O jovem chegou com tempo, antecipara as suas rotinas inflexíveis e já fora à farmácia trocar a seringa. Trajava umas calças de ganga coçadas e um casaco, também de ganga, sobre um camisolão azul-escuro. Na cabeça, um gorro de lã mal-segurava os seus cabelos fartos e hirsutos. Eram oito e trinta da manhã e o seu filho e a mãe estavam, como era hábito, no café de esquina junto à Escola, onde tomavam o pequeno-almoço antes dela o deixar no átrio da escola e rumar ao trabalho. O filho, mal o viu, saltou da cadeira onde estava empoleirado e juntou-se a ele na porta do café. Ele abraçou-o, mantendo quieto a seringa no bolso do casaco com uma ligeira pressão do cotovelo. Trocaram breves palavras, e ele beijou o filho, afagando a sua face com a mão áspera de pele repuxada. A mãe do seu filho veio uns segundos à porta, acenou-lhe, e voltou para a mesa. "Ficas comigo?" - perguntou-lhe o rapaz - "Hoje não pode ser. A mãe vai levar-te à Escola, e eu tenho muitas coisas para fazer". O filho abraçou-se ao seu braço e correu para junto da mãe com um sorriso no rosto. Ficou uns segundos quieto e pensativo, puxando e repuxando o gorro na cabeça, e num ápice, afastou-se com passos apressados e galgou os degraus metálicos do passadiço sobre a linha férrea, em busca dos seus destinos imperativos.

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