? Logro são as fotos retocadas das senhoras com pés-de-galinha e dos índios de Curtis. Eu sou um nazareno, e pronto.
- Tudo bem, agradeço mas passo. Já agora, uma informação, conhece aquele homem que está ali à beira do precipício? Se o tipo não tem cuidado, ainda cai...
- É o Bértolinho. Anda há três dias para tentar atirar-se dali.
- E ninguém faz nada? Não o tentam chamar à razão?
- Amigo, ninguém deve interpor-se entre um homem e a sua própria morte. Se o Bértolinho quer que a morte chegue mais cedo, a vida é dele. Mas se ainda não o fez até agora, já não deve fazer.
- Há muita gente a atirar-se cá de cima?
- Alguma. Vem gente de muitas partes para morrer aqui, e sabe porquê? Por causa da Nossa Senhora. A Virgem salvou o cavaleiro D. Fuas de cair no abismo, e as pessoas vem cá para morrer, mas têm a secreta esperança de um milagre, de caírem nos braços da Virgem ou na nuvem dela ou seja lá onde for. Mas não há milagres e acabam desfeitos nas pedras como um monte de carne picada. O pior, é quando sobrevivem à queda...
- Vou tentar fotografar-lhe a cara. Isso é que seria uma foto genuína, a de um homem em diálogo com a morte.
- Mas não se aproxime muito.
- Esteja descansado. O zoom da minha máquina é capaz de focar um pêlo da barba dele.
Aproximou-se com passos lentos, a máquina em descanso junto à perna. Sentou-se no murete, posicionou a câmera e fez um plano do seu rosto. Estava demasiado enviesado, não conseguia captar a carga do olhar, a expressão. Esperou, a máquina apontada, ostensivamente. O Bértolinho moveu-se, rodou sobre os calcanhares e deu de caras com ele. O seu rosto transfigurou-se numa expressão de desespero e correu para o vazio, lançando-se do rochedo.
Baixou a máquina, aparvalhado. Sentiu as mãos geladas.
- Não pense mais nisso - disse a seu lado o pseudo-nazareno - você acaba de poupar cinco euros...

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