the end, my friend


Tenho uma grande predilecção pelo jogo do dominó, acalma-me jogar com os meus amigos, sentados nos quatro pontos cardeais entre o fumo sorvido do tabaco e os arrotos da cerveja, procurando o norte aos pontos e sequenciando vitórias breves. Conhecemo-nos há anos, jogando no Clube Ferroviário do nosso bairro, já aqui andávamos antes dos nossos filhos nascerem e de construirmos casa e família e agora já quase não conversamos, a gente se entende com expressões sábias e vagos grunhidos, reagindo sumariamente às perguntas dos outsiders ou às notícias da televisão. Dos outros três, foi Abel quem me desviou da elementar prática do dominó, falando com um insólito entusiasmo de um espectáculo montado num estádio da Coreia com cento e vinte mil peças de dominó. Fiquei para ver a peça na televisão. Com elas montaram de tudo, ícones, figuras, cascatas de peças em estantes, flores a irradiar de um centro e abrirem-se enquanto as peças tombavam em cadeia. Aquilo era de facto um assombro, e provocou-me distúrbios psicológicos irreversíveis. Comecei a comprar caixas e caixas de peças de dominó e arquitectar pequenos espectáculos no segredo da minha garagem. Elaborava formas e processos de fazer as peças de dominó caírem em cadeia com novos efeitos e montava e remontava esses truques até sentir que estava próximo da perfeição. Comecei a passar tempo demasiado na garagem, já quase não via a mulher e os filhos e, no Clube, nunca mais dei o ar da minha desgraça. Desapareci para o mundo. O Abel veio procurar-me, trazia a mulher com ele e pediu-nos que fôssemos a casa dele. Eu estava cheio de olheiras, disse-me, mas agora ia ter tempo para descansar. Para já, não podia dizer porque nos chamara mas, em breve, íamos compreender tudo. No alpendre largo da casa dele, estavam lá os outros dois companheiros de jogatana, mais a sua família chegada. Abraçaram-me com alegria. Estávamos outra vez reunidos, e nem faltava uma mesa e quatro cadeiras a um canto para matarmos saudades das horas de jogo. O Abel trouxe uma garrafa de champanhe e distribuiu charutos e bombons pelos presentes. Estava cheio de engulhos para falar, olhando de soslaio os filhos a correr no jardim mas, por fim, desembuchou. O mundo estava a acabar, aliás, ia acabar hoje, era o dia do Juízo Final, o dia do peido-mestre do universo, em que anjos de espadas de fogo iam separar o trigo do joio, e os mortos iam saltar das sepulturas, agravando o excesso de população nas ruas. Como é que sabia? Sabia apenas. Sonhara um sonho vivido, e estava tudo a acontecer como no sonho, tim-tim por tim-tim. Ficamos em silêncio, não houve gritos nem desespero, apenas uma paz profunda que rumorejava como a hera sob a brisa da tarde. As mulheres foram brincar com as crianças, com sorrisos cosidos sobre a angústia, e nós sentamo-nos à mesa a jogar dominó. Umas horas depois, as coisas começaram a acontecer, a terra estremecia ligeiramente e as poucas nuvens no céu começaram a adquirir um esbatido tom prateado. As famílias aconchegaram-se, preparando-se para a noite eterna. Sorvi um gole de champanhe tépido e notei outra coisa estranha: por todo o lado começara-se a desenhar linhas, ao longo do céu e das montanhas, no chão à nossa volta e no volume das casas e das árvores. Depois, notei que não eram apenas linhas, era uma forma rectangular repetida até ao infinito, eram peças de dominó. Deus não joga aos dados, joga dominó. O universo estava a desconstruir-se e agora conseguíamos divisar as suas linhas de costura, a estrutura visível como um esqueleto desenterrado. Quando ouvimos um fragor crescente a abalar tudo, notamos que se iniciara a reacção em cadeia e que as peças começavam a tombar numa sequência vertiginiosa que dissolveria o universo até não existir mais nada.

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue